Panem et circenses. A política de pão e circo. É engraçado em como a manipulação de massas está sempre ali, imperceptível. Tangendo os olhos daqueles que desejariam ver, mas cujas orbes estão sempre mais atraídas pelo que parece fantástico, incrível. Eu gostaria muito de dizer que o manipulador de tudo aquilo estava plausível de todos os detalhes que guiariam àquilo. Duvido. Ou melhor, sei que não, afinal, eu sou a ceifadora. Eu sei de tudo.
Na Roma Antiga, a aristocracia incentivava a plebe a ficar desinteressada em política e dar atenção somente para prazeres como a comida e divertimento. Eram as músicas altas, as peças nos anfiteatros, a comida à baixo ou nenhum preço e por fim, a atração principal. Todos os romanos devotavam sua atenção para aquela mínima preciosidade, o momento de descontração, e questões que antes eram relevantes pareciam gradativamente perder seu valor. Eu nunca achei que fosse ver algo como aquilo outra vez, não de mentes tão espertas e engenhosas quanto as que tínhamos nessa festa. É quase... Lamentável. Mesmo o Dragão, coitado, perdido em sua própria manipulação, distraído com a sereia que todos estimam que seja a única com quem se relacionou nos últimos cem anos. Vejo as pessoas dançando, a música que gera o frenesi que desvia cada um dos presentes no evento da capacidade de tecer linhas de pensamento que os lembrem pelo que lutam. Eu sinto, no ar. O cheiro metálico e melancólico. Um sopro em meu ouvido. Um nome. Trabalho está por vir.
Aquele humano atrapalhado vem para a frente, anuncia a vencedora. Tenho que revirar os olhos uma ou duas vezes, e observo o sorrisinho entre as sereianas. Manipularam o concurso mais uma vez, estimo. Observo tudo com minha simplória expressão entediada: o pior ainda está por vir. Passa da meia noite quando sei que tenho de desempenhar minha função, e abandono o descanso apoiado na pilastra para subir o altar onde estava a fogueira da festa.
É uma tradição, como tudo nesse evento. Acender uma fogueira para comemorar as vencedoras, e também, anunciar o fim da festa. Pontualmente, logo na metade da noite. As bruxas se utilizam de magia para incendiar, enquanto todos pensam ser um artifício da tecnologia atual. Não, é realmente só preguiça de subir no altar imenso. Ouço os tambores tradicionais em comemorações como aquelas, os sereianos adoram o som daquele instrumento em particular. É o único que eles não podem ouvir debaixo d’água, e quando em terra, aproveitam o máximo de seu som peculiar. É no momento em que as bruxas proferem as últimas palavras que eu me encontro no ápice do altar. Encarando a fogueira.
A primeira chama não vem sozinha. O som estridente dessa vez não é o microfone do coveiro. Não. É muito pior que isso. Penso na tonicidade de tudo aquilo, e, como em todas as vezes, imagino que se houvesse a possibilidade de chorar, algo tão belo quanto a morte certamente me arrancaria lágrimas com toda alma que ceifo. As pessoas não entendem. De onde o grito vem. Eu as vejo olhando o alto, procurando a origem dos berros imersos em sofrimento. É só quando outra menina, em terra, grita também, que todos percebem. Aquilo vem da fogueira. E eu não posso fazer nada, senão observar. Meu trabalho não é salvar, é guiar as almas. Ela ainda não chegou ao fim de seu sofrimento. Vejo lágrimas, apesar de todo o calor. É uma bruxa, eu a reconheço pela peculiaridade com a qual sempre se portou. Seria, talvez, uma das maiores patrocinadoras da paz, dentro do coven Minus. Isso rapidamente me leva a voltar os olhos para as bruxas, que agora gritam em dor. Elas não estão unidas em carne, não estão unidas em magia, mas o elo que compartilham faz com que sintam da mesma dor. Elas sofrem pela sua irmã.
E logo os humanos chegam. O Dragão tem de agir, e barrar, tentar explicar de alguma forma para os bombeiros que aquele era um caso perdido. Eles jamais entenderiam, mas os seres sobrenaturais ali conheciam a lenda. Era o fogo mágico. Ele só se apagava quando o último festejante deixasse a festa. Não existia nada a ser feito, por mais que as bruxas tentassem reverter o feitiço.
Quando os gritos enfim pararam, eu encarei minha vítima e acatando seu último desejo, livrei-a de tamanho sofrimento.











