Banquete dos Abutres
âAo mero rumor da minha morte, os que dançariam sobre meu tĂșmulo vĂȘm em bando como cĂŁes famintos.â Ă estranho perceber como algumas pessoas aguardam nossa queda com a mesma ansiedade de quem espera o amanhecer. NĂŁo porque as machucamos, mas porque nossa existĂȘncia incomoda silenciosamente aquilo que elas nunca conseguiram ser. E entĂŁo aparecem. Uma a uma. Com olhos brilhando de crueldade disfarçada, rondando os restos antes mesmo do corpo esfriar. HĂĄ gente que ama funerais nĂŁo pela dor da perda, mas pelo prazer perverso de finalmente nos verem pequenos. SĂŁo os mesmos que sorriam sem verdade, que aplaudiam com inveja nas mĂŁos, e que transformariam minha ausĂȘncia em banquete. Como cĂŁes famintos, nĂŁo pela carne, mas pela satisfação de assistir alguĂ©m deixar de resistir. Mas existe algo que eles ignoram: algumas almas sobrevivem atĂ© na prĂłpria ruĂna. Porque hĂĄ pessoas que mesmo destruĂdas ainda assombram aqueles que desejaram vĂȘ-las cair. E talvez seja esse o maior desespero deles: perceber que nem a minha morte seria suficiente para me apagar.
â J.P.


















