Li uma vez uma lenda na qual se contava o seguinte:
Um gĂȘnio descobriu o poder da comunicação pelo pensamento. No inĂcio, foi uma delĂcia poder falar sem sons - sem gemidos, lĂĄgrimas, sussurros e sorrisos. Como no cinema mudo, as pessoas exultavam com o fato de comunicar-se pelo cĂ©rebro. Bastava pensar numa pessoa e, pronto! - fazia-se o contato. Mas logo os homens, com sua habitual incongruĂȘncia e, como disse Machado de Assis, sua sistemĂĄtica ingratidĂŁo, ficaram infelizes. Pois descobriram o vazio do silĂȘncio (que sĂł existe quando hĂĄ barulho) e viram como ele era nĂŁo apenas grato, mas essencial. Se nĂŁo era fĂĄcil viver num mundo ruidoso, no qual os sentimentos e as palavras de ordem superavam a compreensĂŁo, nĂŁo era fĂĄcil viver num universo no qual a comunicação era radical, completa e transparente. Pois, com o pensamento, nada ficava oculto, nada permanecia escondido e os mal-entendidos que inventam os Ăłdios e os amores; a fĂ© que produz os milagres e os poemas; os primitivos âacho que vocĂȘ nĂŁo me entendeuâŠâ; os selvagens âmas essa nĂŁo era minha intençãoâŠâ; os rĂșsticos âeu sempre quis te dizer isso, mas teu marido estava por pertoâŠâ; e os contratos desapareceram.
O pensamento - invisĂvel e inaudĂvel, sinuoso, permanente, incontrolĂĄvel e invasivo como uma enchente - tornava a compreensĂŁo entre os seres humanos um ato absoluto. E, justamente por isso, ele impedia tudo, principalmente os sentimentos. Os primeiros a serem liquidados foram atos fundamentais: o fingir, o disfarçar e o mentir. E, sem poder mentir, houve uma tal sinceridade que a individualidade, com suas escolhas e seus planos essencialmente secretos; as paixĂ”es, com suas fĂșrias, inibiçÔes e gozos; e as esperanças, com suas expectativas, desvaneceram-se. E assim muita gente se matou, especialmente no governo, nas igrejas e na universidade. Muitos isolaram-se em casas com paredes de chumbo que, descobriu-se, tornavam fracas as ondas mentais, diminuindo, mas infelizmente nĂŁo impedindo, a telepatia e a tragicomĂ©dia de um entendimento total, completo e absoluto.
Em poucos anos, o drama que Ă© justamente o que jaz eternamente entre o dito e o nĂŁo dito; o que fica encerrado dentro de cada qual sem ruĂdo ou palavra; ou o que se transforma em silĂȘncio ou suspiro reprimido, tornou-se coisa do passado, e as pessoas ficaram muito amargas e tristes porque nĂŁo havia mais a distinção entre o manifesto e o oculto, de modo que a comĂ©dia e o riso ficaram escassos. E, sem riso e comĂ©dia, sumiram igualmente as lĂĄgrimas e o choro, pois nĂŁo havia mais o que se poderia exprimir alĂ©m dos pensamentos. Ou melhor, sem as palavras e os seus sons, nĂŁo havia mais a vontade de exprimir sentimentos, os quais dependiam exatamente das palavras, pois, como se sabe, nenhuma sentença verbal ou canto traduz uma amizade, um desejo, um perdĂŁo, uma bĂȘnção, um Ăłdio ou uma esperança. Sem sons, o ato de dar, de receber e de retribuir palavras, mĂșsicas, brindes, beijos e presentes sumiu. As descontinuidades entre os sons foram suprimidas pelas continuidades dos pensamentos, o que fez com que a humanidade fosse atingida por um enorme silĂȘncio, pois ninguĂ©m precisava produzir sons para implorar, dar, perdoar, perguntar, discutir, rir, protestar ou jogar conversa fora. Viviam todos num silĂȘncio profundo lançando mensagens telepĂĄticas uns aos outros e, quando souberam que seus ancestrais usavam da fala para a comunicação, ficaram intrigados e com inveja. Foram ouvir o mar e os ventos cujos sons lhes pareceram encantadores.
Como todas as portas humanas, a novidade da telepatia tambĂ©m trouxe seus problemas, pois o pensamento decorria de lĂnguas naturais que eram variadas, mas que, com a evolução da comunicação pelo pensamento, perderam seus lastros, suas concretudes e suas diferenças. Agora ninguĂ©m podia dizer aquilo que sĂł poderia ser dito em inglĂȘs, alemĂŁo, russo, portuguĂȘs, tupi ou chinĂȘs. A universalização absoluta do telepĂĄtico produziu uma perda irreparĂĄvel nos modos de dizer porque o pensamento puro se fazia numa sĂł lĂngua: uma espĂ©cie de Esperanto que juntava todos os idiomas vivos e mortos, antigos e modernos, mas que nĂŁo era lĂngua nenhuma. Dizem que a partir da telepatia, a poesia, a literatura, a mĂșsica e os mitos acabaram.
E os homens, como sempre, arrependeram-se e pediram de volta as suas lĂnguas antigas que permitiam o milagre das compreensĂ”es sempre incompreendidas. Mas era tarde demaisâŠ.