Esta famosa fotografia a preto e branco intitula-se Le vélo des deux ponts (O veículo/A bicicleta das duas pontes), capturada em Paris no ano de 1953 pelo célebre fotógrafo humanista francês Robert Doisneau.
O pai equilibra a bicicleta sob o olhar da placa Rue des Deux Ponts,
carregando, além do filho, um mundo inteiro de tralhas penduradas.
As canas de pesca cruzam-se ao alto como mastros de uma expedição,
enquanto o menino, timoneiro sério, agarra o guarda-lamas
numa viagem que, entre o frio da manhã e o balanço da rede, já começou.
O casaco do pai esvoaça como uma vela cinzenta,
compensando o ritmo desigual dos sapatos do filho nos pedais,
numa dança onde a cantina, no guiador, marca o compasso do percurso.
Ao lado, o carro estacionado testemunha, imóvel, a audácia destas rodas,
enquanto as grades de ferro do prédio, emoldurando a saída,
conferem a esta manhã de pescaria a solenidade de um portão de honra.
As árvores nuas aguardam a primavera, alheias à urgência da carga,
e a rua estende-se, cúmplice daquela geometria instável.
Não importa se o rio está longe ou se os peixes hão de escapar;
ali, entre o boné do pai e a determinação do menino,
o equilíbrio é uma conquista partilhada:
seguem juntos, a caminho de um qualquer destino,
onde a bicicleta, pesada de sonhos, se torna leve o suficiente para voar.