In the flesh: Um drama de SFP
-Esse texto tem spoilers fracos da primeira temporada-
Confesso que é difícil fazer uma resenha de In the flesh sem colocar “é maravilhoso” em cada linha. É uma minissérie com duas temporadas, sendo a primeira com apenas 3 episódios e a segunda com 6, ou seja, sem desculpas de “estar com preguiça”. In the flesh é uma série com zumbis que não trata de zumbis. "WTF? " bom, o foco na verdade é um drama, que é o preconceito que os portadores de SFP sofrem. “O que diabos SFP é?"
Vamos do início então: Ocorre um holocausto zumbi, não tem vírus nem nada, os mortos simplesmente levantam de seus túmulos e começam a comer pessoas, pessoas estas que ou morrem ou vivem, não se transformam em mortos-vivos e tal. Isso causou muita dor e sofrimento e logo a cidade formou um grupo para capturá-los e levá-los á um centro de tratamento médico onde poderiam fazer alguns testes e tentar achar uma cura para que possam ser reintegrados á sociedade.
Depois de muitos testes, eles conseguiram um medicamento que faria as células cerebrais voltarem a seu estado vivo, porém a vacina tinha de ser tomada todos os dias, pois se não, o portador voltaria a seu estado hidrófobo. Assim, os médicos injetam a vacina nos pacientes, dá a eles lentes de contato, maquiagem corretiva e mostra-os um pouco do mundo humano em reuniões. Estes zumbis curados receberam o nome de portador de Síndrome de Falecimento Parcial.
O foco da história é Kieren Walker, um portador de SFP que está prestes a ser liberado para casa e que não sente-se pronto, afinal tem medo do que a sociedade faria com ele ou o que ele próprio faria, machucar alguém novamente... Como ele machucou a amiga de sua irmã matando-a num supermercado, ainda em seu estado hidrófobo, lembrança esta que lhe persegue com a culpa.
Com a chegada de Kieren, a família tem de protegê-lo dos ex-participantes da Força Voluntária, estes que matavam zumbis, mas há um grande porém: Jem, irmã de Kieren, participava dela e sente um profundo ódio pelo irmão, a ponto de nem querer olhá-lo. A igreja é a que mais condena os portadores de SFP, junto de Bill Macy, o ex-chefe da Força, também pai do falecido melhor amigo e mais tarde tratado como interesse romântico de Kieren, Rick.
Mais tarde, novos personagens surgem como Amy, uma portadora de SFP muito engraçada e querida pelos fãs, Ken Burton que tem sua esposa, também portadora, morta, Gary que torna-se namorado de Jem e é um odiador de portadores, e Rick, que não está morto e sim, parcialmente vivo. Rick morreu no exército e ao voltar no holocausto, é tratado pelo pai como se fosse diferente dos outros portadores de SFP, e induzido a matá-los, inclusive Kieren. O que ele é incapaz de fazer já que sentia “algo a mais” por Kieren, motivo este que fez seu pai levá-lo ao exército, para afastar ambos.
É incrível o quanto essa série me encantou. É incrível o quanto me deixou triste também. Os portadores de SFP são tratados pela sociedade como os judeus para Hitler, sem exageros. Os moradores de Roarton não tem só medo como tem ódio por cada um daqueles que mataram uma parte de sua população. E até mesmo Kieren tem ódio dele mesmo, ele é um cara triste, ele não sorri e ele só não desiste porque sabe que não pode abandonar seus pais novamente, assim como fez antes do holocausto se matando. Sim, Kieren se matou cortando os pulsos ao saber que Rick tinha morrido no exército.
A trilha sonora é aquela boa pra quando você está triste, te deixar mais triste ainda, sabe? A maioria das músicas —se não todas— são do Keaton Henson. Corpse Roads quase me fez chorar. E o pior é que se você olhar a tradução, a letra tem tudo haver com o enredo da série. “And I'm so damn scared of dying without you” diz o primeiro trecho de Corpse Roads que refere-se ao medo de Kieren a viver sem o seu amor Rick, motivo este que levou-o a se matar.
Sem palavras para o elenco. Luke Newberry consegue interpretar o Kieren de forma perfeita, parece mesmo que ele está em um estado de depressão com aquele olhar pesado, nossa. Dou destaque a Emily Bevan que faz Amy e consegue nos alegrar em meio á tantos motivos pra chorar, por seu personagem ser tão engraçada e sorridente.
O cenário é bem legal, retrata mesmo uma cidade “pacata-mas-nem-tanto”. Já a maquiagem deixou a desejar; eu sei que eles não queriam deixar algo “assustador” mas... Os zumbis parecem muito “humanos” mesmo sem lentes e base corretiva!
Se eu pudesse recomendar essa série dez mil vezes, eu recomendaria. Vale muito a pena ver.
É uma série que foge dos padrões, o que é difícil de se ver. Eu nunca vi um tema parecido, embora tenha zumbis, assim como The Walking Dead, não é uma série que trata sobre zumbis. Trata sobre culpa, preconceito, questões da sociedade que muitas vezes ignoramos. Eu fiquei horrorizada e pensei “mas se isso acontecesse realmente, iria ser do mesmo jeito...” E realmente iria! Todos portadores de SFP seriam, se não mortos, vítimas de preconceito. Quem sabe nós mesmos corroídos pela dor não excluirmos-lhes da sociedade? A sociedade já excluiu negros, gays, estrangeiros sem eles fazerem nada... Imagina aqueles que um dia já mataram, mesmo sem saber o que faziam? É certo que todos iam cair para cima deles, inclusive as igrejas que tratariam-os como “seres apocalípticos”.
Minha nota para essa série é 10, sem mais nem menos.