Enquanto o Ônibus Chegava
Hoje, no caminho de volta para casa, senti o vento. Um sopro suave, quase tÃmido, daqueles que vêm apenas para avisar que a chuva está chegando.
Ele varria as folhas pelo asfalto, derrubava flores das árvores e, sem pedir licença, coloria o gramado. Havia uma beleza silenciosa naquele instante. E, sem perceber, eu sorria, como se algo dentro de mim reconhecesse esse convite para existir.
Por um breve momento, tudo fazia sentido. O vento, as folhas, as flores… Tudo dançava junto, como se o mundo inteiro tivesse encontrado um ritmo secreto que só os olhos atentos conseguem enxergar.
Mas então a chuva chegou. E a leveza se transformou. As folhas, antes suspensas, cederam ao peso da água. O balé terminou, e a dança mudou de dono. Agora era a chuva quem conduzia.
Fiquei no ponto de ônibus, encolhida, tentando escapar de suas mãos frias. Mas não havia como. Algumas gotas me encontravam, delicadas, quase teimosas, como quem sussurra: "Vem… agora é a sua vez."
E eu quis. Quis tanto. Talvez mais do que quis qualquer coisa nos últimos tempos. Dançar na chuva… me entregar a algo que não controlo… permitir que o corpo esquecesse os medos, as obrigações, os limites.
Mas o ônibus chegou. E eu entrei.
Da janela, vi as gotas escorrendo pelo vidro, como se ainda me chamassem, como se tentassem me tocar, me arrancar de mim mesma.
E, por um instante, senti que a vida é isso: o vento convida, a chuva insiste, mas quase sempre pegamos o ônibus.
Ah, chuva… como eu queria ter dançado com você.
-CapÃtulo 35















