odeio admitir que tenho medo da vida quando ela começa a acontecer pra mim.
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odeio admitir que tenho medo da vida quando ela começa a acontecer pra mim.

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ser um indivíduo funcional quando tudo tá desabando é um dos grandes desafios da existência humana
acabo de me dar conta que o amor romântico agora está mais nos poemas que leio do que na vida que vivo. faz parte. talvez por isso tenho me perguntado se amar é como andar de bicicleta: uma vez que se aprende, não se esquece nunca. confesso que ando meio esquecida, inclusive das coisas importantes.
Viver em sociedade é uma grande performance e é importante ter um refúgio longe do palco. Após longas semanas em cartaz, prefiro existir longe do olhar vigilante e livre da máscara que fabriquei.
"Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me".
vou ao meu lugar favorito. sento, contemplo. um livro cairia bem; o tempo pede páginas abertas e silêncio.
lamento, mas agradeço a ausência de vozes, porque em mim há sempre um rumor, uma palavra que insiste ou um pensamento que escapa.
então, penso. penso que estou cansada, mas há dentro do cansaço uma fresta de alegria.
lembro que, aos dezessete, eu não sabia onde estaria aos vinte e sete. e hoje estou em algum lugar… entre dúvidas, risos e essa mania de falar demais, porque gosto do vai e vem das conversas e dos caminhos que os argumentos traçam.
penso também que já é julho e ainda não sorri pelas coisas boas que vieram em janeiro. mas já chorei pelas dores da semana passada.
próximo passo: celebrar o que foi bom em janeiro. talvez precise escrever isso na agenda, em um espaço entre o mercado e os compromissos que não me dizem tanto.

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o tempo é curioso mesmo. é misterioso. é falso, ganancioso. quer tudo para si e a gente fica sem nada. sem tempo pra nada, nem pra dizer adeus.
não há em mim um desígnio poético. nunca foi parte do destino tornar-me poeta, então não o fiz.
mas poesia ajuda a salvar o que parece partido.
creio que ler boa poesia é parte essencial para uma vida menos miserável, mais suportável - feliz, até.
quando ler não é o bastante, eu escrevo sem pretensão de ser nada; apenas com a vontade de expelir o que me desmantela por dentro. é como uma vez disse Gullar: "a minha poesia nasce do espanto".
Me pego pensando: o que resta na cabeça de quem se esquece?
Talvez ainda reste uma imagem aqui ou ali, mas embaçada e difícil de reconhecer. Um rosto que não pertence a ninguém e que logo mais sumirá. Um corpo nômade para uma desmemória.
Agora, o que acontece na cabeça de quem lembra, eu consigo responder.
Em uma manhã de sábado qualquer, eu lembro do frango assado da ceia de Natal que eu nunca mais vou comer, porque quem preparava agora é uma cabeça que se esquece — da receita do frango e de mim também. Eu sou a face sem rosto e o corpo nômade. Ela é a cabeça desmemoriada.
Hoje ela me contou uma história espontaneamente, como se, de repente, estivesse se lembrando de que costumávamos fazer isso: conversar.
E logo em seguida, esqueceu.
Eu continuei lembrando.