Abri a porta como quem abre o armário morrendo de fome, em busca de algo que satisfaça o apetite. Dei longos passos raivosos do tipo ''nunca mais vou olhar para trás''. Em seguida, passei a correr velozmente sem rumo e sem querer rumo.
Creio que desisti do meu lar. Não que não o ame ou que não goste mais da minha cama quente e do meu chuveiro farto de água, o que ocorre é um desgaste emocional em relação ao meu convívio. Olhar para as mesmas pessoas e até para as mesmas mobílias foi motivo de incômodo até gerar insatisfação... A Dona Cida que mora em frente, virou uma espécie de monstro que eu quero evitar encontrar, minha mãe de repente tornou-se uma espécie de professora antiga, prestes a me punir com um vara caso eu não faça o que me foi mandado. Minha velha tia se resumia em um disco antigo que travava na mesma música, que antes até era boa, mas de tanta repetição tornou-se lastimável. E quem diria, até o cachorro que me alegrava com seus latidos, agora era o motivo das minhas enxaquecas. E era isso: eu estava farta, farta da rotina monótona e dos mesmos ares, eu me tornei um robô domesticado e não era isso que eu esperava de um lar. Queria um ambiente acolhedor, sem exigências em demasia, sem julgamentos. Foi então que depois de tanto ouvir e ver o de sempre, em um ato de coragem que para muitos foi fúria, puxei a porta com tanta força que quase deixei as intimidades da família para qualquer um ver. Fui-me embora sem remorsos e desejando a solidão que me fazia falta. Fui-me embora desejando sentir a liberdade esvoaçar em meus cabelos pretos e, acima de tudo, fui-me embora desejando sentir saudades do que antes me incomodou.