Assim como perdoamos aos nossos devedores
“Pai nosso que estás no céu”, entoou o padre após nos solicitar que levantássemos todos e eu continuar com o rabo no cadeiral. Não sabia se era de escárnio ou de alguma carência — eu, aos meus 50 anos, estava muitíssimo bem das pernas — que rebelei-me contra a tradição cristã. Qual! Que jeito escárnio, se não me havia acontecido nenhuma contrariedade que me tentasse a escarnear? E a que intento rebelar-me, se jamais até então questionei minhas crenças? “... Perdoa as nossas dívidas, assim como perdoamos aos nossos devedores”, continuou, e eu lá, imóvel, aquecendo a madeira. Decerto que fosse de carência, sim, senhor; estava com o ego machucado pela atenção toda destinada ao sepultado e quis fazer cena — os mortos não precisam que os adulem; os vivos, sim! Mas para que carência, se não sentia que havia carecido de nada..? É que decerto não fosse uma perda recente, e sim uma cuja mágoa da privação tenha sido silenciosamente cultivada há muito, muito tempo em algum lugar imaterial de minha materialidade; e que, agora, atingiu-se o zênite. Uma alforria, um grito de liberdade em forma de sacrilégio. Ou então, em última hipótese, uma reação física à chocante revelação que minhas próprias meditações e prognoses me inscreviam. “Mas livra-nos do Mal”, foi o que o padre falou quando senti uma mão em meu ombro, terna e cheia de compreensão de um dos moradores da comunidade; “porque teu é o reino, o poder e a glória”, e o colono sentou-se ao meu lado, agora blasfemando também, mas para oferecer-me seu cuidado e seus pêsames pela minha esposa que era sepultada em nossa frente; “para sempre. Amém.”, e só então derramei pródigas lágrimas.
(texto autoral)













