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Dead and gone.
{...} “Eu posso vê-los, escutá-los. Posso caminhar lado a lado com a sua dor, ou o que seria a suposição dela, mas não posso tocá-los. Vejo lágrimas quentes rolando em faces abatidas, inconformadas e caindo sobre o meu mais recente leito. Eu não sinto mais medo, mas me sinto ainda mais sozinha. Não vi a pessoa que eu amei e matei, não vi o homem que me ensinou a ser quem eu era, ou ainda sou, até mesmo depois do véu tênue que me risca a futura lápide, que agora me aguarda. Meus entes consolando-se em súplicas e lamentos, ou o que deveria ser parte disto. Postada sobre a lápide de um desconhecido, talvez um antigo parente meu, capto a vertigem de um dia que acaba de ser regado pela chuva fina de um céu que acompanha parte das lágrimas de alguns que me eram conhecidos e assisto o meu próprio enterro sendo consumado.”
{...} "Here's the massacre. A mausoleum fit for me;
Lived a hundred years, A hundred years i didn't see.
Gave all my hope away... Is there any left for me?
Because all i loved, i loved alone".
Três dias até que os corpos na Mansão Portman fossem encontrados. Três dias até que um dos motoristas da família percebesse que a Sra. Gloria não aparecera na hora marcada, para que pudesse encaminhar a filha, juntamente com ele, até Hogwarts novamente. Três dias até que alguém percebesse que havia algo de errado.
Quando o restante da família foi informado de tais irregularidades, os parentes mais próximos decidiram ver com seus próprios olhos, a desgraça que novamente afrontara seu nome. A desgraça que se repetira, agora levando a vida de uma pessoa que, apesar de ser fruto de uma antiga traição social, nada tinha a ver com a história, de nada sabia. Aquilo já havia acontecido uma vez, só que com o antigo "chefe" de toda a coisa que acontecera entre Aquele-que-não-deveria-ser-nomeado: Abraham Portman. E se haviam tentado esconder as verdadeiras causas da morte do homem, agora era necessário que outras pessoas dentro de suas famílias, soubessem do ocorrido. Era necessário que soubessem para, bem, tornarem-se mais precavidos em relação ao que acontecera, ao que vinha acontecendo e ao que podia acontecer.
Os cadáveres foram encontrados em estados deploráveis. Ao menos, o do Sr. e Sra. Portman, que acabaram por terem seus corpos deixados ao vento, do lado de fora da casa. Já Anne... Bom, a pequena Éricka, que, provavelmente, só não fora mais torturada que sua mãe, fora deixada na mesma sala onde tal sessão se passara. Os cortes que recebera, ainda estavam na carne viva. Mas para sua sorte, o Avada era um feitiço que deixava os corpos conservados por alguns instantes, horas ou dias. Talvez se um pouco mais de tempo tivesse se passado, já nem mais avistassem as marcas espalhadas pelo corpo daquela que morrera pertencendo e honrando, em sua cabeça, aos costumes de Salazar.
Enquanto a preparação dos corpos se sucedia em uma funerária que tinha prática em velar o corpo da maioria dos descendentes dos Portman's, Lorney's, Madison's e companhia, um outro afazer importante se fazia presente além dos muros de Hogwarts. Mitchel, um dos primos mais velhos da nova geração da família Portman -- que fora intimidado a só atender pelo sobrenome Manford, uma vez que pertencia à grifinória e isto era quase que uma desonra para seus outros parentes --, ficou com a missão de tentar rastrear todas as pessoas com quem a falecida prima andava. Pelo jornal que Skeeter publicava, ficava um pouco mais fácil saber de quem se tratava; difícil mesmo era saber onde procurar e, acima de tudo, achar todos aqueles nomes.
O coreano, Sonnagh Merlin sabia lá das quantas e Lupin, foram os mais fáceis, por serem de sua casa. Não falou diretamente com eles, apenas procurou identificar o dormitório dos dois e passou um envelope que continha o endereço da onde o velório se sucederia, por baixo da porta. Não teria peito para dar uma notícia daquelas, pessoalmente. Em seguida, custou para conseguir uma permissão especial para alcançar os limites das áreas sonserinas e deixar um bilhete à Narcisa, Sky, Evan e... Por mais incrível que parecesse ao rapaz, Severus. Imaginou procurar por Quartzo, mas deduziu que o garoto não dava as caras há um bom tempo. E, muito provavelmente, Anne não iria querer vê-lo por lá. Tentando descobrir mais alguns nomes, ele se viu indo até mesmo para as instalações lufanas, ainda que não tivesse certeza sobre o que estava fazendo. Finalmente, nas acomodações corvinas, ele procurou por uma tal de Marissa Swan, ou melhor, por seu quarto, também deixando um envelope ali. Não sabia se a prima tinha contato com ela, mas a julgar pelo fato de ter visto as duas para cima e para baixo vez ou outra, além da notícia que saíra no jornal de Skeeter, sobre a loira ter salvo a vida da corvinal...
Depois de quase um dia todo atrás dos nomes, Manford foi convocado à Mansão, alertado de que era bom que ele se preparasse para a manhã seguinte. A que abrigaria um funerário triplo, mas que não era composto de somente três corpos para receber este nome; o funeral também seria composto de indignação, revolta e, acima de tudo, uma coisa que jamais poderia ser imaginada se instalando no meio daquela família: tristeza.
{...} As my body lies here broken... And i'm carried to the light. Now my heart is finally open? Lord, i don't know!
A manhã veio dominada por um sol consideravelmente fraco, atrás de nuvens brancas como algodão. Uma movimentação toda feita de preto, se sucedia no endereço 27, do bairro Tudor, em Londres, na parte mais afastada, que era o corrente endereço onde Éricka morava com os pais. A família tinha a mania de fazer o velório em suas próprias casas para se dirigirem então, com passos e entoações típicas de sua família em momentos como aquele -- usando de cantigas russas, alemães, qualquer coisa que indicasse parte dos costumes de todos os nomes que formavam os envolvidos naquilo que se tornara praticamente uma Sociedade --, à uma floresta nas proximidades, onde todos os Portman's nascidos e que permaneceram nos territórios ingleses até um pouco antes de suas mortes, eram enterrados.
Parentes e amigos, não só do casal assassinado mas, quem diria, da própria Anne. Aos poucos, Mitchel ia se sentindo orgulhoso ao perceber que fizera um bom trabalho; que estava reunindo ali, as pessoas que participaram, ainda que miseramente, em singelas atividades na vida da prima. Estas que deveriam ser lembradas sem maiores hesitações.
Os corpos estavam em luxuosos caixões no meio do grandioso hall de entrada. As tias encarregadas de arrumarem a casa e empacotarem outras coisas para dar mais espaço na Mansão, estavam em sua entrada, recebendo os convidados. O clima nunca fora tão triste antes, entre pessoas que nunca pareceram demonstrar mais do que apenas interesse em reuniões como aquelas, ou até menos tensas.
O primeiro caixão, sendo o maior de todos, numa fileira, da esquerda para a direita, suportava o corpo de Luís Portman. Aquele que, em vida, tomara a rédea de situações inesperadas e até chegou a ser duro e impessoal com a maioria delas; aquele que procurou esforçar-se ao máximo, para honrar o nome que tinha e, acima de tudo, mesmo que não parecesse, proteger e zelar por sua família. Seu mais novo leito estava completamente fechado, assim como os outros dois caixões.
O do canto direito, mostrando-se o menor dos três, se tratava da mãe, Sra. Gloria Portman. Aquela que enquanto mantinha os olhos abertos, procurava manter seu cargo de forma impecável e excelente, no Ministério, assim como o marido, numa tentativa que agora se mostrava em vão: a de proteger sua família depois de terem se afastado dos seguidores daquele que se intitulava Lorde e tinha mil e um seguidores no seu encalço.
E por fim, mas não menos importante, o caixão daquela que até uma semana atrás, não sabia do futuro que lhe aguardava. Daquela que procurou viver da forma mais reservada e verdadeira possível, sem esconder o seu verdadeiro eu interior, nem mesmo quando mais era preciso. Daquela que, ao longo de seus 16 anos, se esforçara para ter deixado o legado que agora, praticamente, abandonara. Um legado que, por mais incrível que parecesse, parecia mesmo ter um fundo ou algum fundamento para que pudesse ter dado certo.
A prova dele, talvez, fosse as silhuetas de Hogwarts que se faziam presentes no ambiente ali e naquele instante. As silhuetas que Mitchel reconheceu por, vez ou outra, ter avistado próximo da única prima com o qual ele mantinha contato, dentro e fora da escola. E, vendo, analisando tudo aquilo, ele tentava se imaginar se todos os presentes ali, sentiam o mesmo que ele.
-- I'm there till the end. Memories are calling... So farewell my friend
(…) “Você, em alguma época da sua vida, se vê morto diante das expectativas. Com Anne Portman, não seria diferente; com Éricka Portman, não haveria porque disso acontecer. Acontece que há muito tempo, antes de qualquer expectativa surgir, a garota já se via morta.
Havia um motivo para isso; não pense que não havia. Não pense que ela tinha isso em mente por ser apenas uma pessoa problemática, uma pessoa com uma mente considerada insana. Ela tinha realmente motivos preocupantes para já se ver morta. Ela já estava em uma situação onde havia grandes chances disso realmente acontecer…
Ela estava caída no carpete de algum ambiente escuríssimo, em algum lugar. Não sabia direito como havia ido parar ali, não fazia a mínima ideia do porque de estar ali. Apenas… Estava. Atordoada. Com frio, no chão gelado, num ambiente com pouca luz. Ouvia vozes. Uma conversa acontecendo no cômodo ao lado ou abaixo, com certeza.
Desconfiada, demorou-se um pouco, enquanto ouvia as vozes bem próximas a ela. Reuniu toda a audácia que tinha e se colocou em pé, caminhando pelo local a procura de uma saída, tateando paredes que lhe pareciam cobertas de limo e musgo. Quando se aproximou de uma das janelas, percebeu estar então em sua própria casa, quando avistou além do vidro, lá em cima, seu jardim. Percebeu então estar, provavelmente, no porão da Mansão Portman.
Tentou abrir a janela. Não conseguiu. Continuou tateando até achar a porta; também não conseguiu abri-la. Continuou assim até se dar conta de que já havia testado todas as saídas e, meio preocupada, não conseguira resultado bom com nenhuma delas.
Abraçou o próprio tronco, sentindo o frio começar a ferir-lhe a pele com selvageria. Congelaria ali. E sem o menor motivo; não algum que se lembrasse. Se recordava apenas de estar em casa, dormindo… E agora acordando ali. Naquele lugar que lhe trouxera certos traumas quando criança; confrontando aquele breu que por vezes a assombrara.
Ficou cerca de três minutos parada, tentando raciocinar. Seria um sequestro? Ladrões? Mas onde estavam seus pais? Quem quer que tivesse feito aquilo, deveria deixá-los trancafiados juntos, não? {...} Enquanto procurava alguma lógica e explicação para isso, ouviu barulho de passos se aproximando. Bateu as mãos nos bolsos de seu pijama; Jezabel não estava com ela. E sem seus coturnos… Cutter também não estava disponível.
Não iria gritar. Não iria demonstrar medo. Não iria começar a chorar e tremer feito uma criancinha indefesa; ela não era assim. E não seria agora, num momento tão crítico. Prendeu a respiração, ouvindo os passos se tornando cada vez mais próximos. De repente, um barulho de algo estralando aconteceu e um fecho de luz invadiu o local. A porta havia sido aberta. E alguém empunhava uma varinha trazendo luz.
Permaneceu quieta. A pessoa se aproximou. Ou as pessoas. Quatro silhuetas encapuzadas, de vestes que se misturavam com a escuridão que os cercava. Todos que não pareciam estar ali para brincadeira alguma, para confraternização nenhuma.
Éricka abriu a boca para questionar, indagar o que estava acontecendo quando agarraram seus braços e a amordaçaram. Ela tentava chutar quem quer que fosse, mas é claro que dois contra uma não seria muito fácil de se resolver. A levaram para fora dali, seguindo pelas escadas que logo dariam para o primeiro andar térreo da Mansão.
A loira se debatia. Mas houve um tempo em que parou, completamente decidida a não gastar suas forças com algo que lhe parecia inútil. Os encapuzados pararam á frente de uma porta, ainda segurando fortemente a garota. Não usariam de um feitiço que logo acabaria; usariam da força física mesmo.
Como estava quieta, conseguiu escutar, lá de dentro, do cômodo que parecia ser “O salão principal” da casa, o que provavelmente era a mesma conversa que escutou quando estava lá embaixo, no porão. Foi então que suas órbitas azuis se arregalaram. Ouviu a voz de algum desconhecido e em seguida, um grito agudo; vinha de sua mãe. E Anne sabia que se tratava dela, bom... Porque conhecia bem aquele tom. Apesar de desconhecer o que parecia ser o pânico embutido no mesmo.
-- Então achou que poderia escapar de nós se refugiando no ministério? -- A voz desconhecida indagou, depois que o grito cessou. Era uma voz grosseira e debochada. Fez a espinha de Anne congelar. E um arrepio tomar completamente sua pele branca. -- Achou que nós não os encontraríamos?
O barulho de algo se quebrando ecoou pelo salão, chegando até os ouvidos da garota do lado de fora. Engoliu em seco, pensando no que poderia estar acontecendo lá dentro, e do que aquela pessoa estava falando.
-- Por favor… -- A voz de Gloria, a Sra. Portman disse, num tom suplicante e que, para a boa audição de Anne, soou como uma voz agoniada. -- Os solte! Pode me matar, mas solte os dois. Éricka principalmente… Ela não tem nada á ver com isso! -- Gritou por fim.
Houve um momento de silêncio que foi quebrado pelos passos no chão do salão. Anne estava assustada, oficialmente, agora. De que diabos estavam tratando?! DE QUAIS DIABOS ESTAVAM FALANDO? Do que seus pais supostamente haviam tentado escapar?!
-- Não acho que o Milorde vá querer saber disso. Você nos traiu; tão pior quanto trair a geração de sangue-puros, é você trair àqueles que te ocasionaram tudo isso! -- Bradou a voz do homem. O barulho de algo como um vaso de flores, ou algo mais, feito de vidro, se quebrando, ecoou desta vez. O primeiro barulho parecia ser o tipo de barulho que um osso faria ao se quebrar… -- Riqueza, poder. Vocês conseguiram tudo que queriam graças ao Lorde! E então viraram as costas… A garota é o fruto de traições terríveis. Temos ordem, como prioridade, acabar com ela primeiro.
-- Não! -- Tornou a bradar a voz da Sra. Portman. Ela estava… Chorando? Anne nunca vira uma demonstração de tanta emoção vindo de qualquer um dos pais. Isso a deixou agonizada. Com medo. Muito medo. -- Por…
Antes que Gloria pudesse terminar, as pessoas que “escoltavam” Anne, afastaram a porta, a arrastando pelo salão espaçoso que carregava ao fim de seu corredor, a bandeira estendida do brasão dos Portman, acima de uma grandiosa lareira. A Sra. Portman estava deitada sobre a mesa central, com o corpo esticado, os pulsos perto de cada beirada, juntamente com os calcanhares quase saindo dela. Como se estivesse pronta para uma sessão terrível de tortura sobre a qual Éricka lera quanto ao mundo dos trouxas e suas religiões extremistas.
Parecia estar sendo presa por cordas invisíveis. Mas só depois é que Anne conseguiu perceber as amarras fortes que existiam ali. Sangue brotava dos antebraços da mulher que era praticamente uma cópia sua; e até um pouco abaixo de seu pescoço.
Éricka conseguiu ver o rosto do dono daquela voz que ouvira há pouco. Ele a fuzilava com os olhos; um homem alto, todo de preto também. Cabelos com um loiro esbranquiçado e órbitas quase tão vermelhas quanto o sangue que partia de sua mãe. Um sorriso psicopata de canto, com uma certa expressão de desprezo também. Tinha a varinha em uma das mãos, enquanto na outra, mantinha algo como um caco de vidro ou coisa do tipo. A garota estava pasma demais para distinguir as coisas tão bem á ponto de dizer com toda a certeza, o que eram.
Mãe e filha se encararam por um certo tempo. Anne não tentou dizer nada. Sabia que não adiantaria. Continuou ali, sendo segurada fortemente por aquelas pessoas, até como se elas quisessem lhe dar uma última chance de ver a mulher que até pouco tempo atrás mostrara um desespero jamais visto pela garota; a Sra. Portman olhou com uma expressão pesarosa para a jovem. Um sorriso fraco brotou em sua face, enquanto observava a filha com o rosto virado, já que não conseguia se mexer muito mais que isso. Era uma despedida silenciosa, ainda que a dor gritasse entre elas.
E foi então que Anne teve certeza de que tudo que estava acontecendo, tudo que se passava, aquele tal de Milorde citado e aquelas vestes só podiam envolver ninguém mais ninguém menos que Aquele-que-não-deveria-ser-nomeado. E comensais, como sempre, estavam fazendo o trabalho de acabar com o que quer que seus pais tivessem aprontado.
-- Vai ficar tudo bem… -- A Sra. Portman soltou um murmuro que foi suficientemente alto para que Anne escutasse ao ser arrastada dali, cruzando o cômodo até outra porta, que daria para o tal escritório de seu pai. A garota continuou a olhando por cima do ombro, com uma expressão indiferente, mas ainda assim, temerosa. Queria chorar. Gritar, suplicar. Mas sabia que não adiantaria. Não perderia tempo com isso… Tudo que sabia até aquele momento é que tudo que estava acontecendo, era resultado de algo que seus pais fizeram. E mais uma vez, talvez ela pagasse por este ato desconhecido.
Só que agora, talvez com sua própria vida.
Atravessaram a outra porta. Apenas duas, das três pessoas. A outra ficou no Salão Principal durante algum tempo, cruzando o portal alguns minutos depois, fazendo um gesto para que todos os cabaços presentes o seguissem, ainda em silêncio.
A levaram para o segundo andar, agora a deixando caminhar. Passaram pelo escritório de seu pai, com a menina ouvindo os gritos da mãe não tão longe dela. Aonde estaria o velho Sr. Portman? Sinceramente, Anne não queria saber dele. Estava perturbada demais pelos gritos que ouvira da mãe; estava se perguntando se era isso mesmo, se vira realmente Gloria Portman suplicando por algo…
Chegaram até um dos corredores mais afastados do resto dos cômodos, por fim. A parte da casa da qual se aproximavam era o que deveria ter sido o quarto do irmão de Anne, há um certo tempo atrás. Quanto mais perto chegavam, mais a garota conseguia ouvir vozes vindo de lá.
As pessoas que a carregavam abriram a porta novamente e assim que Anne se viu completamente dentro daquele lugar, gelou ao ver quem estava ali. Ergueu os olhos e se deparou com silhuetas que conhecia muito bem.
Diferentemente de quem a “escoltara”, os adolescentes ou jovens adultos que estavam naquele quarto -- cujo havia apenas uma mesa ao lado da parede, algumas estantes e um tapete empoeirado no chão -- tinham suas faces livres de qualquer ocultação.
A primeira pessoa que Anne conseguiu reconhecer foi Carrow. A garota não tinha mudado muito desde o ano anterior, na última vez em que Portman a vira. Ela parecia demonstrar um misto de surpresa e incredulidade ao ver Éricka cruzando a porta. Estava encostada ao lado da mesa, com os braços cruzados.
A segunda figura foi vista perto de uma das janelas, ainda de costas. Ao ver os cabelos naquela tonalidade, naquele aparente comprimento, Anne achou que poderia ser Sirius, mas assim que a pessoa se virou de perfil, ela reconheceu ser Regulus. Aquele que conhecera por acaso na Sala Comunal da Sonserina, também no ano anterior… Ele tinha uma expressão preocupada. Tinha a varinha em mãos, assim como Alecto e o terceiro elemento. Este era desconhecido, ainda que tivesse alguns traços familiares também.
Pasma, ela permaneceu estática até que lhe tiraram a mordaça e a levaram para a mesa, usando de um feitiço permanente semelhante ao Incarcerous, mas que Anne não soube dizer se era este mesmo por ter sido praticamente inaudível. Cordas amarraram seus pulsos e tornozelos, os apertando. E ela encarava os três existentes naquela sala, já que assim que os outros terminaram de arrumá-la na mesa, murmuraram algo para Alecto que apenas assentiu e fechou a porta atrás deles assim que saíram.
Silêncio total. Até que Anne finalmente arranjou voz e, num fio dela, perguntou:
-- O que… O que vocês estão fazendo aqui?
Regulus olhou Alecto que por sua vez olhou o terceiro elemento, um rapazote de cabelos castanhos e olhos da mesma cor. Era como uma troca de olhares onde um jogava um tipo de jogo para decidir quem seria o próximo a falar. E enquanto isto não acontecia, os apertões dados nas partes de Portman, não lhe causavam dor alguma se colocados próximos da aflição que a menina sentia agora.
-- Seus pais… O Lorde quer que acertemos as contas com eles. -- Respondeu Carrow, com seu típico tom frio. Parecia nem se importar com o fato de que era uma de sus colegas de casa e tudo o mais, ali, marcada para morrer. E, aparentemente, posta para ser reconhecida por eles.
-- Mas que diabos eles fizeram desta vez?! -- Anne exclamou, com uma voz um tanto quanto esganiçada. Não era possível que seus pais arruinassem tudo com ela novamente. Não era possível! -- O que eles fizeram contra…
-- Eles eram parte de nós. -- Respondeu Regulus, com um tom firme, mas baixo. Parecia preocupado, mas ainda assim, determinado. -- Depois de um tempo resolveram pular fora… Sem explicação alguma. E Milorde não deixaria barato, é claro.
Os olhos de Anne ardiam. Ela os ergueu, tentando controlar as lágrimas. Não choraria. Não agora. Não na frente deles. Nem de ninguém. “Que você morra sendo forte, em compensação a toda lágrima que você já derramou em vida” era o que seu pai sempre lhe dizia. Mas... Que ele fosse ao diabo! Nem a garota sabia onde aquele miserável se metera. E se haviam o pegado também!
Então seus pais faziam parte daquele grupo que seguia Aquele-que-não-deveria-ser-nomeado? Por quanto tempo? E por quais motivos? Isso teria lhes trazido tanta produtividade a ponto de erguer ainda mais o nome dos Portman? Por que haviam deixado aquele caminho? Se não o tivessem feito, talvez Anne pudesse ter mais chances de livrar sua pele?
E quanto aos três que estavam ali? Será que eles sabiam que se tratava de “cuidar” de uma ex-colega de escola? Será que eles sabiam de quem se tratava, onde se tratava, a missão que deveriam cumprir? Bom, se soubessem, ela se perguntou o que havia lhes feito para que se encarregassem pessoalmente de sua morte. Era este tipo de situação -- de morrer pelas mãos deles -- que se passava em sua mente naquele momento.
-- Por quanto… quanto tempo eles ficaram nessa? -- Anne murmurou, encarando o chão depois de sentir as lágrimas sossegando dentro de seus olhos. Tentava não demonstrar nervosismo, se bem que o que mais queria fazer era suplicar para que Regulus a tirasse dali. Ou simplesmente pudesse dar fim nela, para que não tivesse uma morte indigna pela mão de quem quer mais que fosse ou existisse para executar a missão, rondando pela casa.
-- Não sabemos. -- Respondeu Smith, o garoto que ela sabia conhecer de algum lugar, de seu canto. Ele tinha as mãos afundadas nos bolsos, com um pé na parede, parecendo guardar a porta. -- Estamos aqui apenas para… Dizer se você é mesmo a Portman “legítima”. -- Suspirou por fim. Ele, que nunca tivera mais contato com a loira, parecia se importar mais com ela do que os outros dois elementos ali existentes. Quanta... Ironia.
Se eles mentissem, dizendo que ela não era a herdeira dos Portman, Éricka teria sua pele salva? É claro que não. Ela se lembrou do que uma das pessoas que a levaram para lá havia dito. Iria morrer do mesmo jeito… Certamente. Porque jamais escapara do fato de ter que pagar por algo que seus próprios pais fizeram.
-- E vão me entregar? -- Ela arqueou uma sobrancelha depois de algum tempo, erguendo a cabeça. Mesmo não percebendo e não querendo transpassar, ainda havia um brilho de esperança em seus olhos azuis. Um brilho de súplica. Um pedido de ajuda, acima de tudo.
-- Vai saber. -- Respondeu Alecto. Seus passos ecoaram pelo quarto até que a morena o cruzasse e se aproximasse da porta, a abrindo. Colocou a cabeça para fora e gritou, aparentemente, com todo o ar de seus pulmões: -- HELLVEN!
Enquanto Carrow permanecia na porta, Anne observava Black e Smith, o terceiro elemento. A vontade de chorar voltou, mas ela respirou fundo. Com um murmuro, se sentindo a pessoa mais fraca por estar fazendo isso, perguntou a Regulus, que agora partilhava do mesmo ano que ela em Hogwarts, enquanto talvez Anne morresse no meio dele:
-- Eu vou morrer?
Black nada disse, a princípio. Carrow gritou novamente, ainda esperando na porta quem quer que fosse aquele tal de Hellven. Ele a olhou e soltando um suspiro como se estivesse perto da cova de alguém, durante um enterro, sussurrou em resposta:
-- Eu sinto muito.
Logo passos de alguém se aproximando no corredor se tornaram audíveis. Botas pesadas batiam contra o chão do lugar, até que o autor dos passos cruzou a porta.
-- Me chamou? -- Um homem de estatura mediana e que parecia trazer coisas afiadas no cinto de couro - material que também parecia ser usado na calça e na blusa do rapaz - com cabelos que possuíam falhas acada mecha, surgiu ali. “Talvez seja um carrasco” pensou Anne, observando a aparência do elemento. Era realmente... Assustador. E talvez lhe causasse mais calafrios do que aquele homem que a menina vira lá embaixo.
-- Já cuidaram dos pais dela? -- Perguntou Alecto, encarando seriamente o suposto Hellven. Tirando isto, ela parecia completamente indiferente, ainda, com a situação.
-- Sim. -- Ele respondeu de pronto. -- O sangue do pai dela está regando as flores daquele jardim idiota. Quanto à mãe… Blayberck está cuidando dela. É mesmo a garota? -- Apontou com a cabeça por cima do ombro de Carrow para a menina sentada na mesa, que ainda olhava para Regulus e ora para o tal Smith.
Alecto hesitou durante algum tempo, também olhando por cima do ombro.
-- Sim. -- Respondeu.
O que se sucedeu dali adiante, foi algo pior que a morte: Uma sessão de tortura aconteceu, com o testemunho de Black e Smith. Carrow havia saído depois de resmungar algo como se não fosse perder nada caindo fora dali.
À princípio uma faca havia sido usada para arrancar sangue dos pés, mãos, braços e uma parte não tão sensível do pescoço e rosto de Anne. A dor era insuportável. E assim que mais uma pessoa fora chamada para a “sessão”, tudo se tornou pior com os vários Crucios. Gritos podiam ser ouvidos em toda a Mansão se bobeassem. Não havia ninguém mais para ouvir. Os Portman moravam afastados de onde começava verdadeiramente a cidade.
Apesar do segundo elemento que fora chamado para ajudar na tortura querer acabar logo com isso clamando logo por um Avada, Hellven o advertiu que a matariam de um modo muito melhor que um simples feitiço.
Talvez o tal Hellven fosse como Éricka: não gostava muito de usar magia para coisas que envolvessem situações onde se era muito melhor usar das mãos. E foi o que ele fez.. Seu “ajudante” saiu juntamente com Smith e Black no exato momento em que o homem que Anne tinha cada vez mais certeza de que seria seu carrasco, disse que a brincadeira já estava o cansando.
Portman permitiu-se então chorar, não que isso fosse adiantar de algo. Tudo estava arruinado; a dor a tomava, ela logo estaria entorpecida pela conformação que a avassalaria. Estaria conformada com o que o destino lhe reservara: morrer por consequência dos atos das escolhas ruins de outras pessoas. Devia ter pensado nisso muito antes, devia ter imaginado que algo como isso um dia aconteceria. Um dia, como sempre, pagaria pelas escolhas ou atitudes dos familiares, amigos, qualquer pessoa próxima…
Entendem o porque dela sempre dizer que era melhor se ver sozinha, contando apenas consigo mesma? Sem amigos, sem família, sem qualquer pessoa? Porque no final, todos a abandonariam. A deixariam, a trocariam pela primeira oportunidade de algo mais interessante para se fazer… No final das contas ela seria apenas um passatempo ou um brinquedinho das pessoas para consolarem á si mesmas e terem um “estepe” com que contar.
Como pensado mais cedo, ela não poderia gritar ou clamar por ajuda. Além de ser humilhante, seria inútil. A única coisa que tentou, foi quando viu Regulus na porta do quarto - com a mesma entreaberta, a observando. Anne não sabia dizer se o que via no rosto do garoto eram lágrimas ou apenas miragem - sussurrando, sabendo que de nada adiantaria, um misero “socorro”, uma súplica completamente em vão…
E então veio o golpe de misericórdia. Um corte profundo na bochecha e - para sua surpresa nem tão grande assim - um fecho verde saindo da varinha de Hellven, quando o homem murmurou o feitiço da morte, com um sorriso nos lábios.
Os olhos verdes da garota perderam o foco. As lembranças correram por seus olhos, como a última vez em que vira Sonnagh, a última vez em que tomara Hope nos braços. Seus órgãos pararam. Seu coração sofreu um abrupto interrompimento. Sua vida se esvaiu de uma maneira medíocre. E enquanto sua alma talvez perambulasse por ali, o último pensamento que a garota tivera foi de seu avô talvez a esperando em algum lugar, para levá-la de todo aquele sofrimento e agonia pela qual passara.
Talvez sua morte tivesse sido uma coisa boa. Muitíssimo boa. Não haveria mais confusão; não haveria mais dor. Não haveria mais sofrimento. Não haveria mais tristeza. Não haveria mais como sentir ódio. Não havia mais vida para levar, uma vez que ela lhe fora arrancada. Não haveria mais como continuar o caminho que a garota procurou trilhar para conseguir chegar ao topo que tanto desejara e que cedera ao faiscar de uma varinha que dera fim a sua essência…
Mas talvez isso fosse a maior prova de que por mais que o descanso eterno finalmente tivesse chegado para a garota, ele fosse um tanto quanto humilhante. Se ela pudesse conversar consigo mesma depois de morta, teria dito isso. Foi como se ela nem tivesse lutado por sua honra e, acima de tudo, vida, por mais que soubesse que de nada isso adiantaria. Foi como se o topo que ela tivesse alcançado tivesse desmoronado sem ela nem ao menos tentar mantê-lo em pé. Foi como se toda a glória que ela tivera conquistado até então, tivesse se esvaído, quase tão como seus sentimentos, seu corpo, o que lhe restava de alegria, o que ainda lhe sobrava de gosto para viver
Mas tudo estava bem. Depois de 16 anos. E só agora, preste a descer por uma cova, ela deu para reconhecer que o que sempre tivera foi nada mais nada menos que uma prova, uma brincadeira de mau gosto do que deu para envolvê-la em seus jogos cruéis, do destino. O mesmo que lhe arrancara pessoas importantes. O mesmo que cedeu a última gota d’água, o basta para sua existência. E agora que ele já se vira satisfeito por brincar o quanto quis com a garota, era hora de levá-la. Hora de deixar a arena livre para outro. Hora de deixar que a jovem seguisse outro tipo de jogo. Sendo este, um que não tinha hora para acabar, tampouco certeza se havia de começar, à sete palmos abaixo da terra desta vez”.
It's a new day. A new life. || POV || Mrs. Namkong || M!A
{...} Eu me encarava no espelho grandioso da sala de minha casa, no meu quarto. Ou do que costumava ser, já que se tratava da Mansão dos Portman. Aquele dia em especial se tornara uma correria danada, tanto quanto pelos preparativos que meus pais decidiram me ajudar a fazer, quanto pelo que eu imaginava que me aguardava num evento, uma cerimônia, não tão distante dali. Definitivamente, eu não acreditava no que estava vendo e, acima de tudo, o que estava acontecendo naquele exato instante.
O vestido me caíra realmente como uma luva. Tomara-que-caia, coisa que realçava o pouco busto que eu tinha. Uma peça branca, brevemente bufante, com alguns detalhes marrons que imitavam flores em galhos simplórios, mas majestosos ao mesmo tempo. Meu cabelo, numa coloração que eu nunca imaginei que me fosse pertencer um dia, fora pintado daquela cor, com a ajuda de magia. Uma vez que eu sabia que aquilo não seria definitivo, principalmente por estar ciente que eu enjoava muito rápido de determinadas coisas (...), em um coque. Nos meus pés, um sapato que me deixava ligeiramente mais alta, e que, pela primeira vez em muito tempo, eu usava para substituir meus coturnos; Apesar de ter me acostumado com a ausência da maquiagem pesada, me sentia meio nua sem aqueles calçados. De qualquer forma, eu mantinha meus olhos fixos na imagem em minha frente; quando é que eu sequer poderia imaginar que um dia eu estaria me casando?
Na verdade, quando é que eu poderia, sequer, ter pensado que um dia eu estaria viva para testemunhar tal coisa? Porque foram mesmo muitos perrengues. Muitos problemas enfrentados até que meus pais decidissem permitir de vez a união, sem mais reclamações, sem mais reprovações. Muitas desavenças acometidas diante das preparações para o casório com o homem que eu nunca imaginei que poderia ter para meu futuro, agora, quando se tratava de alguns anos atrás. Por Merlin, que rumo fantástico minha vida decidira tomar!
Minha barriga era visível no vestido. Eu esperava meu primeiro filho, e já estava com uns bons quatro meses. Sonnagh e eu não sabíamos do sexo do bebê... Mas sabíamos que eu seria a Sra. Namkong muito em breve. Ou não tão breve assim, uma vez que a cerimônia demorou quase dois anos para ser marcada...
Eu chamara uma pessoa muito especial para me ajudar naquele dia. Uma pessoa com quem eu nunca mantive muito contato em meus tempos de escola, mas que eu respeitava ainda mais nos dias atuais, tanto por ser a mulher que era, quanto por ter decidido passar sua vida ao lado de um homem que, apesar de eu já imaginar que gostava dela, nunca pude chegar a pensar que a transformaria em sua esposa: Narcisa. Ela praticamente me montara e procurou tentar me ajudar a ficar mais calma, mesmo que fosse comum ficar tão nervosa num dia como aquele. Tão nervosa a ponto de quase entrar em pânico quando o zíper de meu vestido travara e o coque em meu cabelo não quisera se fixar nem mesmo com a intervenção de magia. No final das contas, tudo dera certo, finalmente.
E com uma última batida na porta, informando-me que Sonny já havia chegado na cerimônia, eu dei um último sorriso para o espelho, checando minha maquiagem. Antes de finalmente descer para ir encontrar todos os convidados e aquele que viria a ser meu marido, eu levantei um pouco meu vestido, identificando as meias 7/8.
Apenas para ter certeza de que velhos hábitos nunca morriam.

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I don't wanna be alone, because i lost control. || POV
Anne se encontrava sobre o peitoril de sua janela, observando o tempo chuvoso lá fora. Suas outras colegas de quarto não se encontravam, como sempre. E, bom... Não havia mais Yeva para estar ali com ela. A ruiva que simplesmente sumira do mapa, assim como a própria Portman sumira tempos atrás. Então, ela se perguntava se seria só uma brincadeira para lhe dar o troco... Mas, infelizmente, Éricka sentia que não era bem assim.
Nas últimas semanas, tudo parecia estar desmoronando. A distância que se fixara entre ela e Sonnagh, os medos que a assolavam. A carta de seu pai, um tempo depois da de sua mãe, dizendo-lhe que precisavam conversar sobre aparentes boatos. De qualquer forma, não existia nada que pudesse melhorar o humor da sonserina, que não fosse piorá-lo. E era assim que ela se sentia naquela noite em especial.
-- Vovô? -- Chamou, enquanto olhava para o céu, pouco se importando se era atingida por alguns respingos da chuva que caíam pelo vidro aberto. Enquanto abraçava seus próprios ombros, deixava que seus olhos azuis esquadrinhassem o que podiam captar da penumbra que havia acima dela. A vontade de chorar era incontrolável, mas eram poucas as lágrimas que rolavam pelo rosto pálido da Portman. Sua respiração era lenta, enquanto, fazendo silêncio, ela realmente agia como se alguém pudesse escutá-la. -- O senhor está aí em cima, não está? Eu só preciso de alguém pra conversar. Alguém pra ficar comigo. Eu perdi quase todo mundo, vovô. Primeiro eu perdi o senhor, depois o Matt... Sei que o que eu fiz, não foi certo. Não foi mesmo. Mas aí depois, eu perdi a Erin, eu perdi o Quartzo... Eu perdi até mesmo o Severus. Ok, nunca tive muito dele... Mas eu daria minha vida para protegê-lo, vovô. Depois veio a Sky, que também foi embora tão rápido quanto nos conhecemos. Eu sei que todos eles estão perto de mim e o senhor, provavelmente, quer me bater por estar chorando e falando sozinha que nem uma louca, mas espero que também entenda que... Há muito tempo eu não consigo ser forte. Eu não consigo mais odiar as pessoas como antes, tampouco amá-las, vovô. Isso significa algo? Você sempre me disse que, assim que parássemos de sentir o que quer que fosse, deveríamos abandonar nossa vida. Porque, bom... Sem nada sentir, não havia nada para se comemorar, nada para se lamentar...
(...) "Não haveria sentido, é. Me lembro bem do que você me disse". -- Ela sorriu de canto consigo, ainda com os olhos erguidos para o céu. Sabia que alguém poderia chegar a qualquer momento e pegá-la falando sozinha, mas e daí? Já era conhecida como louca. Argumentos, motivos a mais para que a chamassem assim... Não faria diferença.
Respirou fundo mais uma vez, antes de voltar a falar. Neste momento, Bagheera se aproximara, muito provavelmente, percebendo a tristeza da dona. Como bom companheiro que era, pulou para o lado da loira, descansando a cabeça sobre as patas, depois de se ajeitar em cima de uma mesinha próxima, também observando o além da janela. Tão distante, tão sombrio... Assim como o que existia sobre o peito esquerdo de Anne.
-- Eu ando sentindo muito medo, vovô. Não dos trovões, não das pessoas. Mas... Eu não sei. Medo de me envolver com quem quer que seja, medo de não conseguir o que eu quero. Medo de não ter as pessoas que eu gosto, por perto... Eu ando chorando muito. Eu ando ficando rouca de tanto gritar. Eu costumo dormir rezando, suplicando para aqueles deuses trouxas, tamanho meu desespero... Como nenhum deles me ouve, espero que ainda me reste você. Eu sinceramente espero. Porque, de alguma forma, eu o sinto perto de mim. Me defendendo naquelas brigas verbais e até mesmo físicas; o Cutter tem seu gênio, se quer saber. -- Riu baixo, enquanto soluçava um pouco. Procurou mover suas pernas de forma que descesse do peitoril e puxasse uma poltrona para perto, colocando-se de frente para ele, ainda observando o céu. Sua maquiagem se tornava borrada, mas ela simplesmente não conseguia se importar com isso. Esticou um dos braços e tomou o canivete que estava próximo de seu gato, entre os dedos. Com ainda mais lágrimas nos olhos, observou o objeto.
Tinha muito de Abraham Portman ali.
-- As pessoas costumam ter medo por variadas coisas, não era o que você me dizia, vovô? Medo de se apresentar em público, medo de sair na multidão. Medo de ficarem longe de outras pessoas ou até mesmo perto de algumas. Eu sei que os meus são tão fúteis quanto esses... Mas é só... Que não dá mais.
Sua garganta se tornara quente e apertada, assim como suas lágrimas decidiram cessar um pouco. Bagheera agora se colocava aos pés de Anne, como se percebesse que ela precisava mesmo de atenção. Por um instante, Portman se perguntou qual seria a altura de sua janela, até o chão lá embaixo, depois da neblina das torres. Por um momento, ela se perguntou se havia mesmo alguém que poderia ouvi-la, num além. E para saber se ele existia, ela deveria tentar...
Respirando fundo novamente e decidindo abandonar tais ideias, ela juntou ainda mais os joelhos e os abraçou, afundando o rosto ali. Quando sentiu que poderia dormir daquela forma, ouviu passos no corredor e, rapidamente, voltou a poltrona para seu respectivo lugar, enfiando-se embaixo das cobertas, apertando Cutter em sua forma fechada, na palma de sua mão. A porta se fez aberta e o barulho de suas colegas de quarto se manifestando, aconteceu também. Agora com o rosto virado para a parede, sentindo Bagheera pular em sua cama também, Anne permitiu-se chorar baixinho, sentindo que, o céu, com sua chuva que voltara com mais intensidade, era a única coisa que poderia chorar com ela agora.
Porque ninguém mais precisava vê-la naquele estado tão deplorável. Naquele estado onde ela podia dizer que já havia perdido tudo, que já havia perdido suas seguranças de algo, ou em alguém. Naquele estado onde ela podia dizer que já havia perdido, definitivamente, o controle sobre toda e qualquer coisa envolvendo sua vida e, acima de tudo, tão miserável existência.
A (lonely) happy b-day. || POV
{...} Eu nem sabia por quais capetas havia levantado da cama naquele dia.
Simplesmente odiava a data do meu aniversário. Por motivos idiotas, eu sabia, mas sempre odiei. Desde que eu me dava por gente, podiam haver festas grandiosas, mas sempre havia gente gritando comigo no final do dia, minha mãe gritando comigo antes sequer de me desejar um mísero "parabéns". Meu pai devia saber qual era a data que se sucedia, mas se sabia, preferia fingir que nem era com ele; ao menos, o Sr. Portman me dava um breve aceno de cabeça e se estivesse com um copo em mãos quando eu passasse por ele, erguia-o num tipo de brinde silencioso, sem nem dizer nada pelo resto do dia.
Em outras palavras, meu aniversário era um grande e sufocante nada.
E agora, comigo encarando o teto, eu podia ver o quão na merda eu estava. Às beiras dos meus 16 anos, todo o tumulto da minha vida, toda a confusão que se estendia sem mais nem menos. Além dos motivos básicos para o meu ódio na data, existia também o fato de ser, talvez, a época em que eu mais me via obrigada a encarar a realidade: a solidão podia doer algumas vezes. Eu não sabia se Yeva me cumprimentaria assim que me visse, ou o que quer que quem fosse, fizesse. E era exatamente isso que fazia com que eu me conformasse de que não tinha que esperar nada de ninguém; era só uma data. Uma mísera data.
Simplesmente me levantei, me encaminhei para o banheiro e depois de uma ducha, ao sair enrolada na toalha, deparei-me com Corpse na janela do quarto, carregando algo em uma das patas. Aproximei-me com cuidado afagando-lhe o bico e retirei o que parecia ser uma carta. Desenrolei-o e tomando cuidado para que as gotas d'água não o atingissem, sentei-me na cama, visualizando seu conteúdo.
16 anos. Sabe, nessa época eu e seu pai já estávamos namorando há quase dois anos, com perturbações e tudo o mais. Nunca fomos um casal perfeito e todos sabiam. Nunca seríamos pessoas perfeitas, e sabíamos disso. Acontece que eu sempre tive o sonho de ter uma filha que pudesse corrigir todo tipo de imperfeição que pudesse existir no meu sangue; até que tardou, mas ela finalmente veio. Uma certa loirinha dos olhos azuis grandões, tão grandes que pareciam hipnotizar qualquer um que olhasse para eles. Mesmo que não parecesse, mamãe estava feliz com aquilo. Feliz com o fato de finalmente poder ter a chance de possuir a princesinha com a qual eu tanto sonhei, ao meu alcance. E por mais que não pareça, eu me sinto orgulhosa disso até hoje.
Existem sim controvérsias, brigas e confusões, Éricka. Mas já pensou que se não tivéssemos passado por tudo isso, talvez você não fosse a filha da qual eu me orgulharia tanto hoje? Apesar de vê-la cedendo algumas vezes, em situações tão... Banais, eu sei que hoje posso olhar pra você e ver que eu fiz bem meu trabalho. Não como mãe, talvez, porque eu nunca estive tão presente, confesso. Mas como amiga, quem sabe. Antes que me pergunte, sim, eu sei das coisas que andaram acontecendo com você. Sei das coisas que se sucederam com um... Grifinório, e aquela sua amiga ruiva, Yeva. Sei também que você não é do tipo que se abala por muito tempo e que se lembra das palavras de seu avô com frequência; e é por isso que eu digo que é melhor que se mantenha forte, que simplesmente ignore todo tipo de dor que se passa. Não é fácil, eu sei. Já passei pelo mesmo. Quase a mesma situação... Mas você é uma sonserina e, acima de tudo, uma Portman. Não estou te cobrando, antes que me julgue também. Estou apenas te lembrando do lugar ao qual você sempre pertenceu, estou te lembrando das origens e raízes nas quais cresceu, filha.
Não é muito, como um cumprimento pessoalmente, mas espero que seja o suficiente. Não sei se Corpse entregou esta carta com precisão, no dia 26 de janeiro, perto do meio do dia. Ainda assim, eu quero te desejar parabéns, um feliz aniversário. E que continue se mantendo forte, se mantendo sendo tudo aquilo que eu, seu pai e, acima de tudo, seu avô, a ensinamos a ser. Principalmente, a não se envergonhar disto.
Seu pai e eu temos orgulho de você, Gloria. E mesmo que só eu esteja escrevendo esta carta, ele certamente gostaria de falar o mesmo para você. Assim como seu avô.
Com amor, mamãe.
Não sei por quais diabos eu me peguei sorrindo ao terminar a carta. Talvez pela menção de palavras que eu nunca ouvira minha mãe pronunciar, como "minha filha", "com amor" e etc, ou talvez a menção de meu avô, coisa que me arrancara as principais lágrimas. Algumas delas escorriam por meu rosto, enquanto eu fitava o documento, com a letra impecável da Sra. Portman. Mulher forte, dominadora de expressões e sentimentos. Por mais que eu me parecesse com meu pai, havia quem dizia que eu tinha o temperamento de Gloria Lorney, consequentemente, a mesma pinta de meu avô, que era mais visto como um Portman, do que um Lorney em si.
Ao final da leitura e releitura, suspirei e deixei a carta ao meu lado. Olhei para Corpse e pensei em dar uma resposta, mas era melhor não. Ao menos, minha mãe sabia que eu não era muito fã de presentes, o que era bom. E também, um acontecimento daqueles devia ser aproveitado, não receptado. Decidi por fim que falaria com meus pais assim que voltasse para casa nas férias, ou no próximo feriado.
Eu teria que acompanhar o desfecho daquele milagre bem de perto.
Pegue um pedaço da minha vida, Pegue um pedaço da minha alma, Pegue um pedaço do meu rosto, Então eu nunca poderei envelhecer. E pegue um pedaço do meu mundo. Pegue um pedaço do meu coração. Pegue um pedaço do meu cérebro. Então eu nunca poderei ser inteligente. Todos querem me ver triste. Meu corpo no chão sujo... Todos querem. Eu quero que você abuse de mim, me use. Cale a boca e faça. Porque todos querem algo de mim! Me agarre, me apunhale. Vá em frente e me tenha. Porque todos querem algo de mim. Todos querem algo de mim...
Everbody Wants Something From Me (Anne Portman)