Capítulo 15 - Vetucci
- Nunca vim nesse lugar. – Abbey murmurou enquanto andávamos pelas calçadas de Londres em pleno sábado às nove horas da noite. Estava frio hoje, eu e ela usávamos casacos grossos. Decidi leva-la comigo ao “Vetucci” o restaurante italiano que Anna queria tanto que eu criticasse. Levei Abbey para ela tirar algumas fotos do lugar e das coisas e etc.
Geralmente eu faço essas coisas sozinho, pois não gosto quando a pessoa fica enchendo o meu ouvido de coisas insignificantes enquanto eu quero pensar sobre o lugar e a comida e o atendimento e se o local era adequado. Porém, decidi convidar Abbey porque tinha quase certeza de que ela criticaria também enquanto tirava as fotos. Além desse fato também, ela tinha uma coleção de máquinas fotográficas, então acho que ela não se importaria de me ajudar.
- Nem eu. – respondi. Decidimos ir caminhando pois o restaurante era bem na Charlotte Street, pelo menos a umas quatro quadras do meu loft, não tinha motivo para se ir de carro.
Abbey grudou sua mão na minha, dei uma olhada de relance para ela enquanto atravessava a rua.
- O quê? Não coloquei luvas, minhas mãos estão congelando. – ela murmurou, encostando a cabeça no meu braço.
Dei uma risada abafada e apertei a sua mão contra a minha coberta pela luva sem dedos.
Entramos no restaurante e rapidamente uma moça vindo em nossa direção para guardar os nossos casacos. Até me assustei com a sua velocidade impressionante. Tiramos os casacos e entregamos para a moça com tranças no cabelo.
Olhei para Abbey, essa olhava para mim com as sobrancelhas erguidas e um sorriso de deboche.
- Posso ajuda-los? – a moça voltou, com as mãos para trás.
- Sim... – respondi, colocando as mãos nos bolsos do meu jeans escuro. – tenho uma reserva no nome do London Daily. – ela ergueu as sobrancelhas escuras para mim e sorriu.
- Ah! Mas é claro! Você é o critico. – ela apertou as mãos em sua prancha de plástico. – por favor, por aqui.
O lugar era bem iluminado e as mesas eram bonitas e cobertas com uma toalha grossa e bordada, cor de creme, enquanto embaixo havia outra de cor vermelha. As cadeiras eram estofadas e douradas, com as almofadas na cor vinho. No canto esquerdo do restaurante, um pouco antes do caixa, se estendia uma enorme estante com vinhos de diversas safras. Era bem bonito.
Além da típica música italiana que se infiltrava em nossos ouvidos.
- O crítico. – Abbey sussurrou com uma voz em meio a risadas abafadas. Espirei meu ar, dando um sorriso discreto e lhe dando um empurrãozinho.
A nossa mesa ficava na janela, a atendente bonita nos levou até lá e acendeu rapidamente as velas que ficavam ao lado de uma rosa vermelha.
- Já venho para atendê-los. – ela disse, enquanto nos sentávamos.
Vi Abbey se olhar por debaixo da mesa, ela se encolheu e colocou as mãos no colo.
- Devia ter vindo com meu vestido preto. – ela murmurou, colocando a toalha de mesa no lugar e bufando alto, constrangida. – me sinto estranha.
Olhei para ela por um momento. Seu longo cabelo castanho estava brilhoso e jogado para trás, e eu já conseguia finalmente ver sua testa por conta da franja que havia crescido, e assim ela parecia mais velha. O vestido coral acentuava a sua pele corada e cobria o seu peito inteiro, deixando os braços a mostra, ela deveria estar com frio.
Adorava fazer aquilo comigo mesmo.
Ela usava uma maquiagem clara. Em volta do seu pescoço, estava sua câmera que tinha uma aparência velha, mas de boa qualidade.
- Claro que não, você está ótima. – falei, apoiando meu queixo na mão.
- Disse o cara com uma jaqueta de couro preta e uma calça escura e uma camiseta preta. – ela murmurou, em um quase sorriso.
- Mas foi você quem escolheu! – levantei as sobrancelhas.
Seu sorriso se alargou.
- Eu sei, só estou tentando te irritar.
- Você faz isso toda hora.
Ela ergueu suas sobrancelhas como resposta e pegou o cardápio, colocando-o na frente do seu rosto.
Fiquei pensando na vida enquanto ela checava o menu.
- Abbey...
- O que foi? – ela respondeu, entretida.
- Abbey, Abbey, Abbey... – murmurei sozinho, ignorando-a.
- O que, Jason? – seu tom de voz aumentou.
Continuei a ignorá-la, murmurando seu nome e olhando para o lustre bonito que ficava no meio do restaurante.
- Você tá me deixando irritada, quer me falar logo? – ouvi Abbey berrar.
- É Abbey, mesmo? Abbey, Abbey?
- Sim, Abbey! Qual o problema? – ela abaixou o menu, fazendo com que eu percebesse o sorriso em seu rosto.
- Não seria Abgail? Não acha que seus pais estão te enganando?
Abbey bufou alto, revirando seus olhos.
- Acha que não sei meu próprio nome?
- Sim... – respondi, querendo irritá-la. – ah, fala sério! Abbey é o apelido para Abgail, isso é obvio.
- Não necessariamente! – ela estava falando alto. – você tem o nome de um assassino e eu nunca me importei.
Dei um sorriso discreto para ela enquanto passava meus dedos pelo meu queixo ralo por conta da barba.
- Qual abadia você é? – tentei.
Abbey me encarou séria.
(Nota: “abbey” significa “abadia” em inglês).
- Sou a abadia na qual você nunca vai por os pés se continuar falando do meu nome. – ela mostrou os dentes em um sorriso infantil, abaixei os olhos e sorri largo. – se você continuar falando essas besteiras eu levanto e vou embora! – ela exclamou, erguendo as sobrancelhas. - como se pronuncia isso?
Coloquei os olhos em seu cardápio.
- Gnoc...Gnocc... – o que era isso? Um trava línguas? Aquilo era impossível de se pronunciar. – ah, Abbey! Você faz italiano, deveria saber.
Ela me deu uma encarada bem profunda.
- Eu sei, só estou te fazendo de idiota. – ela sorriu e lambeu os lábios, encarou o cardápio e respirou fundo. – gnocchetti à bolonhesa.
Dei uma risada irônica na sua direção e bati meu cardápio em sua cabeça, ela deu uma risadinha e fechou os olhos. Era engraçado o fato de nós dois parecermos duas crianças babacas em um restaurante refinado com gente educada e importante. Abbey parecia um sinalizador com aquele vestido e eu o idiota que gaguejava ao falar italiano em um restaurante italiano.
Ela ergueu sua câmera para o interior do estabelecimento, tirando várias fotos silenciosas enquanto eu olhava o menu, não fazia ideia do que pedir, provavelmente seria espaguete. Mas eu estava fazendo uma crítica, eu precisava de um prato da casa, ou algo do tipo.
De repente, senti o flash na minha cara.
- Droga, Abbey! – resmunguei, piscando. Ter olhos claros me fazia muito sensível perto da luz, de quase qualquer luz forte. Por isso que nosso apartamento nem era tão iluminado e meu quarto sempre tinha a janela coberta pelas cortinas.
- Desculpa, não consigo me controlar. – ela falou, em um tom nervoso e excitado, enquanto olhava para o visor da câmera. Ri de sua reação. – pelo menos não estou com a Polaroid, seria bem pior.
Apenas sorri, não entendia de câmeras.
A mulher que havia nos atendido antes voltou a nossa mesa para anotar os nossos pedidos. Acabou que eu pedi o que Abbey tentava pronunciar, e ela pediu um prato de macarrão pene e molho branco.
Esperamos a mulher sair para continuarmos a conversar sobre coisas aleatórias.
Foi quando Abbey:
- “Pene” lembra pênis. – ela murmurou, de repente, checando o cardápio enquanto se fingia interessada. Tentei não rir, mas uma risada abafada escapou de minha boca. – o quê? Mas não lembra? – ela dava um sorriso largo.
Passei uma mão pela testa, dando risadinhas discretas.
- Um pênis ao molho branco, por favor. – murmurei em voz grossa, enquanto ria. Abbey foi para frente com o gole de vinho, quase cuspindo em mim. Todos nos encararam na hora, consegui ouvir até um garfo pousar na louça drasticamente, enquanto Abbey pegava o guardanapo e eu me sentia exposto.
- Não faz isso de novo, por favor. – ela respondeu, rindo enquanto limpava a boca com o guardanapo. – espera eu terminar de tomar a bebida.
- Me desculpa. – respondi.
- Ainda grito “pênis” pra todo mundo ouvir. – Abbey comentou, olhando para seus talheres. – de preferência da ponta de um prédio ou algo do tipo.
- Quero estar lá pra ver isso. – sorri, e percebi um sorriso em resposta.
Ficamos um tempo em silêncio enquanto eu tomava mais algumas notas mentais sobre o restaurante. Lugar tranquilo, bom para um jantar romântico ou um jantar com uma pessoa mais idiota do que você mesmo. Bem climatizado e confortável, o atendimento até agora não me desapontou, e estava esperando a comida para poder tirar as conclusões finais.
- Posso te acordar quatro da manhã amanhã para caminhar pela South Bank? – mas que tipo de pergunta era aquela. Amanhã era domingo, o único dia que eu tinha para dormir até duas horas da tarde.
- Precisa ser quatro da manhã? Vai estar um frio de congelar o cérebro. – resmunguei, franzindo as sobrancelhas.
- Ah... – ela fez bico, olhando para a mesa. – é que eu gosto de ver o sol nascer no Parlamento enquanto eu corro.
- Você faz isso todo dia?
Ela assentiu com a cabeça, tomando um copo do seu vinho. Nem sabia que ela podia beber.
- Sim, eu costumava morar perto do Parlamento quando eu era mais nova, meu pai sempre me acordava pra ver o nascer do sol, depois eu voltava a dormir. – Abbey encarava as calçadas da Charlotte Street pela janela grande. Já havia entendido o porquê de Abbey ser assim, seus pais pareciam ser a mesma coisa. – era ótimo fazer isso enquanto toda Londres dormia, parecia que só nós dois existíamos, era uma sensação inexplicável. Não é a mesma coisa sem ele.
Lambi os lábios, aflito por nunca sentir isso. Se senti, não me lembro de como era.
- Que tal quatro e meia?
Ela ergueu os olhos para mim, dando um sorriso de lado.
- Fala sério?
Assenti com a cabeça, sorrindo discretamente.
- Quero saber como é me sentir único. – comentei, olhando para a sua mão que repousava no canto esquerdo da mesa. Suas unhas eram bem feitas e estavam pintadas de vermelho escuro, quase marrom. Subi os olhos para ela e sorri quando percebi que ela sorria para mim.
- Você é, só desconhece a sensação. – ela murmurou, voltando seu olhar para baixo e escondendo seu sorriso. – todos nós somos únicos de alguma forma.
Lambi novamente os lábios e tomei um gole do meu vinho tinto. Não costumava tomar vinho, quase sempre tomava cerveja, mas aquele vinho estava excepcional.
Me sentia lisonjeado, pela primeira vez em um bom tempo.
- Obrigado. – respondi, limpando a garganta.
Após comermos, ficamos sentados lá por algum tempo enquanto discutíamos sobre o restaurante. A comida era refinada e prazerosa de se comer, mesmo eu preferindo comida japonesa. Abbey concordava comigo e dizia que os pratos vinham na dose certa, você não se sentia estufado.
Depois de vários comentários, fomos uns dos últimos a sair de lá de dentro. Conversamos com os garçons e os atendentes, eles eram educados e até mesmo brincalhões. Abbey elogiou tanto o atendimento e o lugar, que um garçom que parecia ter quase a sua idade, com a pele pálida e os cabelos loiros, ficou com as bochechas vermelhas enquanto ela falava, como se estivesse tomando o elogio para si.
Bem, era uma garota bonita quem elogiava, eu entendia como deveria ser.
Era quase meia noite quando saímos de lá, Abbey mexia em sua câmera enquanto eu brincava com o vapor que saia de dentro da minha boca, demonstrando a temperatura da cidade.
Caminhamos em silêncio, passei meu braço em volta dos ombros de Abbey, aquecendo-a, seu casaco nem era tão grosso e ela estava com as pernas a mostra, deveria estar tremendo de frio. Ela se apertou contra mim, estremecendo ao sentir o vento gelado passar por suas pernas.
- Quatro e meia? Que tal às sete? – ela murmurou, encostando a cabeça em meu peito. Ela era tão pequena.
Sorri com seu comentário preguiçoso.
- Melhorou. – era engraçado o jeito que ela se segurava em mim, ela agarrava o meu casaco de lã e o apertava entre os dedos. – você vai ficar resfriada, vou chamar um taxi.
- Estamos a menos de duas quadras do apartamento, Jason. – ouvi Abbey dizer, seu cabelo voava em seu rosto e aquilo parecia irrita-la. – não vai gastar dinheiro a toa.
Bufei, percebendo o vapor que saia da minha boca. Apressamos um pouco mais o passo, e mesmo Abbey estando de salto, ela me acompanhou fielmente. Chegamos ao apartamento em menos de dez minutos, e eu me embolei todo tentando abrir a porta de fora, enquanto Abbey dava pulinhos de frio.
- Um pouco mais rápido, por favor? – ela suplicava.
- Desculpe, desculpe. – falei, abrindo a porta, deixando que ela entrasse rapidamente. Subimos as escadas calmamente, já que dentro do prédio, a temperatura era agradável.
Entramos no apartamento, parecia que ela passaria mais uma noite ali comigo, e aquilo não era um problema para Abbey, já que ela tinha as minhas camisas e minhas calças de pijama (além de minhas cuecas samba-canção) para se cobrir.
Abbey pulou no sofá e retirou os saltos, massageando os pés enquanto eu tirava o meu casaco e ia até a cozinha fazer algo quente para tomar.
Ouvi os passos rápidos de Abbey pelo chão de madeira até aonde eu estava.
- Por que não vai trocar de roupa? Vou fazer algo quente pra tomarmos.
Ela subiu no balcão e quase bateu a cabeça no armário, rindo sozinha.
- Já vou.
Olhei para ela por um momento e depois me voltei para a chaleira elétrica de Dave. No começo achei aquilo um desperdiço de dinheiro, mas era até legal.
- Deixa eu te lembrar uma coisa... – eu disse enquanto colocava a água pra esquentar. – as provas dos livros são segunda-feira, me diz que você sabia disso.
Ela ficou em silêncio por um momento.
- Me senti ofendida agora. – Abbey disse, com um tom irônico. Virei-me para ela e me apoiei na bancada. – eu já tinha lido Jane Eyre mas reli em dois dias, o do Dorian Grey foi coisa rápida, li essa semana.
Lambi os lábios e cruzei os braços.
Abbey pulou da bancada e veio em minha direção, dando passos lentos e com um sorriso cômico no rosto.
- Tem medo de eu ir mal em uma prova sua? – ela estava perto agora, e tinha que inclinar a cabeça para cima para olhar em meus olhos. E eu tinha que fazer a mesma coisa, só que inclinando a cabeça para baixo.
Gaguejei palavras indecifráveis e pisquei rapidamente.
- N-não, quer dizer, sim... – Abbey arqueou uma sobrancelha e sorriu sarcasticamente. – deixa eu terminar! Não duvido que vá bem, mas quero que esteja pronta, só isso.
- Lembra quando falei de pegar as respostas da prova com você?
- Sim.
- Eu estava falando sério. – ela me beliscou por cima da camisa.
Fiz um bico para ela e franzi as sobrancelhas, confuso.
- Sério?
Ela deu várias gargalhadas irônicas e se virou, saindo da cozinha.
- Abbey? – a chamei, inclinando a cabeça para ver aonde ela ia. Droga, por que ela faz isso? Por que ela é assim?
Ela se virou para mim e balançou os ombros, como sempre fazia quando queria ser sarcástica.
- Você duvida de mim. – ela cruzou os braços e esperou alguma reação minha.
- Não duvido não.
- Você não viu o que eu acabei de fazer agora? Falei que pegaria as respostas da prova com você e você disse: “sério?”, como se realmente achasse que isso seria uma possibilidade.
Pisquei várias vezes, muito confuso.
- E você está brava comigo agora? – perguntei, tentando fazer com que ela achasse que eu havia entendido alguma palavra que saiu de sua boca.
Abbey passou a mão pelo seu cabelo levemente ondulado e sorriu para o lado.
- Não. – ela disse, em um tom de voz engraçado e franzindo as sobrancelhas. – só estou te testando.
Ergui as sobrancelhas, piscando várias vezes.
- Ah.
- Jase?
Olhei para ela, que dava passos lentos em minha direção.
- O quê?
De braços cruzados, ela parou na minha frente novamente. Olhou para os nossos pés e depois olhou para os meus olhos, lambendo os lábios.
Só percebi que ela estava na ponta dos pés quando ela me deu um selinho rápido e gelado em meu lábio inferior.
Repetindo: no inferior.
Abbey era tão pequena.
Quando ela fez isso, coloquei as mãos em suas costas e puxei-a contra mim, abaixando o rosto e facilitando o seu caminho até o resto da minha boca. Aprofundei o beijo e a senti passar os braços em volta do meu pescoço, enquanto eu inclinava nossos corpos para baixo. Senti que ela sorria entre o beijo e aquilo fez com que eu suspirasse fundo, sorrindo de volta.
Abbey deu uma gargalhada enquanto massageava os meus cabelos.
Ela era tão estranha, tão problemática e sei lá... Perturbadora. Sua presença me perturbava, seu olhar me perturbava, seu sorriso me perturbava. Sua existência me perturbava.
Mas ela também era incrivelmente irresistível e fazia com que todos gostassem dela, mesmo não querendo. O que estava acontecendo nesse momento comigo.
Abbey se soltou de mim depois de um beijo no meu maxilar, girando e indo em direção ao quarto, correndo pelo apartamento.
Passei uma mão pelo meu cabelo e coloquei as mãos nos bolsos, respirando todo o ar que eu não consegui respirar nos últimos segundos.
- Oi Dave! – ela gritou ao passar pelo quarto, a porta se encontrava fechada. Passei atrás dela e por um momento achei estranho a porta de David fechada, era raro acontecer isso, mas decidi não incomodar.
Entrei no meu quarto e fechei a porta atrás de mim. Abbey se encontrava no banheiro, fui para frente do armário e tirei uma camiseta velha e uma calça de pijama para mim.
Agora me deixe explicar algo:
Em uma parte do meu armário (justamente a parte que eu abri para pegar a calça) tem um espelho médio embutido. E esse espelho fica na direção da porta do banheiro que se encontrava quase aberta.
Eu abri o armário inocentemente para pegar a minha roupa, quando sem querer, olhei para o espelho. E atrás de mim percebi a figura de Abbey, soltando o fecho do seu sutiã preto, enquanto a saia de seu vestido deslizava por suas pernas, caindo no chão.
Ok, o que eu vou dizer agora pode ser mal interpretado por você que está lendo isso, mas vou dizer do mesmo jeito: Abbey pode ser pequena que nem um anão de jardim, mas a criatura tinha um corpo inexplicável de tão impecável. Seus quadris eram um pouco largos, mas na medida certa, e suas pernas eram meio torneadas, imperceptíveis por cima dos babados dos vestidos ou das meias finas e escuras que ela geralmente usava no seu dia a dia.
Queria parar de olhar, eu tinha que parar de olhar, mas estava sem ar e não conseguia piscar. Voltei ao meu estado normal e desviei o olhar, tirando minha camiseta e colocando a minha camiseta de flanela de pijama. Afastei-me do banheiro e vesti minha calça rapidamente, tirando as meias.
Abbey saiu do banheiro só de camisa e foi até a estante de livros que cobria uma parede do meu quarto. Ela inclinava a cabeça atentamente para ler os títulos da estante do alto.
Ela se virou para mim e sorriu.
- Tenho vários livros da sua estante... – cruzou os braços e deu um sorriso fino. – agora está comprovado o seu bom gosto em livros.
Eu não ouvia o que ela falava, encarava o seu rosto como se eu estivesse ouvindo, mas não estava. Queria tocá-la e beija-la de novo e de novo, e aquilo era horrível.
Aproximei-me dela, que encarava o meu rosto, seu sorriso ia desaparecendo a cada passo que eu dava para perto dela. Toquei o lado do seu pescoço, sua pele estava quente embaixo dos meus dedos finos e gelados, vi ela fechar os olhos por um momento e abri-los logo quando dei mais um passo para frente.
Minha mandíbula se contraiu enquanto eu tinha dificuldade para respirar o mesmo ar que ela respirava.
Acho que Abbey estava impaciente, pois a senti ficar na ponta dos pés e me beijar profundamente, apertando seus dedos em meu cabelo ondulado.
Puxei-a pela cintura para mais perto do meu corpo, enquanto ela aprofundava o beijo e eu apertava as minhas mãos em seus quadris. Senti-a desprender do beijo, roçando seu lábio inferior nos meus, fazendo com que eu suspirasse e empurrasse os nossos corpos na direção da estante, batendo suas costas contra alguns livros e fazendo a estante balançar. Mas aquilo não importava.
Estávamos fazendo uma encenação do que havia acontecido aquele dia em Oxford, mas naquele momento não nos preocupávamos com os seguranças ou com os estudantes.
Passei as mãos em suas coxas e puxei-as para cada lado do meu corpo, suspendendo-a no ar. Abbey se apertava em mim e suspirava na minha boca toda vez que eu me separava dela. Não era o meu eu de normalmente que estava fazendo aquilo. Aquele era o meu eu necessitado, o meu eu descontrolado e despreocupado com outra coisa a não ser a mulher que se enroscava em mim mais e mais a cada segundo.
Abbey se segurou em mim quando soltei as mãos de suas coxas e as direcionei até os botões da camisa que ela vestia. Eu encarava sua boca enquanto trabalhava neles sem pressa e de propósito, percebendo a paciência de Abbey acabando rapidamente.
- Anda logo! – ela grunhiu, franzindo as sobrancelhas. Arfei alto ao ouvi-la dizer isso, enquanto eu ainda estava no terceiro botão. – Jason, por favor...!
Ao desabotoar o quarto botão, deslizei as mãos por dentro da camisa, indo até a sua cintura e depois descendo os dedos até sua calcinha, enquanto um sentimento de deja-vu me seguia.
Ela puxava a camiseta para fora do meu corpo instintivamente, ajudei-a a tirar a camiseta, vendo-a apoiar a cabeça no meu ombro descoberto. Eu sentia sua respiração rápida e quente bater no meu peito enquanto eu brincava com as extremidades de sua calcinha, como havia feito rapidamente em Oxford.
Peguei-a pelas pernas novamente e levei-a até a cama.
Não acordamos às quatro, e nem às sete da manhã, eu acordei às dez. Aquilo nem parecia chatear Abbey, pois ela ainda dormia enrolada nos lençóis como se não dormisse a bastante tempo. Enquanto ela dormia, eu brincava com um dos cachos que se formaram em seu cabelo, por conta das milhares de vezes que ela se mexeu de noite.
É, na hora do sexo também.
Havia sido o melhor sexo que eu havia feito há tempos. E sim, fazia um bom tempo que eu não conseguia pensar em sexo como eu pensava antes de terminar a faculdade.
Não sei se consigo me permitir a comentar mais do que isso, mas ela foi tão... Deus, só de lembrar do jeito que ela se contorceu e arfou embaixo de mim, e de como ela arranhou as minhas costas... Bem, eu...
Aquilo havia sido um erro.
Mas eu ando cometendo vários erros, não é?
Levantei-me sem acordá-la e fui até o banheiro tomar um banho, me sentia horrível. Tomei um banho gelado e coloquei um moletom e um jeans, indo até a sala, rezando para David não estar ou senão, estar dormindo.
E rezando pra ele não ter ouvido também.
Fui até a sala aonde David estava, sentado no sofá enquanto fazia algumas contas.
- Bom dia, cara. – ele disse quando olhou pra mim.
- Dia. – respondi, brevemente.
- Noite boa, não? – David perguntou, com um sorriso cômico no rosto enquanto me encarava de propósito.
Pisquei várias vezes para ele e virei a cara.
- Vou levar isso como um sim. – ele se levantou do sofá e foi até a cozinha. – vamos sair pra comer algo? Quero panquecas.
Lambi os lábios e sentei-me no sofá.
- Preciso acordar Abbey primeiro.
- Não precisa, já acordei. – ouvi sua voz vindo do corredor e direcionei meu olhar até lá. Abbey se enrolava no lençol grosso e branco que costumava ficar na minha cama, seus cabelos estavam bem bagunçados e seu rosto estava mais corado do que já era, ela sorria. – bom dia.
Pisquei várias vezes para sua figura bagunçada e sorri de lado.
- Bom dia.














