Inúmeras foram as vezes
que cheguei a beirada, olhei de cima e quis pular
pular de cabeça, me estragar, me acabar
eu não queria levantar da queda
eu não queria sentir nada
apenas aquele instante do salto
onde eu alçaria voo para não mais voltar.
Eu queria esquecer as lembranças
algumas pessoas e lugares
eu queria me distanciar de mim
ao mesmo tempo em que queria me aproximar
eu queria sentir a brisa na face
a calma do sono, a falta de stress
queria descobrir o que existia do lado de lá
mas a vida me segurava, de certo eu tinha um medo
o medo de não mais voltar,
de fechar os olhos e descobrir que foi em vão
de acabar a vida sem sequer ter vivido
os instantes que hão de me eternizar
não na história, não no tempo
mas em alguém, em algum lugar.
Foram inúmeras as vezes que cheguei a beirada
respirei fundo, senti um frio na barriga e quis pular
até que com o tempo me acostumei ao risco
e aquilo que parecia oferecer perigo
se tornou uma terapia importantíssima
para eu me sentir vivo e desistir
daquilo que me faz chorar.
É, desde que eu aceitei a felicidade já não visito a sacada
já não desejo pular, mas quando olho pela janela
ainda me pergunto: por que eu não posso voar?