O Enxeco de Pinhel
No ano da graça de 1642, a mui nobre e leal vila de Pinhel — sentinela de granito plantada na Beira — acordou sob um fenómeno que desafiava tanto a teologia de Coimbra como a estratégia militar de Lisboa. Antes que o galo do sacristão pudesse anunciar o primeiro raio de sol, uma nuvem de uma densidade pecaminosa desceu sobre a Torre de Menagem, abraçando as muralhas com o entusiasmo de um credor que encontra um devedor na feira.
Este não era um nevoeiro comum, daqueles que sobem do Côa para refrescar as vinhas. Era uma massa opaca, com a consistência de massa de pão mal levedada e um aroma complexo que oscilava entre o enxofre das profundezas infernais e o conforto das castanhas assadas na brasa. Quem nele entrava, não perdia apenas a visão; perdia a noção de tempo e a capacidade de conjugar verbos no futuro.
O Governador das Armas da praça, D. Rodrigo de Figueiredo, um homem cujo humor era tão áspero como as pedras da encosta e que sofria de uma gota que lhe transformava o pé esquerdo num órgão de soberania independente, foi o primeiro a dar o alerta. Apoiado no seu cajado de buxo, batia com fúria nos parapeitos da muralha.
— "Isto é enxeco dos espanhóis!" — bramava ele, enquanto a sua voz se perdia no algodão cinzento que o rodeava. — "Mandaram-nos uma névoa de contrabando, uma neblina jesuítica de Castela, para nos roubarem o gado à surda e trocarem as nossas demarcações de fronteira enquanto dormimos!"
Para D. Rodrigo, tudo o que fosse inexplicável era, por definição, uma conspiração de Filipe IV. Mas a verdade, oculta sob as dobras daquela bruma sobrenatural, era muito mais antiga e consideravelmente mais lasciva.
Lá no alto, no Olimpo — que, para efeitos de jurisdição local, se assemelhava a uma versão nobárquica do Paço da Ribeira —, Júpiter andava entediado. O Senhor dos Deuses estava cansado das ninfas clássicas que agora só falavam de estética e ambrosia dietética. Numa das suas observações telescópicas através das nuvens, os seus olhos divinos tinham pousado em Pinhel, mais especificamente na figura de Iolanda, a filha do sacristão da Igreja de Santa Maria do Castelo.
Iolanda era uma jovem de uma beleza robusta e granítica, com sobrancelhas tão expressivas que pareciam dois corvos em pleno voo. Possuía a habilidade única, muito apreciada nos círculos herméticos, de distinguir sete tipos de granito apenas pelo paladar, e o seu riso tinha o som de moedas de ouro a cair num prato de estanho. Júpiter, que nunca fora homem (ou deus) de meias medidas, decidiu que Pinhel seria o palco da sua próxima "intervenção diplomática".
Contudo, havia o problema de Juno. A sua esposa divina, que naqueles anos de 1600 se manifestava no Reino de Portugal sob o disfarce de uma Inquisidora-Mor de apelido austero e olhar que congelava o azeite nas talhas, tinha um olfato apurado para a infidelidade. Juno conhecia todos os truques do marido: o cisne, o touro, a chuva de ouro (que em Portugal fora rapidamente confiscada pelo fisco).
Por isso, Júpiter decidiu inovar. Para seduzir Iolanda, não se transformou num animal, mas num nevoeiro burocrático. Era a camuflagem perfeita para o século XVII português. Ele sabia que, perante uma nuvem que parecia um mistério jurídico, as autoridades locais passariam dias a redigir autos de notícia em vez de investigarem a origem da bruma.
Enquanto a vila de Pinhel mergulhava no pânico, com os mercadores a tentarem vender "ar purificado em frascos" e as beatas a rezarem a São Barnabé contra a asfixia celestial, Júpiter, sob a forma daquela nuvem persistente, infiltrou-se pelas frestas da casa do sacristão.
Iolanda, que estava na cozinha a tentar convencer um naco de carne de porco a aceitar o sal, viu a neblina entrar pela chaminé. Diferente do nevoeiro lá fora, este era quente e sussurrava promessas de títulos nobiliárquicos e isenções fiscais em latim vulgar.
— "Vem comigo, ó musa do planalto," — murmurava o nevoeiro, enquanto se condensava em volta das mãos da jovem. — "Dar-te-ei os segredos das estrelas e uma carta de privilégio que fará de ti a dona de todas as pedras entre Pinhel e Trancoso."
Iolanda, que era uma rapariga pragmática e sabia que em tempos de guerra com Castela um privilégio valia mais que um milagre, deixou-se envolver. Mas o destino, ou melhor, o ciúme divino, tem o passo rápido.
A quilómetros dali, Juno sentiu um distúrbio na ordem moral do universo. Ou talvez fosse apenas o cheiro a enxofre que Júpiter, no seu entusiasmo, deixara escapar. Montada no seu pavão de guerra — um pássaro enorme cujas penas da cauda pareciam feitas de pergaminhos selados —, a deusa-inquisidora partiu em direção à Beira Alta. O bater das asas do pavão criava correntes de ar frio que ameaçavam dissipar a cobertura burocrática de Júpiter.
Em Pinhel, o Governador D. Rodrigo via agora luzes estranhas a brilhar no meio da névoa.
— "Vêm aí os fogos de artifício dos espanhóis!" — gritou para os mosqueteiros que, de olhos vendados pelo nevoeiro, tentavam carregar as armas com pólvora húmida. — "Preparem os canhões! Se não vemos o inimigo, disparem contra o próprio ar, que o ar hoje está claramente contra Portugal!"
Foi neste cenário de caos administrativo e paranoia militar que o primeiro capítulo desta tragédia surreal se selou. Júpiter, ao ouvir o grasnar autoritário do pavão de Juno, percebeu que o tempo das subtilezas gasosas tinha terminado. Num ato de desespero metafísico, e sem tempo para consultar os manuais de metamorfose clássica, olhou para o que havia de mais comum no quintal do sacristão para esconder a sua amada.
Iolanda, que estava prestes a aceitar um beijo feito de vapor, sentiu subitamente um peso estranho nas têmporas e uma vontade incontrolável de mastigar o trevo que crescia entre as lajes. A nuvem dissipou-se parcialmente, revelando não a filha do sacristão, mas uma vaca barrosã de uma dignidade quase heráldica.
O nevoeiro burocrático de Júpiter tinha falhado, dando lugar à realidade sólida de um bovino de quatrocentos quilos, mesmo no momento em que as garras do pavão de Juno tocavam o solo sagrado e granítico de Pinhel. O enxeco estava apenas a começar.
O impacto das patas do pavão gigante de Juno nas lajes da Praça Maior de Pinhel soou como o bater de um martelo num tribunal divino. A ave, que ostentava uma gola de renda flamenga tão engomada que poderia cortar o pescoço a um infante, sacudiu as penas com um desdém aristocrático, lançando poeira e pequenos fragmentos de pergaminho sobre os populares que, de joelhos, não sabiam se rezavam à Virgem ou ao fisco.
Juno, disfarçada de Inquisidora-Mor com um hábito negro que parecia absorver toda a luz da Beira Alta, desceu da montada. O nevoeiro burocrático de Júpiter, agora reduzido a uns restos de neblina envergonhada que se escondiam debaixo das carretas de feno, não conseguia mais ocultar a evidência. No centro do quintal do sacristão, onde segundos antes estivera a formosa Iolanda, erguia-se agora uma vaca de raça barrosã.
Mas não era uma vaca qualquer. Júpiter, no seu pânico e falta de prática com a fauna lusa, exagerara nos atributos. A rês possuía uma pelagem de um loiro-dourado que ofuscava a vista e cornos que se elevavam em espirais tão complexas que pareciam o projeto de uma catedral barroca. Os olhos do animal conservavam as pestanas longas e o olhar melancólico de Iolanda, que agora, em vez de sonhar com dotes, apenas pensava na frescura do pasto junto ao Côa.
— "Mas que curiosa mutação teológica," — sibilou Juno, aproximando-se da vaca com a lente de aumento que usava para detetar heresias em rodapés de livros proibidos. — "Dizei-me, Senhor Governador, é costume nesta terra as vossas donzelas transformarem-se em gado bovino sempre que o céu fica cinzento, ou estamos perante um milagre não autorizado pela Santa Sé?"
D. Rodrigo de Figueiredo, cujo pé gotoso latejava agora ao ritmo de uma marcha fúnebre, limpou o suor da testa com uma bandeira de sinalização.
— "Minha Senhora Inquisidora," — gaguejou ele — "Pinhel é terra de muitos prodígios. Ontem mesmo, um porco recitou um soneto de Camões, mas creio que esta vaca... esta vaca é claramente uma espiã de Olivares! Notai a arrogância da sua postura e a forma como olha para o nosso castelo com intenções de anexação!"
Juno ignorou o delírio militarista do Governador. Ela conhecia o cheiro do marido. Aquele animal tresandava a ambrosia e a adultério olímpico. No entanto, não podia simplesmente abater a criatura; o protocolo celestial e as leis de propriedade do Reino exigiam um processo formal.
— "Esta rês é um corpo de delito," — decretou Juno. — "E como tal, deve ficar sob custódia oficial até que se determine se a sua alma é cristã ou se estamos perante um caso de possessão por via láctea. Chamai o Escrivão da Comarca!"
Foi então que surgiu, de entre as sombras dos arcos da câmara, a figura de Argos.
Na mitologia clássica, Argos era um gigante de cem olhos. Em Pinhel, a realidade era mais pragmática e terrivelmente mais lusa: Argos era um funcionário público de carreira que possuía cem primos. O seu poder não vinha da visão panorâmica, mas da rede capilar de parentesco que asfixiava a vila. Nada se movia em Pinhel sem que um primo de Argos estivesse a espreitar por uma fresta, a ouvir atrás de uma cortina ou a carimbar um requerimento em triplicado.
Argos, o Escrivão, tinha uma tez de papel pardo e dedos permanentemente manchados de tinta ferrogálica. Aproximou-se da vaca-Iolanda com um molho de papéis que parecia uma arma branca.
— "Ora vejamos," — murmurou Argos, rodeando o animal. — "Falta-lhe o brinco de identificação da Coroa, não pagou a dízima da circulação de cascos e, a julgar pela curvatura dos cornos, excede a largura máxima permitida para o trânsito nas ruas da Judiaria. É uma infração ambulante."
Juno sorriu pela primeira vez.
— "Sr. Argos, confio-lhe a guarda desta 'infração'. Que ela seja amarrada ao Pelourinho, à vista de todos, para que a vergonha lhe cure a metamorfose. E que nenhum dos vossos olhos — ou dos vossos primos — se feche por um segundo que seja."
A pobre Iolanda-vaca foi conduzida em procissão satírica pelas ruas enquanto o povo de Pinhel comentava a sua beleza.
— "Dá ideia que tem o olhar da filha do sacristão," — dizia uma velha, cruzando-se.
— "Não digas heresias," — respondia o vizinho — "aquela vaca tem muito mais porte de senhora do que a Iolanda, que sempre foi dada a ares de importância."
Argos organizou a vigilância com a eficiência de um estratega. Colocou o Primo Manuel (o que não dormia porque tinha café nas veias) à frente da vaca; o Primo Joaquim (o que tinha o ouvido apurado para sussurros de deuses) na esquina da Misericórdia; e a Prima Gertrudes (a que conseguia ver o pecado através das paredes de granito) na janela de cima.
A vaca foi condenada a uma tortura tipicamente administrativa. Como não havia orçamento para pasto de luxo para prisioneiros metafísicos, Argos decidiu que o animal se alimentaria exclusivamente dos editais caducados e dos autos de penhora acumulados no arquivo da câmara.
Iolanda, que no fundo do seu coração bovino ainda guardava o orgulho da donzela beiroa, mastigava com nojo os pergaminhos. O sabor era seco, amargo de taxas e sobretaxas, com um retrogosto a corrupção municipal. Cada mastigação era um mugido de revolta contra a burocracia que a aprisionava.
Enquanto isso, escondido numa taberna próxima, disfarçado de um barril de vinho de Lamego para não ser detetado por Juno, Júpiter observava o sofrimento da sua amada. Ele tentava enviar-lhe sinais — uma trovoada súbita que soava a um elogio, ou uma chuva de pétalas que o vento de Pinhel transformava em poeira de estrada.
Mas a vigilância de Argos e dos seus cem primos era absoluta. O Escrivão passava as noites a redigir o "Auto de Ocorrência de uma Vaca de Origem Duvidosa", um documento que já ia em duzentas páginas e que descrevia, com detalhe obsessivo, a frequência do piscar de olhos do animal e a direção da sua cauda em relação ao Norte magnético.
Pinhel tornara-se o centro de um cerco onde o exército não era feito de soldados, mas de primos vigilantes e de carimbos implacáveis. Iolanda, presa entre o seu passado de mulher e o seu presente de ruminante, olhava para as estrelas e mugia para o vácuo, esperando que algum deus — ou pelo menos um advogado com influência na Corte — a viesse resgatar daquele transtorno monumental de granito e papel selado.
A vila de Pinhel estava agora mergulhada num estado de paralisia contemplativa. No centro da Praça Maior, a Iolanda-vaca tornara-se o monumento vivo daquela desgraça. O animal, que outrora fora a alegria das romarias, definhava sob uma dieta de papel selado e tinta de carvalho. Argos, o Escrivão, tinha transformado o Pelourinho num posto de controlo alfandegário pessoal. Os seus cem primos, espalhados estrategicamente pelas frestas das casas de granito e pelas ameias do castelo, formavam uma rede de vigilância que faria inveja à própria Inquisição de Coimbra. Nada escapava àquela linhagem: se um pardal defecasse sobre um edital, havia um primo para registar a infração; se o vento mudasse de direção, havia um primo para avaliar o imposto sobre a circulação de ar.
Júpiter, ainda disfarçado de barril de vinho numa taberna sombria, sentia o seu poder divino a ser corroído pela pasmaceira administrativa da província. No Olimpo, os raios eram automáticos, mas em Pinhel, para lançar uma faísca, parecia ser necessário um requerimento com assinatura reconhecida por notário. Percebeu que, para derrotar a burocracia dos cem primos, não precisava de força, mas de algo que os portugueses temiam mais do que a morte: o tédio absoluto da leitura oficial.
Chamou então Mercúrio, o seu mensageiro mais ágil. Mercúrio desceu à Beira Alta não com sandálias aladas — que em 1642 seriam imediatamente confiscadas como "artigo de luxo de importação proibida" — mas disfarçado de um vendedor ambulante de testamentos, almanaques e bulas de indulgência. Trajava uma sobrecasaca gasta, um chapéu de abas largas que ocultava o seu brilho imortal e transportava um fardo de papéis que parecia pesar tanto como a consciência de um juiz corrupto.
Ao entrar na Praça Maior, Mercúrio não gritou "Milagre!". Gritou algo muito mais eficaz para atrair a atenção de funcionários públicos:
— "Atenção, mui nobres habitantes de Pinhel! Trago comigo a Relação Universal e Exaustiva de todas as Dívidas que o Reino não tenciona pagar na presente década!"
O efeito foi imediato. Argos, que estava a contar os pelos do rabo da vaca para ver se batiam certo com o inventário da véspera, ergueu a cabeça. O seu interesse pelos processos não pagos era quase erótico. Os cem primos, das janelas e dos becos, inclinaram-se para a frente. Em Pinhel, a dívida era a única coisa que circulava mais depressa do que o vinho.
Mercúrio subiu para cima de uma barrica, mesmo em frente ao Pelourinho, e abriu um pergaminho que parecia não ter fim. O papel desenrolou-se pelas escadas, atravessou a praça e foi parar à porta da Igreja da Misericórdia.
— "Capítulo Primeiro!" — entoou Mercúrio com uma voz monótona, desprovida de qualquer emoção, como se estivesse a ler a genealogia de uma pedra de granito. — "Das dívidas contraídas para o pagamento dos impostos sobre os impostos anteriormente cobrados e nunca recebidos por falta de selo na província da Beira."
Mercúrio começou a ler. A sua voz tinha uma propriedade hipnótica, uma frequência sonora que parecia sintonizar-se com a alma cansada de quem vive para preencher formulários. Leu as alíneas sobre a taxação das sombras em dias de nevoeiro; as cláusulas sobre o imposto de "passagem de gado com pensamento impuro"; e as notas de rodapé sobre a propriedade jurídica de cada grão de areia que entrava nos sapatos do Governador.
Ao fim da segunda hora de leitura, o Primo Manuel, que não dormia desde a Restauração, sentiu as pálpebras como se fossem portas de ferro. Tentou lutar, mas a melopeia de Mercúrio sobre "a depreciação do valor do centeio em função do humor do sacristão" foi o golpe de misericórdia. Manuel ressonou.
Ao fim da quarta hora, a rede de vigilância estava em colapso. O Primo Joaquim, o do ouvido apurado, tinha a cabeça encostada à parede, sonhando com um mundo onde não existissem vogais. A Prima Gertrudes, na sua janela, via agora os pergaminhos como se fossem ovelhas, saltando cercas de impostos, e acabou por se entregar aos braços de Morfeu.
Argos resistia. O seu amor pelo papel era profundo. Mas quando Mercúrio chegou à Cláusula 457.ª, Secção B, Alínea C, que explicava a diferença legal entre um "múmio" e um "mugido" para efeitos de herança colateral, o Escrivão sentiu o seu cérebro a transformar-se em serradura. Os seus cem olhos simbólicos fecharam-se num uníssono épico. O silêncio da praça era apenas interrompido pelo som rítmico da leitura de Mercúrio, que agora lia apenas para as pedras.
Aproveitando o transe burocrático, Mercúrio fez um sinal discreto à Iolanda-vaca. Com um movimento que misturava a rapidez divina com o oportunismo de um gatuno de feira, o mensageiro sacou das chaves que pendiam do cinto de Argos — chaves que ele removera sem que o Escrivão desse conta, tal era o peso da leitura das dívidas.
— "Vem, Iolanda," — sussurrou Mercúrio, interrompendo a leitura por um breve segundo. — "O teu destino não é ser pasto de arquivista."
Iolanda, que já tinha o estômago revolvido de tanto ler (com a língua) os decretos municipais, não hesitou. Com uma leveza que desmentia os seus quatrocentos quilos de carne barrosã, saltou as correntes do Pelourinho. Mercúrio entregou-lhe uma guia de marcha forjada, carimbada com o selo falso de um bispo inexistente, que lhe garantia "livre trânsito em nome da santidade bovina".
A vaca atravessou a praça na ponta dos cascos, passando por cima do corpo adormecido do Primo Manuel. Júpiter, saindo finalmente do seu barril de vinho, acompanhou-os na retaguarda, transformado agora num simples pastor de ovelhas para não levantar suspeitas no caso de algum primo de Argos acordar com um espasmo de dever.
Enquanto se afastavam pelas Portas de Marialva, Mercúrio ainda entoava, à distância, para o silêncio da vila adormecida:
— "E assim se conclui o apêndice sobre o direito de preferência na compra de ferraduras usadas para cavalos de correio..."
Pinhel ficava para trás, derrotada pela sua própria arma. O empecilho da burocracia tinha-se virado contra o mestre. Mas no horizonte, um brilho metálico e o som de um grasnar enfurecido indicavam que a Inquisidora Juno não tinha adormecido. Ela não lia dívidas; ela cobrava-as com fogo. A perseguição final estava prestes a começar nas encostas escarpadas do Côa.
A fuga de Pinhel foi um prodígio de leveza bovina. Sob o luar de prata que banhava o planalto beirão, a Iolanda-vaca galopava com uma agilidade que desafiava as leis da anatomia e as expectativas dos talhantes. Ao seu lado, Mercúrio e Júpiter — agora disfarçados de dois almocreves que transportavam queijos de duvidosa procedência — apressavam o passo. Contudo, o silêncio da noite foi subitamente rasgado por um som que gelava o sangue de qualquer cristão: o bater metálico de uma sineta de cobrador e o grasnar estridente do pavão inquisitorial de Juno.
A deusa-esposa não fora afetada pela melopeia das dívidas de Mercúrio. Como toda a boa autoridade fiscal, Juno possuía uma imunidade biológica ao tédio burocrático. Ao dar-se conta de que o seu "corpo de delito" tinha escapado, não lançou sobre ela uma praga de gafanhotos ou uma chuva de rãs. Em vez disso, invocou a arma mais terrível do arsenal administrativo do século XVII: o Moscardo das Finanças.
Este "inseto" não era uma criatura da natureza, mas um oficial da Fazenda Real, um homem de pernas tão finas como estiletes e um nariz pontiagudo que parecia desenhado para detetar moedas escondidas em colchões de palha. O Moscardo não voava com asas, mas com o impulso de uma obsessão: a cobrança do Selo de Transação de Metamorfose.
— "Parai em nome da Coroa!" — gritava o Moscardo, enquanto perseguia Iolanda pelas encostas escarpadas que desciam para o rio Côa. — "Falta o selo! Falta o selo da mudança de estado! Não se pode ser vaca na segunda-feira e donzela no domingo sem o devido averbamento notarial e o pagamento da taxa de ocupação de espaço bovino!"
Iolanda sentia o zumbido do Moscardo nos seus cornos monumentais. O oficial da fazenda não tentava prendê-la; ele tentava apenas colar-lhe um selo fiscal no lombo. Era um tormento psicológico. Onde quer que a vaca se escondesse — fosse entre os carvalhos centenários ou nas sombras das fragas graníticas —, o Moscardo aparecia, brandindo um tinteiro e um carimbo de ferro quente.
— "Este é o verdadeiro aborrecimento," — bufava Júpiter, tentando manter o disfarce enquanto saltava sobre um regato. — "Posso derrotar Titãs, posso encadear o Destino, mas não sei como preencher uma guia de trânsito para uma ex-amante transformada em gado barrosão numa zona de guerra fronteiriça."
A perseguição atravessou as Terras de Ribacôa, passando por Almeida e Castelo Rodrigo. Por onde Iolanda passava, a sua beleza bovina causava comoção. Os camponeses, ao vê-la passar com o Moscardo no encalço, benziam-se:
— "Lá vai a Vaca da Justiça!" — diziam uns.
— "Não, é a Vaca da Dívida Exequenda!" — retificavam outros, fechando as portas a sete chaves para evitar que o oficial das finanças decidisse taxar as suas próprias galinhas por solidariedade.
Finalmente, a comitiva divina chegou às margens do grande rio, o Douro, que no século XVII servia de fronteira entre o juízo e a loucura. Juno, montada no seu pavão de gola de renda, observava do alto de uma crista rochosa. Ela não queria a morte de Io; queria a sua rendição documental. Queria que o adultério de Júpiter ficasse registado para a eternidade nos arquivos da Torre do Tombo, com selos, assinaturas e testemunhos dos cem primos de Argos.
Foi então que Júpiter, vendo que a sua amada estava à beira de um esgotamento nervoso (que nas vacas se manifesta por uma recusa obstinada em ruminar), decidiu jogar a sua última cartada. O deus parou, ergueu o seu cajado de almocreve e, num lampejo que fez estremecer as fundações do Castelo de Pinhel, retomou por um breve segundo a sua forma olímpica.
— "Basta!" — trovejou Júpiter. — "Se este reino exige papel, papel terá!"
Com um gesto largo, transformou todas as folhas das árvores do vale do Douro em procurações em branco. O Moscardo das Finanças, ao ver tal abundância de material administrativo, entrou num frenesim de felicidade burocrática. Atirou-se às folhas, tentando carimbá-las todas ao mesmo tempo, esquecendo a perseguição para se dedicar à organização de um arquivo vegetal infinito.
Aproveitando a distração fiscal, Iolanda mergulhou nas águas do rio. Enquanto nadava para a outra margem, a magia de Júpiter — agora longe dos olhos dos cem primos de Argos e do carimbo do Moscardo — começou finalmente a desvanecer-se. Os cornos em espiral transformaram-se novamente nas sobrancelhas grossas de Iolanda; a pelagem loira tornou-se na pele de seda da donzela; e o mugido deu lugar a um suspiro de alívio em português beirão.
Diz a lenda, sussurrada até hoje nas tabernas de Pinhel, que Iolanda nunca mais regressou à vila. Alguns dizem que fugiu para o Egito, onde as vacas eram tratadas como deusas e os cobradores de impostos eram devorados por crocodilos (uma solução considerada muito mais eficiente que o sistema jurídico português). Outros afirmam que se tornou uma mística que pregava contra o uso de papel selado.
Em Pinhel, a memória do evento permaneceu gravada no granito. O Governador D. Rodrigo de Figueiredo nunca recuperou da gota, convencido de que o nevoeiro fora uma alucinação provocada pelo excesso de vinho de Figueira de Castelo Rodrigo. Argos, o Escrivão, passou o resto da vida a tentar encontrar o "Processo da Vaca Fugitiva", mas os seus cem primos, marcados pelo sono profundo da Melopeia das Dívidas, tornaram-se preguiçosos e hoje apenas se manifestam na forma de estátuas de pavão ou de funcionários que dizem "volte amanhã".
Quanto a Juno, diz-se que ainda hoje, em noites de trovoada sobre a Beira Alta, se ouve o grasnar do seu pavão. Ela vigia, não o marido, mas as declarações de rendimentos. E Júpiter? Esse aprendeu a lição. Da próxima vez que se apaixonasse por uma donzela de Pinhel, não se transformaria em nevoeiro nem em animal. Transformar-se-ia num alvará de isenção de impostos, a única forma garantida de seduzir qualquer alma naquelas terras sem ser perseguido por ninguém.
E assim se encerra o conto do Enxeco de Pinhel, onde se provou que, nem mesmo os deuses do Olimpo, com todos os seus raios e trovões, são páreo para a paciência de um escrivão com cem primos e a persistência de um cobrador de selos na Beira do século XVII.













