Acho que por isso sentimos tanta falta de ser criança, porque talvez na verdade, nunca tenhamos deixamos de ser. Só nos cobrimos com um monte de coisa chata da vida adulta.

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Acho que por isso sentimos tanta falta de ser criança, porque talvez na verdade, nunca tenhamos deixamos de ser. Só nos cobrimos com um monte de coisa chata da vida adulta.

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Existe algo poético no jeito que algumas pessoas desaparecem por dentro antes de ir embora. scroll-all
tô falando de um dia cheio. talvez não exatamente cheio, mas lotado de nuances e sei lá exatamente pelo quê, mas minha cabeça rodou um pouco. rodou, rodou e olhou pra dentro. uma espécie de combustão de todos os pensamemtos que ficaram flutuantes nos últimos tempos me invadiram. emotiva, acho que não restaram tantas muitas opções a não ser derreter. deixar lavar o que tinha pra ser lavado e constatar que eu já não me encontro mais em mim tem um tempo. essa coisa de mudança nunca foi muito o meu forte, mas eu realmente pedi pra que tudo fosse diferente. com o meu pedido, tudo foi tomando o seu novo devido lugar — um lugar que muitas vezes eu desconhecia ou só não pensava muito sobre. mas abri um portal aparentemente mágico das transformações relâmpago: e descobri que cada milésimo de segundo conta quando o que gente mais quer é contar uma outra história. mas tem que querer com gosto, com sabor de exagero. me fez lembrar que Clarice Lispector dizia que se errasse, que fosse por muito, por amar demais, por se entregar demais, por ter tentado ser feliz demais.. e eu quando lia essas coisas achava linda essa vontade latente e permanente de SER com vontade o que a gente SENTE que ainda pode ser — sendo pelo que é certo, errado, inocente ou culpado, frágil ou perigoso. ser para todos os efeitos e de todas as formas mas ser. e encarar os muitos riscos em torno disso: em ser mal vista, mal encarada, mal educada, mal interpretada.. afinal, não se pode ter tudo. mas ser tudo que der pra ser, isso pode.
mas perceber esse universo novo, esse querer e essa certeza de poder ser tanto, tem me feito ficar emotiva com o quanto essa mesma vida já deixou de ser ela há segundos atrás. o quanto lidar com tudo que não era eu, dentro do meu eu é um desafio que me coloca à prova todos os dias. e quebrar, o tempo inteiro, o vício de voltar a ser o que já não consigo mais.
As pessoas dizem que eu sou bom, mas não consigo acreditar nisso.
já que a vida é feita de passagens e passageiros e se eu ganhasse ainda agora uma lâmpada mágica de desejos impensáveis, acho que num deles me arriscaria em pedir que eu fosse capaz de deixar naturalmente uma marca simbólica nas pessoas. engraçado que sinto muito forte a não urgência de ser lembrada aos berros e nem mesmo que me falem nada sobre isso, mas sabe, poucas coisas me preenchem mais a vida do que ser lembrada nas pequenas coisas. daquelas que numa música que toca aleatoriamente, podem ser automaticamente associadas. ou uma mania. um vício bobo de linguagem. acho que talvez seja essa a forma mais bonita e genuína de se tornar imortal. ficar vivo nas coisas pequenas, nas coisas simples mas também fundamentais. pensar que em algum lugar do mundo, alguém que esteja vivendo sua vida habitualmente normal, talvez cruze os olhos com algo que faça pensar no quanto eu existi e me preenchi de mim mesmo no curto espaço de tempo em que a fiz conhecer aquele algo que tanto tem a dizer sobre quem sou e o que amo. é assim que vejo o amor mesmo nas muitas vezes em que não o digo. é dessa forma, justamente desta, que mantenho as pessoas e os momentos sempre presos e amarrados ao que quero levar comigo pro resto da vida até o depois. a melancolia talvez explique essa minha vontade tão absurda de lembrar e nunca esquecer. mas é ela quem também me salva sempre da ideia de que a vida seja "só isso mesmo" mesmo quando tudo me prova o contrário. A vida não é só isso mesmo quando sinto a sensação de pertencimento ao me reconhecer na lembrança de alguém. não é só isso mesmo quando me invade também a certeza de saudade mesmo antes dos momentos terminarem. não é só isso quando alguém me chama do nada pra dizer ouviu alguma coisa que fez pensar em algo que eu já disse. A vida é mais e vale mais quando a gente sente que também existe fora da gente.

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meio estranho, meio engraçado essa coisa de sentir ser outra pessoa. sentir é meio complexo. mas é também uma liberdade ímpar de se colocar na bala por coisas que não são muito bem definidas dentro de você. basta uma única condição dos extremos e você vaza sentimentos que estavam armazenados no fundo, com efervescência e redescobrindo quanto de você estava escondida por alguma parte que você sequer sabia como começar a procurar. sentir é complexo porque te tira do eixo. e durante muito tempo, pensar em "organizar a casa" soa um pouco como limpar o galpão inteiro dos seus sentimentos, alocando cada um deles num armário de portas muito bem fechadas. mas tudo no mundo é sempre bem mais do que isso, inclusive bem mais imprevisível que tudo isso. em questão de segundos, de poucas mensagens, uma vida aparentemente vazia pode simplesmente se tornar cheia ou aparentemente completa. as experiências, as pessoas que ocasionalmente são colocadas para dentro dessa sua experiência maluca que é viver e se deixar impregnar pelo gosto de ser tocado por aquilo que não se pode tocar. já parou pra reparar no quão forte um sentimento se define? porque você sequer precisa do toque. precisa apenas e unicamente se entregar a experiência de deixar que entrem no seu caminho deixando contigo uma versão delas que talvez só você tenha. ser presenteado com a exclusividade de cada ser que passa pela nossa existência, é um milagre que quase nunca nos lembramos de agradecer e nem de reparar no quanto a vida acaba se regendo por este movimento — o de se entregar para as pessoas ao ponto de reconhecer que você só aprende dividindo e só multiplica, se doando.
Não tem para onde fugir, mamãe, porque aonde quer que eu vá, eu estou.
Certa vez me perguntaram o porquê eu escrevia. Eu fiquei em silêncio, não sabia o que dizer, mas depois pensei: escrevo para me salvar de alguma coisa, consequentemente salvo quem me lê. Ou morremos juntos, nunca se sabe. Passei a escrever o que sinto. Isso não significa que publico tudo, ou que tudo vira texto. Alguns ficam sendo pequenas anotações, frases, rabiscos soltos, rascunhos em guardanapo ou na caderneta sem pauta; outros viram textos um pouco mais elaborados; outros eu mostro para todo mundo; alguns outros, para ninguém, depois até deleto, finjo que nunca escrevi; uns são dedicados a um alguém especial, que depois se torna não-especial; outros, não dedico a ninguém senão a mim mesma.
Cami.