Signos de gĂȘnero, passabilidades e um pouco de materialidade
ATENĂĂO: NĂŁo pretendo, nesse texto, ou em textos meus futuros, falar sobre os problemas que o gĂȘnero mulher encontra na sociedade, por performarem esse gĂȘnero (mas pretendo apontar alguns privilĂ©gios e algumas opressĂ”es pertinentes ao texto), para isso indico que procurem textos blogs e mulheres feministas ou transfeministas para conversar, elas tem todo protagonismo para falar do assunto, porĂ©m se esse texto contiver algo que seja sensĂvel Ă s mulheres, coloco o espaço aberto para publicar qualquer texto de sua autoria, no intuito de completar ou alterar o que eu escrever aqui para que contemple suas demandas, desde que nĂŁo seja homofĂłbico, lesbofĂłbico ou transfĂłbico. Obrigado pela atenção.
Para as pessoas binĂĄrias expressar seu gĂȘnero Ă© simples, visto que gĂȘnero Ă© uma construção social, e, portanto, possui signos criados para facilitar o reconhecimento do gĂȘnero imposto a uma pessoa. Esses signos podem ser materiais (roupas, acessĂłrios, cortes de cabelo, dentre outros) e imateriais (jeitos e trejeitos, formas de falar, expressĂ”es linguĂsticas, interaçÔes inter-pessoais, e interaçÔes pessoal-comunidade), e sociais (empregos e esportes ditos de homem ou mulher) ou seja, as pessoas sabem como expressar gĂȘneros binĂĄrios de forma que seu cĂrculo social entenda.
Os signos de gĂȘnero sĂŁo usados para vĂĄrios fins, como por exemplo: facilita que os homens cis heterossexuais encontrem parceiras sexuais viĂĄveis no meio da multidĂŁo (muitas vezes sem seu consentimento); assim como facilita que mulheres sejam encontradas como alvo objetivo do machismo, ou que homens sejam reconhecidos como alvo privilegiado do patriarcado. Mas tambĂ©m facilita que as pessoas cisgĂȘneras expressem seus gĂȘneros, ao usar roupas, acessĂłrios ou ainda que performem seu gĂȘnero de forma que a sociedade os entenda como eles se entendem: Homens e Mulheres ( mesmo que esse entendimento tenha inicialmente sendo imposto)
Dois simples testes mentais:
1) Imaginem um Homem âpadrĂŁoâ. Escreva num papel como ele Ă©.
2) Imaginem uma mulher âpadrĂŁoâ. Escreva num papel como ela Ă©.
Conscientemente ou inconscientemente conseguimos perfeitamente construir um homem e uma mulher, ou identificar um homem ou mulher nas imagens. Isso se dĂĄ por causa desses signos, esses marcadores que foram tocados anteriormente.
Esses signos em conjunto nĂŁo fazem de forma alguma o gĂȘnero de uma pessoa, mas fazem parte de como ela expressa esse gĂȘnero. Sabemos muito bem que as pessoas sĂŁo diferentes, e a escolha desses marcadores em diferentes graus de intensidade, e variedade de subtipos cria a diversidade de expressĂ”es de gĂȘnero que sĂŁo conhecidas e que tornam, tambĂ©m, um homem diferente do outro, e uma mulher diferente da outra. Contudo, Ă© vedado a um homem o uso de signos de mulher e Ă mulher o uso de signos de homem, com poucas exceçÔes, que podem ser de ordem pessoal ou de ordem do signo a ser partilhado entre os gĂȘneros, aqui podemos exemplificar como um homem de cabelo comprido, uma mulher de cabelo curto, ou ainda avanços das liberdades pessoais das mulheres ao usar roupas anteriormente exclusivas masculinas, como calças.
Isso tudo Ă© relacionado Ă expressĂŁo de gĂȘnero e a jeitos e trejeitos de uma cultura cisnormativa e heteronormativa dominante na sociedade.
Um homem amando outro homem? Nojo.
Uma pessoa que nasceu com vagina âquer serâ homem? Pecado!
Uma pessoa que nasceu com pĂȘnis âquer serâ mulher? Prende!
Uma pessoa que se diz nem homem nem mulher, ou os dois? NĂŁo faz sentido!
Vivemos numa sociedade em que homossexuais, bissexuais, transgĂȘneros e travestis sĂŁo oprimidos e reprimidos. Desde seus desejos atĂ© seus jeitos, trejeitos e expressĂ”es de gĂȘnero. Tudo que Ă© relacionado a essas pessoas Ă© historicamente empurrado para a sujeira, pecado, loucura e crime.
Essas pessoas tem que viver, majoritariamente, tendo que esconder, dissimular e internalizar tudo o que se refere a sua sexualidade e gĂȘnero. E sĂŁo forçadas exaustivamente a adotar os signos acima. Ou seja, essas pessoas sĂŁo obrigadas a desenvolver uma passabilidade hetero-cis.
Quando dizemos que uma pessoa estĂĄ no armĂĄrio, significa que ela se faz passar por aquilo que ela nĂŁo Ă©. Uma pessoa homossexual ou bissexual que se faz passar por hetero ou uma pessoa trans que se faz passar por cis.
NĂłs. NĂŁo. Podemos. Medir. a. Dor. De. Uma. Pessoa. No. ArmĂĄrio.
NĂłs nĂŁo sabemos o que ela estĂĄ sofrendo, nĂŁo sabemos sua histĂłria, nĂŁo sabemos sua vivĂȘncia.
Se passar por hetero e cis pode vir acompanhado de inĂșmeros privilĂ©gios, amplamente discutidos e apresentados em muitos outros textos na internet, mas estar nesse armĂĄrio nĂŁo Ă© um privilĂ©gio, Ă© uma agressĂŁo.
A pessoa pode estar no armĂĄrio por tantos motivos, um mais terrĂvel do que o outro, que podem ir de medo da reação da famĂlia e amigos, atĂ© mesmo ameaças contra a vida.
Impedir que uma pessoa tenha passabilidade hetero, ou passabilidade cis, Ă©, no pior dos casos, atentar contra a vida da pessoa.
No melhor dos casos, Ă© dizer a uma mulher que ela parece um homem, ou a um homem que ele parece uma mulher. Ou jogar na cara de um nĂŁo-binĂĄrio que ele nĂŁo performa seu gĂȘnero corretamente, ou seja, dizer que a pessoa continua parecendo o gĂȘnero do qual ela se afasta com algum motivo.
AtĂ© mesmo para pessoas transgĂȘneras binĂĄrias esse termo Ă© ruim, pessoas trans que 'exageram' na feminilidade e/ou masculinidade por razĂ”es de segurança sĂŁo acusadas de ser instrumentos/agentes do patriarcado, e pessoas trans que nĂŁo praticam a masculinidade e/ou feminilidade por qualquer razĂŁo, aqui inclui-se nĂŁo propagar imposição de signos de gĂȘnero, sĂŁo acusadas serem "falsas pessoas trans".Â
Temos que lembrar que nĂŁo sabemos o sofrimento alheio, e o quanto uma pessoa ser entendida do gĂȘnero que ela Ă©, Ă© importante, ela usando ou nĂŁo o que a sociedade entende como sendo marcadores de gĂȘnero.
Em qualquer dos casos, exigir uma passabilidade, ou impedir uma passabilidade, Ă© problemĂĄtico, por isso, esse assunto nĂŁo deveria ser usado como arma contra uma pessoa.
A passabilidade de gĂȘnero Ă© uma forma vĂĄlida das pessoas trans binĂĄrias forçarem a sociedade as entender em seu gĂȘnero, mas ela nĂŁo Ă© de forma alguma obrigatĂłria!
A passabilidade de gĂȘnero em uma pessoa nĂŁo binĂĄria nĂŁo invalida seu gĂȘnero nĂŁo binĂĄrio! (AtĂ© porque com o apagamento histĂłrico desses gĂȘneros, nĂŁo se tem uma cultura nĂŁo binĂĄria forte que consiga informar como expressar esses gĂȘneros)
A leitura que a sociedade faz de uma pessoa, a não ser que seja forçada pelo desejo da própria pessoa, não deve ser utilizada como régua para medir até onde ela pode ir, o que ela pode ser ou não ser.
Contudo, algumas ressalvas podem ser feitas.
Os movimentos organizados, e os militantes, simplesmente nĂŁo podem ignorar a materialidade, pois a materialidade Ă© usada constantemente contra as pessoas, para subjugar e controlar. AlĂ©m disso, a materialidade Ă©, atualmente, a Ășnica forma de fazer a sociedade ler as pessoas em seus gĂȘneros, incluindo, e alĂ©m, dos jĂĄ falados gĂȘneros impostos, e isso Ă© importantĂssimo, para ressignificar o que Ă© ser homem e mulher. A mulher que sente orgulho de ser mulher mesmo com toda opressĂŁo Ă© uma protagonista extremamente empoderara na luta contra o machismo, da mesma forma que um gay orgulhoso de sua sexualidade Ă© para a homofobia, e uma travesti orgulhosa de seu gĂȘnero Ă© para a transfobia.
A materialidade da sociedade precisa ser usada a favor dos oprimidos, e nĂŁo devemos deixar mais ela ser usada contra essas pessoas, sem que isso impeça que as pessoas abandonem seus gĂȘneros impostos e assumam livremente seus gĂȘneros.
As pessoas devem ter em mente sua leitura de gĂȘnero quando pautarem sua militĂąncia, por exemplo, uma pessoa que foi imposta o gĂȘnero homem quando nasceu, que se assumiu pessoa nĂŁo binĂĄria, mas que permanece predominantemente no espectro masculino quando de sua expressĂŁo de gĂȘnero e sua consequente leitura, essa pessoa nĂŁo foi e nĂŁo Ă© alvo objetivo do machismo, mesmo se assumindo pessoa trans, portanto nĂŁo deveria tentar se incluir em movimentos que lutam contra o machismo, como protagonista, mas sim como aliado.