O que fazer da vida
NĂŁo tinha nem 10 anos de idade e era invadida por uma excitação boa a cada vez que alguĂ©m me perguntava o que eu queria ser quando crescesse. Yeah! Estava confirmado que eu iria mesmo crescer, nĂŁo era apenas uma hipĂłtese fantasiosa. Eu entĂŁo respondia: quero ser aeromoça! Se me acusassem de estar com a cabeça nas nuvens, eu aterrissava: entĂŁo quero ser chacrete! NĂŁo importava se o desejo se cumpriria, eu simplesmente idealizava um futuro associado a coisas de que eu gostava, logo, me imaginava cantora, guitarrista (passava os dias ouvindo Suzi Quatro), balconista de supermercado (nas brincadeiras, sempre escolhia atender no caixa), tenista (o esporte da famĂlia), psicĂłloga.
Mentira, eu nem sabia o que fazia uma psicĂłloga. SĂł tinha certeza de que jamais seria mĂ©dica de nenĂȘ. Queria me livrar do universo infantil e entrar logo no mundo adulto, que me parecia muito mais divertido.
AtĂ© o dia que tive que encarar o vestibular sem ter a mĂnima ideia de qual curso escolher. Acabei optando pela Publicidade porque uma amiga iria fazer tambĂ©m. JĂĄ que eu gostava muito de arte, de criatividade, de escrever, quem sabe nĂŁo dava pĂ©? Deu. E ninguĂ©m mais perguntou o que eu queria ser quando crescesse porque, afinal, eu havia crescido. E crescia junto a minha angĂșstia, pois agora a pergunta era diferente: o que vocĂȘ vai fazer da sua vida?
Esta Ă© uma questĂŁo que nĂŁo abre os portais da imaginação, nĂŁo induz ao sonho, ao contrĂĄrio, procura nos enquadrar em algo que ofereça um firme suporte existencial. âO que vocĂȘ vai fazer da sua vida?â Ă©, antes de uma pergunta, um julgamento sumĂĄrio, uma crĂtica: o que vocĂȘ vai fazer da sua vida alĂ©m de ficar perambulando pelas noites de sĂĄbado, alĂ©m de programar feriados em Garopaba, alĂ©m de namorar, alĂ©m de fazer estĂĄgio nĂŁo remunerado, alĂ©m de juntar dĂłlares para viajar, alĂ©m de passar as tardes trancafiada no quarto ouvindo mĂșsica, alĂ©m de ficar com a cara enterrada em livros de poesia? Nada disso significava fazer alguma coisa da vida, ao menos nĂŁo da vida que os outros esperavam que vocĂȘ tivesse, e vocĂȘ tambĂ©m esperaria, se soubesse lidar com assunto tĂŁo complexo. NĂŁo sabendo, tocou em frente, porque quem aguarda uma resposta absoluta nĂŁo faz nada.
EntĂŁo vocĂȘ trabalhou, casou, teve filhos, trabalhou, separou, casou de novo, trabalhou, viajou, voltou, trabalhou, envelheceu, trabalhou, viajou, voltou, trabalhou e o final ainda estĂĄ em aberto.
O que vocĂȘ faz da sua vida? A mesma coisa que todos, provavelmente. Ocupa o tempo enquanto ainda se diverte sonhando com o que quer ser quando crescer.
Por: Martha Medeiros. Revista Donna 24-07-2016 Ă s 08h00












