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Ana Gabriela · BASEADO EM FATOS REAIS (deluxe) · Song · 2026
O pouco que ainda resta em mim de quem um dia fui parece querer ficar, como se fosse a única forma de não te apagar de vez do que ainda sobra na minha memória.
Essa noite, você voltou a habitar meus sonhos, como quem nunca partiu de verdade. Fazia tempo… e ainda assim, foi como se o tempo não tivesse passado.
Acordei com o peito cheio de ecos seus, desorientada, perdida entre o que sinto, o que lembro e o que já não deveria mais existir. É estranho… sentir tanto sem saber exatamente de onde vem, ou por que insiste em ficar.
Nós sempre fomos assim: complexas, intensas, quase indizíveis. Uma mistura de silêncio e tempestade, de presença e ausência que nunca soube terminar.
E o que mais me assusta é isso, você ainda vive em mim. Não como é hoje, mas como fomos… como se minha memória se recusasse a aceitar o fim e insistisse em reviver o que já não existe.
É desesperador carregar alguém assim por dentro, alguém que já se foi, mas que nunca, de fato, saiu de mim.

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Será que o meu maior problema sempre foi ser fiel? Talvez, à primeira vista, isso nem pareça um problema. Afinal, ser fiel é uma virtude. Mas ninguém fala sobre o peso que a fidelidade carrega quando ela se espalha por todos os lados, menos para dentro de si.
Eu sou fiel a mim, ou pelo menos tento ser. Fiel aos meus princípios, às minhas promessas silenciosas, à imagem que construí de quem eu deveria ser. Sou fiel às minhas amizades, aos laços que cultivo com cuidado, ao medo de decepcionar, à necessidade quase urgente de estar presente, de ser apoio, de ser porto seguro.
Sou fiel aos meus desejos, mas também aos desejos de todos ao meu redor. E é aí que começa o conflito. Porque, no esforço de não falhar com ninguém, eu acabo me dividindo em pedaços. Tento atender expectativas, preservar sentimentos, manter equilíbrios que nem sempre dependem só de mim. E, nessa tentativa constante de ser leal a tudo e a todos, às vezes me pergunto: onde eu fico?
Ser fiel dói quando significa abrir mão. Dói quando meus próprios desejos entram em confronto com os de quem eu amo. Dói quando preciso escolher entre decepcionar alguém ou me decepcionar.
Meu maior problema é querer honrar todos os compromissos, inclusive os que ninguém me pediu para assumir. É carregar responsabilidades emocionais que talvez nem sejam minhas. É acreditar que amar e ser leal significa sempre ceder.
Mas talvez a verdadeira fidelidade comece diferente. Talvez ela comece quando eu entender que ser fiel a mim não é egoísmo, é base. Que não posso sustentar ninguém se eu mesma estiver em ruínas. Que não é traição escolher a minha paz.
Talvez meu maior problema não seja ser fiel. Talvez seja ainda estar aprendendo a direcionar essa fidelidade para o lugar certo.
Jaula vazia
Me cansa o esforço constante de me direcionar. Sempre foi assim. Sempre estive nesse lugar de “tudo bem, eu converso”, “eu chamo”, “eu peço desculpa”, “eu quero saber como você está”.
E, sendo honesta, isso é natural em mim. Convidar amigos que se afastaram para um jantar despretensioso. Perguntar a alguém com quem não falo há tempos se está bem. Tentar entender, ver se algo pode ser melhorado. Às vezes soa até ridículo.
Já ouvi muitas vezes: “você é o tipo de pessoa que não deixa as coisas irem embora.” Mas o que eu realmente acho é outra coisa.
Eu sou o tipo de pessoa que joga até a última carta do baralho. Que não desiste fácil do jogo que é uma relação. Que tenta não perder o que existe, ou o que existiu. Que faz questão de mostrar que se importa. Que acredita que, por mim, a gente se acolhe, se escuta, se ajuda.
Talvez isso venha do fato de eu sempre ter me sentido sozinha. Rodeada de muitos, mas acolhida por pouquíssimos.
O que exaure é perceber que, na maioria das vezes, eu estou alimentando uma jaula que já está vazia de mim há muito tempo.
PS: Mas o dia que eu deixo ir, realmente vai.
Às vezes ainda sinto o cheiro que sua pele deixava em mim, como se o corpo lembrasse antes da mente. A textura da sua boca insiste na memória, e no silêncio, e as vezes, ainda ecoa no meu ouvido o som da sua respiração.