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Bières artisanales Nortada, Lisbonne, juillet 2019.
cold cold sea
finally went to the photo lab to pick up the film roll from the beach trip!!!
Dizem que não vai haver Sardines nos próximos 15 anos ☺ e os Santos? #cenastugas #sardinhas #afurada #nortada #relax

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Bonacheilândia - por Nuno Ramalho
Um dos críticos do jornal The Guardian publicou recentemente um artigo sobre uma exposição que reúne trabalhos do inglês Francis Bacon e de alguns vultos maiores da arte: Ticiano, Rodin, Picasso, Velasquez, Rembrandt, Miguel Ângelo -- you name it, estão lá todos.
Conclusão do autor do artigo: Bacon, cromo maior da arte inglesa do século XX, esses cem anos aparentemente tão mórbidos e perversos quanto ele, figura imensa que vende imensos posters e postais e doses avulsas de existencialismo e densidade humana, sai diminuído face à genialidade dos outros, para sempre gigantes inalcançáveis.
(Conclusão do autor desta nota, que não viu a tal exposição em causa, “Bacon and the Masters”: Bacon gostava mesmo de gajos, é uma verdadeira orgia de egos e génios – muito naturalmente, tão naturalmente que nem pensamos muito nisso, é só pilas. E mais pilas. Gajas, nem vê-las. Perspectivas de análise sobre isso, sobre a perpetuação disso? Tá quieto.)
Para lá do juízo que o crítico, ele próprio pila entre pilas, estabelece sobre a forma como irá passar a olhar para a obra de Bacon, agora revista à luz do seu atrofio face aos maiores, impressiona o à vontade com que se toca numa vaca sagrada cultural. (É impossível resistir: frita-se o Bacon, portanto.) Será este despudor um traço britânico? Anglo-saxónico? Protestante? Ou simplesmente um tom característico deste indivíduo em particular, quem sabe se justificado pela procura de cliques (diz que dão dinheiro) em torno de um artigo ‘polémico’?
E nós por cá, cascamos em vultos?
Não. Abertamente, falamos sobre a Joana Vasconcelos.
Porque é pirosa, excessiva, básica, popular, populista, porque tem mau gosto, porque não deve ler a e-flux de fio a pavio nem comprar as edições da semiotext(e) nem colecionar os inevitáveis livros de artista que se multiplicam como cogumelos.
E logo a seguir, porque é gorda, mal vestida, feia.
(Em última análise, por ser mulher? Aí este texto teria de ser outro, fica a sugestão para o prolongamento: continuamos a chafurdar na mesma merda sexista de sempre, tapando-se o sol com a peneira dos ‘altos cargos ocupados por mulheres’ e tal)
Ou então falamos bem daquilo que gostamos, carregando no acelerador dos adjectivos e qualificações .“O maior!”;”Grande!”; “Tremendo!””Fantástico!” “GENIAL!””Like!”.
Estou a simplificar; é o populista que há em mim.
Normalmente, quem escreve sobre os artistas tem bastante mais cuidado com o vocabulário. Afinal de contas, é aí que mostra o seu brilho. Ideias críticas ou outras a propósito das obras podem nem existir muitas; mas a monumentalidade da retórica e demonstrar que se domesticam as palavras e se possuem referências digníssimas, isso não pode faltar. É a versão Porsche amarelo dos textos sobre arte, suponho.
Enfim, lá vamos todos continuar a bater na Vasconcelos, que até se põe a jeito, porque lidar com outros artistas, projectos, momentos ou programações menos óbvios enquanto alvo mas potencialmente mais banais, corrosivos ou desinteressantes é um bocadito complicado. Mugir vacas sagradas requer mais células cinzentas massacradas e menos saliva gasta em má língua.
Assim de repente, há que contar com os cús presos nas redes estabelecidas, reflexo de outros fluxos em que estamos mergulhados: mais ou menos imperceptíveis e por isso mesmo absolutamente operacionais e efectivos. Sejam de relações de proximidade afectiva ou intelectual, de conceitos e linguagens em torno do momento ou do espaço que determinam, das discussões que lhes dão forma, dos agentes que se envolvem e promovem mutuamente, dos que produzem, dos que comentam, dos que vão às inaugurações, aparecem, estão presentes, formam círculos, se circulam, amplificam – as redes imperam, absolutas.
A rede ‘do que está a dar’ é a que tem maior visibilidade, o que corresponde a três, quatro estrelas para cima num jornal daqueles de referência, dos que contam para pontuação. Nessa economia do ‘positivismo’ cultural não entra o pensamento mais profundo e mais crítico, potencialmente mais dissonante, em torno da obra de determinado autor dito consensual. Também são só uns 100 caracteres, se tanto. Só entra a boa apreciação, polvilhada por um ou outro alerta eventual. Somos uma nação bonacheirona em toda a linha.
Eu ando mesmo muito desinformado, qual burro com palas de doutoramento no olhar, mas a verdade é que não me recordo de ter encontrado um comentário crítico, de consideração sobre as obras e os seus efeitos, em torno da criação do Julião Sarmento, ou do Fernando Calhau, ou da Paula Rego, ou da Leonor Antunes. Tipo um texto do António Guerreiro mas versão arty (não só umas linhas elegantes a ditar o que pensar, mas pôr a pensar com). Teria de ir averiguar isso com seriedade mas tenho outras coisas mais importantes para fazer, como por exemplo alguns trabalhos maus.
Isso. É que todos os artistas que conheço, todos sem excepção, produzem maus, péssimos trabalhos. Por vezes só sabem fazer assim, propositadamente ou não; ou então isso acontece episodicamente. E como se determina isso, de que tratam e o que são esses maus momentos? Mais importante ainda, qual o seu valor num percurso individual e num contexto colectivo?
Nesse ponto a discussão ramifica-se e procura outras tensões e complexidades e eu já escrevi que estou sem tempo, mas certo certo é que a coisa não se resolve certamente com unanimidades pusilânimes e sem mais conversa.
Eu já fiz coisas tenebrosas (imagine-se!!!), e acredito que farei muitas mais (ah pois é!!!). Se calhar tudo o que já fiz e farei enquanto artista (*faz cara de enjoado, revira os olhos, suspira fundo, continua a bater nas teclas*) é assim. Mas felizmente há mesmo quem esteja convencido, solenemente convencido, de que o que está a fazer enquanto artista é sempre a coisa mais imprescindível para que o mundo seja outro, ou seja este em versão upgrade. E há muitos que ajudam a suportar essa superstição.
Quem diz artistas, diz críticos ou comentadores, ou programadores ou comissários, aqueles que reflectem o seu próprio ego na defesa (ou pior, na permissividade) dessa criação/modelo de gestão de génio absoluto e inquestionável. Tipo, toda esta gente se torna indispensável por associação. Ninguém escapa a isto, ninguém está acima ou por baixo; quando muito está-se ao lado, o que é pequenino. Mesmo para génios.
Nuno Ramalho
O diálogo do passado com o presente na obra de Manoel de Oliveira - por Sara Castelo Branco