E lĂĄ vem vocĂȘ me olhar apaixonado e, no segundo seguinte, frio. E me falar para eu nĂŁo sofrer e para eu ir embora e para eu nĂŁo esperar nada e para eu nĂŁo desistir de vocĂȘ. E eu me digo que nĂŁo Ă© vocĂȘ. Porque, se fosse, meu sono seria paz e nĂŁo vontade de morrer.
Me despeço, jĂĄ sem aquela dor aterrorizante, das partes de vocĂȘ que mais amo. Ainda que eu nem te ame mesmo. E me despeço das partes da sua casa que eu mais amo. Ainda que nada disso seja amor. E entro no carro jĂĄ sem chorar. Os Ășltimos trĂȘs anos chorando por vocĂȘ serviram ao menos para me secar por dentro.
Preciso me aliviar. Mas dou atĂ© risada porque acabaram os caminhos. O mundo nĂŁo suporta mais esse meu nĂŁo amor por vocĂȘ. Meus amigos espalmam a mĂŁo na minha cara e jĂĄ vĂŁo logo adiantando que se eu pronunciar seu nome, eles vĂŁo embora sem nem olhar para trĂĄs. RemĂ©dios sĂł me deixam com um bocejo quĂmico e a boca do estĂŽmago triste, mas nĂŁo tiram vocĂȘ do meu coração. E escrever, que sempre foi a Ășnica coisa que adiantava para os dias passarem menos absurdos, jĂĄ se tornou algo ridĂculo. Escrever sobre vocĂȘ de novo? De novo? Tenho atĂ© vergonha. Nem eu suporto mais gostar de vocĂȘ. E olha que nem gosto.
Ă como se o mundo inteiro, os ventos, as ondas do mar, os terremotos, as criancinhas peladinhas brincando de construir castelinhos na areia , os carros correndo nas estradas, os cachorrinhos meditando nas gramas de todos os parques do mundo, a chuva, os cartazes de filmes, o passarinho que canta todo dia de manhĂŁ na minha janela, a torta de palmito na geladeira, a minha vizinha louca que briga com o gato na falta de um marido, um cara qualquer com quem eu dormi (e todos eles parecem qualquer quando nĂŁo sĂŁo vocĂȘ). Ă como se o mundo inteiro me dissesse: âhei, ninguĂ©m agĂŒenta mais esse assunto! Chega!â
E no meio da noite, quando eu decido que estou Ăłtima afinal de contas tenho uma vida incrĂvel e nem amava mesmo vocĂȘ, eu me lembro de umas coisas de mil anos e começo a amar vocĂȘ de um jeito que, infelizmente, nĂŁo se parece em nada com pouco amor e nĂŁo se parece em nada com algo prestes a acabar.
Lembro da primeira vez que eu te vi e te achei meio feio, vesgo, estranho. AtĂ© que vocĂȘ me suspendeu no ar por razĂŁo nenhuma eu tive certeza que meu filho nasceria um pouco feio, vesgo e estranho.
E entĂŁo, no meio da noite, enquanto eu penso tudo isso, eu pergunto ao mundo todo que nĂŁo agĂŒenta mais esse assunto. Ao mar, Ă s criancinhas peladas, aos cartazes de filmes, ao passarinho, Ă vizinha, aos cachorrinhos em meditação, Ă torta, aos carros, Ă qualquer um...eu pergunto: por que Ă© que vocĂȘs todos estĂŁo tĂŁo cinza? Por que Ă© que vocĂȘs nĂŁo me ajudam? Por que Ă© que todos vocĂȘs tambĂ©m ficam tĂŁo tristes quando ele vai embora? Por que Ă© que todos vocĂȘs tambĂ©m morrem quando ele vai embora?