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Olha a leitura!! #matemequandoquiser #editoragutenberg #autentica #anitadeak #livro #mortematada
4º
03 de Novembro 2011
Quinta-feira
12h26min
O homem parado à porta assistia ao noticiário que passava na televisão. Estava em horário de almoço na redação do Jornal, enquanto seus colegas de trabalho iam a algum restaurante de esquina para comer ele apenas tomava uma xícara de café da máquina antiga recém consertada. O aroma que deixava a xícara branca e invadia suas narinas o fazia fechar os olhos e querer senti-lo mais intensamente. Gostava sem açúcar para poder explorar ainda mais a substância, sem modificações. Ainda mais revigorante, assim como ele.
Exceto a ele, só havia um homem na redação naquele horário. Era Lucas, o novo estagiário. Lucas era absurdamente organizado o que irritava e tanto Simón que não sabia o que significava a palavra organização. Sua mesa era limpa e arrumada todo dia, os papéis nunca se misturavam. Era tudo perfeito e intacto. Porém, apesar de todas as diferenças Simón apreciava algumas qualidades de Lucas, principalmente sua dedicação — aquela que Perez não tinha — com o emprego.
Recentemente Lucas havia deixado de servir os cafezinhos e começara a sair da redação junto com Afonso para cobrir as reportagens menos importantes, aquelas que estão lá para a sexta página do jornal. Apesar de não ser devidamente reconhecido, Lucas era em disparada vezes melhor que o parceiro, mas Afonso já trabalhava ali há tantos anos que todos teimavam em achá-lo melhor que o outro.
Por enquanto, o loiro perto de ser formar era apenas considerado como a mascote da redação. O mais novo, mais simpático, mais extrovertido, mais feliz, menos preguiçoso. Estava sempre com um bom humor inatingível, nunca fora visto exaltado. Até agora.
A televisão estava ligada no canal local principal, como de costume. Simón já havia tentado fazer com que eles deixassem alguma música tocando, mas como jornalistas ávidos preferiam a noticia a música.
Ontem, um homem foi encontrado morto próximo a praça central. A polícia desconfia que o assassino tenha vindo de outra cidade, pois os casos que ocorreram nas proximidades possuem semelhanças que evidenciam um matador em série. O corpo da vitima ainda não foi identificado e a departamento de policia não revelou à mídia suas suspeitas, disse a mulher do noticiário. Os olhos de Simón piscaram e sua coluna ficou ereta em questão de segundos. Levantou uma das sobrancelhas na expressão perplexa que transparecia toda vez que se aborrecia com algo. Quem ousa... Quem ousa em sã consciência atentar contra a sua cidade?
O único homem que ainda estava na redação naquele horário em companhia de Perez deixou de digitar algum rascunho para comentar o ocorrido.
— Agora são dois.
Ajeitou os óculos, atônito.
— Mas essa cidade está um inferno mesmo.
Não, ainda não estava. O que aquela cidade passava agora não era nada comparado ao que Perez almejava fazer. Só de apenas imaginar alguém invadindo seu território, usando suas armas, armando em seu cenário o fazia planejar as mais cruéis atrocidades. Simón era egoísta até o ultimo fio de cabelo, até a raiz do molar, até as microvilosidades do intestino. Aquela cidade era sua, só sua. E ele iria encontrar o vagabundo que estava a destroçando e iria fazer tudo muito divertido.
Seria uma tortura. Queria ouvi-lo agonizar, espernear, rogar por misericórdia. Misericórdia o caramba. Aquele lugar era seu. Se o quer invadir então vá até a sua terra. Encontre as minhocas que existem a sete palmos abaixo do solo que você roubou. O queira por inteiro, o ame por inteiro.
Este é Simón. Intenso. Assim como o café que lava sua garganta agora e desce queimando, não por estar quente, mas por sua garganta estar travada. Travada na maior agonia. Travada na inquietação de um plano bem calculado. Se a polícia não conseguia controlar aquela cidade ele mesmo o faria, mas faria devagar, aos poucos, analisando cada passo errado, cada pista deixada, cada corpo destroçado. Aí sim aquela cidade se tornaria um inferno.
O garoto que já voltara a digitar ainda falava alguma coisa que Perez não escutava. Bufou e deu as costas. Foi até a mesa onde trabalhava e pegou suas coisas, não tinha mais paciência para sentar e escrever. O que, no máximo, sairia da sua mente neste estado seria um conto banhado em sangue, sem escrúpulos, com facas, revólveres, uma overdose de dor.
Entrou no carro que já estava com a tintura preta descascada e dirigiu até a cafeteria mais próxima. A primeira que encontrou havia sido aberta recentemente, nunca a havia freqüentado, mas já ouvira falar que o café era de uma qualidade incomparável. Estacionou o carro ao ar livre e saiu em direção às portas transparentes que o encaminhavam para o paraíso quente.
Lá dentro lhe parecia agradável a primeira vista. A iluminação era um pouco mais baixa, havia mesas altas com apenas dois bancos para sentar-se, algumas poltronas de couro marrom e dois sofás pequenos feitos do mesmo material. Ele se encaminhou ao balcão e pediu um café mocha, esperou cerca de três minutos e recebeu o copo alto e da mesma cor do couro dos sofás. Agradeceu e saiu do estabelecimento sem se dar ao mínimo trabalho de ler o nome do local.
Era Outono. A temperatura diminuía a cada dia a medida da aproximação do inverno, naquele dia em especial deveria estar fazendo 16ºC, não estava quente, mas também não era frio. Agradável o suficiente para que Simón apenas usasse uma camisa de mangas compridas e um jeans.
Ele se aproximou do próprio carro devagar ao perceber uma movimentação incomum do lado de dentro. Da porta da cafeteria ele podia ver alguém sentado no banco do motorista com a cabeça levemente abaixada. Ele riu. Estavam tentando ligar o motor do seu companheiro de anos. Mas que droga, quem rouba um carro de mil anos? Ele pensou. Aquela parecia inédita para ele, devia ser muito desespero a flor da pele mesmo.
Perez continuou andando pela calçada, fingindo não ser seu carro. Há um metro de distância ele notou ser uma mulher que tentava assaltá-lo. Finalmente foi até o asfalto e aproximou-se da porta por qual a ladra de quinta categoria havia entrado. A janela estava aberta, abaixou-se e fitou a moça morena que ainda não havia levantado a cabeça e nem percebido sua presença.
— Suponho que não esteja obtendo muito sucesso.
A garota soltou um grito baixo e agudo e virou-se assustada para o homem que a fitava, ele riu e pôs-se ereto novamente. Olhou por dois segundos a linha do horizonte e depois voltou os olhos para a mulher.
— Qual o seu nome? — ele perguntou.
— Importa?
Ele levantou uma sobrancelha.
— Ah, Importa, muito prazer em conhecê-la.
Ela bufou.
— É Ivana.
— Certo — ele disse sem acreditar —. Precisa de ajuda?
— Sim. Eu não estou conseguindo ligar meu carro com a chave, o senhor entende de mecânica?
— Seu carro?
— Sim.
— Incrível. Há dez minutos eu poderia jurar que este veículo pertence a mim.
— Há dez minutos, mas e agora?
Simón riu e a analisou por breves instantes. Ela era linda e provavelmente não era sua conterrânea. As pessoas ali não costumam roubar na cara dura, muito menos um carro. Ela estava nervosa, o lábio inferior que tremia com freqüência denunciava isso. Por sinal, seus lábios eram bem adoráveis, como o próprio Simón descreveu, levemente puxados para cima e vermelhos como cereja.
— Agora ele continua sendo meu então saia de dentro daí antes que você o destrua de vez.
A morena “Ivana” saiu do carro bufando e deixou que o devido dono entrasse. Ela ainda o olhava, os olhos negros e profundos como petróleo.
— Você não vai me oferecer ao menos uma carona?
— Qual o seu nome?
— Já lhe disse: Ivana.
— Não, não acredito. Diga-me o seu nome.
Ela franziu o cenho por poucos segundos e depois relaxou.
— É Elena. Elena Linhares.
— Ah, muito prazer, Elena. Sou Simón Perez.
— Belo nome.
— Não só o nome, mon amour.
— Vai me oferecer uma carona?
— Claro, entra aí.
Ela revirou as os olhos nas órbitas e deu a volta no carro indo sentar-se no banco do passageiro.
— Então, Elena, para onde vai? — ele disse, enfatizando seu nome ironicamente.
— Qualquer hotel.
— De quinta provavelmente, para combinar com sua categoria de assaltante.
— Sim, isso mesmo. Ligue essa sua lata velha.
— Opa, muito respeito, por favor. Isso aqui, querida — ele disse passando os dedos lentamente pelo painel do carro — é uma preciosidade! Então, sinta-se muito honrada de estar andando nele agora.
— Você quer dizer estancando nele porque até agora ele ainda não foi pra frente.
Perez revirou os olhos e ligou o carro. Passaram dez minutos em silêncio dentro do carro até Simón o estacionar em frente a um hotel três estrelas.
— Aqui não é tão ruim. — ele disse, analisando pela janela do passageiro.
— Não, está bem para mim.
Ele acenou com a cabeça.
— Obrigada — ela disse ao abrir a porta.
— Espere — Elena parou para olhá-lo por cima do ombro — Você não é daqui.
— Bela conclusão, super inteligente.
— O que faz aqui? Quer dizer, é uma cidade no fim do mundo.
— Não, amor, o fim do mundo ainda é melhor que isso.
— O que faz aqui?
— Curioso você.
— Dá pra responder?
— Negócios.
— Aqui?
— Não, na sua casa.
Simón ergueu uma sobrancelha e sorriu de lado divertido com a educação excêntrica da moça.
— Sim, querido, aqui. Onde mais seria?
— Droga, pensei que fosse mesmo na minha casa.
Ela riu.
— Quem sabe, não tenho data para ir embora.
A morena disse e finalmente saiu do carro, batendo a porta o que, se fosse a outro momento, teria enfurecido e tanto o motorista. Simón esperou até ela adentrar a hospedaria e arrancou novamente com o carro, decidido a ir para casa e finalmente arquitetar seu plano maligno do dia. Mesmo não sabendo ainda seu alvo.
Porém, apesar de todas as diferenças Simón apreciava algumas qualidades de Lucas, principalmente sua dedicação — aquela que Perez não tinha — com o emprego.
Morte Matada Denise Verões
3º
30 de Outubro 2011
Domingo
8h17min
As frestas de luz que entravam pelo pequeno espaço que restava entre as cortinas brancas iluminavam parte de seu rosto bem desenhado. Seus olhos ainda estavam cerrados e seu corpo largado de maneira desleixada sobre o sofá. Vestia os trajes rotineiros: os íntimos. De bruços, deixava que os raios queimassem com um calor agradável as costas esculturais que desciam de ombros largos. Era um homem de uma beleza incomum e poucos deduziriam que seria ele, que tem tudo o que qualquer um em sua idade pediria para ter, o novo assassino em série da cidade. Todos imaginavam, e até eu imaginaria, que por trás de tantos delitos haveria um homem amargurado, obcecado (o que não foge da realidade), solitário e miserável.
Entretanto, Perez era o contrário de tudo isso. Era uma perfeita antítese, na verdade. Era o contrário de tudo, de todos os estereótipos, era até, às vezes, inumado em algumas características. Adorava quando o tempo estava frio, apesar do corpo sempre estar quente. Irritava-se quando não finalizava uma coisa, mas por outro lado achava que as melhores coisas não precisam de um fim. Adorava beber uma garrafa inteira de uísque, mas desprezava quem vomitava de embriaguez. Era viciado em nicotina e fumava toda vez que podia, mas odiava quem fumasse perto dele. Era egoísta até o ultimo fio de cabelo, porém se admirava em oferecer um cigarro ao amigo próximo. Mas ele não odiava quem fumava perto dele? Como dizíamos, amigos, uma antítese paradoxal (ou um paradoxo antítipo).
Depois de muito lutar contra as centelhas que batiam em uma de suas pálpebras, levou uma das mãos ao rosto e enquanto tampava a visão virou-se de barriga para cima esbarrando acidentalmente com as pernas no gato que descansava a seus pés. Desta vez, as fagulhas solares apreciavam o modo como suas narinas inflavam enquanto respirava profundamente o cheiro de nicotina que não havia ido embora noite passada. Pousou uma das mãos sobre a barriga firme e sentiu-a mover-se. Fome, que sensação mortífera, literal e não – literalmente falando. Finalmente sentou-se no sofá de couro. Sinatra, com o embalo do companheiro, se moveu, pulando do sofá e andando até as pernas do outro, para lhe fazer uma carícia mútua. Sinatra era o felino que tanto comentamos. O nome era uma singela homenagem a Frank Sinatra, um dos cantores que preenchiam a vasta estante de discos.
— Bom dia, Frank.
Sua voz soou embriagada, apesar de ele não estar bêbado. O gato miou em resposta.
— Há quanto tempo você não come ein, amigão?
Voltou a falar com o animal, o que demonstra o quão sentimental ele é. Não são todos que falam com animais, muito menos com gatos, que são absurdamente independentes dos donos. O gato miou de volta, apontando com a cabeça para o canto da sala e envolvendo o dono em uma conversa quase humana. O homem voltou os olhos para onde o animal de estimação olhava e encontrou uma cabeça de um lagarto. Revirou os olhos. Como o gatinho arranjara um lagarto a nove andares do chão?
— Muito esperto da sua parte — ele disse e levantou-se do sofá indo em direção ao quarto — Mas eu não vou tirar aquilo de lá, você que coma o resto.
O felino desta vez não “respondeu”, nem o seguiu. Como se tivesse entendido tudo que o dono falou dirigiu-se ao resto do animal morto no canto do cômodo, aquele seria seu café da manhã.
Agora no banheiro, Simón ajustava a temperatura da água para “a mais fria possível”. Queria acordar de vez, e um banho quente o ajudaria a cair no sono novamente, só que agora na cama macia. Olhou a água, porém sem ver, cair por alguns segundos enquanto molhava as mãos e balançava a cabeça arregalando os olhos, em uma tentativa de despertar mais rápido. Por fim, jogou-se de vez embaixo do chuveiro e sem mover-se deixou que o líquido gelado alcançasse qualquer parte de seu corpo despido. O banho não demorou tanto quanto teria demorado se ele tivesse que ir trabalhar naquele dia. Contudo os programas eram outros, aliás, não havia um programa, porém odiava ficar em casa enquanto o sol ainda brilhasse lá fora.
Saiu do banho e voltou ao quarto. Sentou-se à cama de cocha florida e procurou pelo celular, achou-o jogado na mesa de cabeceira do outro lado da cama, um centímetro para cair. Pegou-o, cinco chamadas não atendidas, leu. Quem ligaria para ele? Não ficaremos sabendo. Ele não se importou, jogou o celular de novo na mesa e levantou, indo buscar a roupa menos ridícula que tivesse para poder ir à cafeteria. Nada o agradou, então apenas prosseguiu com o mesmo jeans e com a mesma camiseta preta de sempre.
Voltou à sala em uma busca incessante pela carteira que não sabia onde havia posto. Depois de uma árdua procura a encontrou ao lado do fogão, colocou-a no bolso e não achando Sinatra saiu.
Andou três quadras até alcançar a cafeteria que não estava muito lotada. Eram quase nove da manhã e em um domingo, em uma cidade como aquela, todos estavam em suas casas brincando de família com seus filhos. Entrou à cafeteria de sempre, caminhou entre as poucas mesas até o balcão e sentou em um dos bancos cobertos de plástico vermelho. Tateou os dedos pelo balcão gélido e esperou enquanto o mesmo atendente de sempre se aproximava.
— O de sempre? — o jovem perguntou.
— Não, hoje eu quero um expresso, mas aqueles pãezinhos divinos continuam.
O garoto do outro lado do balcão assentiu e voltou novamente para o outro lado da bancada. Impaciência. Perez escutava somente o tic tac do relógio irritante perto à porta do estabelecimento. Em segundos, escutou algo mais, um tilintar conhecido, o sininho logo acima da porta que soava, avisando um novo cliente. Ele não se virou para ver quem era, logo o novo individuo se apresentaria. E assim se fez. Sem surpreendê-lo, uma bela moça sentou-se ao seu lado. Ele a mirou de canto de olho e soube que não passava de uma garota da noite apenas por seus trajes e também soube que mesmo que já fosse de manhã ela ofereceria o serviço.
— Oi. — ela disse, ele riu de lado. Que vidência era essa?
Ele não respondeu apenas a cumprimentou com a cabeça. O pedido chegou logo em seguida e ele passou a comer. Enquanto ela, sem ter pedido nada (talvez não querendo gastar o lucro noturno), dispensou o atendente.
— Então, você mora aqui perto? — ela perguntou com a voz agudíssima.
— Sim. — ele disse frio, sem ao menos olhá-la.
— Você sabe, eu…
— Não, obrigado, não quero seus serviços.
— Mas não ofereci.
— Mas ia. E não, eu não quero.
— Ah, que insulto. — ele revirou os olhos — Por que não?
— Simples. É como comer biscoito: com o recheio é maravilhoso, mas quando já foi raspado completamente fica sem gosto.
— Não acredito que disse isto.
— Desculpe, nem eu. Foi uma analogia ridícula, mas não conseguir pensar em outra. De qualquer jeito, ainda é sem gosto.
— Tem certeza que não irá querer? Sou muito boa no que faço.
— Eu sei que é… Para os caras de dezesseis anos que são virgens. Eu tenho vinte e oito e uma vida sexual em perfeito andamento, obrigado, mas eu não vou querer.
— Você é um grosso! — ela falou pausadamente as palavras.
— E você será, em dois tempos, uma desempregada. A concorrência está aumentando e tem mulher fazendo seu serviço sem cobrar.
— Seu estúpido! — ela berrou.
Ele riu e a olhou pela primeira vez nos olhos, incrédulo com a reação da mulher.
— Não fale de mim, não tem moral para isso.
— Olhe, meu trabalho é como outro qualquer. Faço um serviço e ganho por ele.
— Não, tudo bem, nenhum preconceito.
— E você vai se arrepender de me tratar assim, pois eu conheço uma macumbeira que vai tirar rapidinho o seu ânimo embaixo das pernas e mulher alguma vai conseguir reanimá-lo.
Ele parou de falar por alguns segundos e de repente percebeu algo que ainda não tinha notado na mulher: a cor do cabelo.
— Seu cabelo é loiro natural?
— O que? Não venha elogiar meu cabelo. Não vou lhe desculpar.
— Não estou elogiando, só perguntando.
A loira bufou.
— Sim, é natural e belíssimo. Nasci assim e vou morrer assim.
— Concordo.
— Que é belíssimo? — ela juntou as sobrancelhas, enrolando as pontas da cabeleira.
— Não, que vai morrer assim.
Deu a ultima golada no café, deixou uma nota de vinte em cima do balcão e levantou-se sem dar despedidas à loira que o fitava incrédula diante a reação do seu ex-futuro-cliente. Perez, já fora do estabelecimento, passou a caminhar sem destino prévio pela calçada, na direção oposta à sua casa. Em sua mente, já esquematizava a próxima sexta-feira, quando ele e a loira finalmente se encontrariam. Contudo quem faria o serviço seria ele.

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2º
29 de Outubro 2011
Sábado
23h46min
Riu ao ler o noticiário da noite. Era absurda a maneira como se divertia ao ouvir a noticia sobre a morte que havia ocorrido na tarde do dia anterior e ao policial que, certo de si, dizia que iria pegá-lo em, no máximo, duas semanas. Era engraçado. Falavam isso desde que as mortes começaram; o mês já se encaminhava para o seu fim e os assassinatos não estavam nem em sua metade. Entediado, sabia que não podia se dar a chance de cometer outro crime naquela noite. Havia prometido a si mesmo que controlaria a freqüência e só o faria nas sextas e durante o dia, para que não caísse na tentação de que quando a madrugada chegasse fossem embora mais duas ou três habitantes.
Naquela noite não estava animado para ler o mesmo livro de sempre sobre psicanálise. Desligou a televisão e foi em direção a caixa de madeira brilhante e de melhor qualidade onde guardava os melhores charutos importados de Cuba. A caixa estava consigo desde muitos anos e nunca, nunca, estivera por um segundo vazia. Sempre cheia para preencher seu vício constante de nicotina. Não, eu não diria vício, diria rotina. Apesar de fumar charutos e cigarros todos os dias nunca fora detectado qualquer problema cardíaco ou neurológico. Era perfeito. Intacto. Imutável. Só restava saber até quando.
Tomou um dos charutos nas mãos e levou-o até próximo das narinas, inalando o cheiro delicioso que ele sentia prazer em poder aspirar. Sorriu. O sorriso incompleto, mostrando apenas uma parte da dentição perfeita. Buscou o isqueiro holandês vermelho e ascendeu uma chama que deixou queimar a ponta do charuto. Levou-o à boca e deu a primeira tragada, profunda e intensa, captando o melhor do melhor. Satisfeito, caminhou até a estante onde esbanjava seus discos de vinil muito bem guardados e conservados e o toca-discos que herdara do pai.
Arrastou os dedos levemente pela fileira de discos organizados lado a lado e no décimo quinto parou e o retirou com cuidado. Ray Charles. Tirou, delicadamente, o disco da capa que o guardava e o pôs no toca-discos, deixou rodar. Georgia on my mind era a primeira música. Esta soou como sinos aos seus ouvidos.
Relaxado, ele deixou que a música embalasse-o em uma viagem a nenhum lugar. Enquanto se dirigia a varanda do apartamento antigo, além da música, só sentia o felino negro roçar-lhe as pernas e cruzá-las. Ao chegar à varanda que possuía uma belíssima vista para o centro da cidade, encostou-se no parapeito e deixou-se olhar para o horizonte enquanto o gato se aconchegou na poltrona de couro legítimo que ficava à porta de onde o dono estava.
O apartamento não era grande, mas também não era minúsculo como os atuais. Próximo aos 90m² muito bem divididos em uma sala aconchegante e com uma iluminaria que servia de toda a luz, dois quartos com banheiro, um deles com uma banheira onde o anfitrião da casa esbanjava-se depois de uma sexta cansativa, uma cozinha em design típico americano e a varanda, muito espaçosa, onde jazia a mesa de madeira onde ele escrevia seus pequenos textos para o jornal da cidade.
Escrever para o jornal era seu único oficio e sustentava-se muito bem com a escrita. Obviamente não participava da coluna de notícias, escrevia crônicas que, por sinal, eram bem mais fantasiosas que realistas. Seus temas preferidos eram os que envolviam cafeterias, as adorava. Adorava café. Depois de uísque era a bebida que mais apreciava. Nas suas cafeterias fictícias ocorriam de tudo, escândalos amorosos, heróicos, misteriosos e criminosos também. Os criminosos com menos frequência, admitia, pois se fosse para escrever sobre crimes iria se sentir na obrigação de torná-los reais e assim seria facilmente identificado pela polícia local, que nem era tão eficiente assim como se dizia. A melhor do estado. Estado.
Olhou mais uma vez a cidade lá embaixo, nove andares abaixo de seus olhos. Ela parecia tão triste quando ele não aparecia para satisfazer sua vontade de alegria, de movimento e intriga. Apesar do pequeno tamanho – e da política esdrúxula – a cidade até que era bem desenvolvida. Os olhos do felino fitavam a cidade desejando-a, queria descer, fazer a festa, estragá-la, mostrá-la que ela não é nada, apenas um parque de diversões para uma mente criativa e inteligente.
Lembrou-se de Joanne, a vizinha bonita com quem por algumas noites sustentava sua luxúria insaciável. Não era tarde, poderia ir procurá-la. E mesmo se tivesse passado das três da manhã ela abriria a porta com um sorriso que não caberia no rosto delgado. Joanne é, de longe, uma ótima pessoa para descrever. É uma mulher, uma completa mulher, mas sua descrição fica para o dia – ou noite – o qual estiver mais propício para isso, mais explorável.
Talvez esta narração fique por aqui, depois, com mais paciência narro o caso sobre a garrafa de uísque doze anos, alguma morte interessante, um caso com Joanne ou com outra morena. Morena, apenas morena.
Por hoje, por esta noite, a narração que saúda o leitor é esta pequenina que narra o tédio incompreensível de um hibrido Espanha-Brasil. Que fala apenas das coisas mais banais, de uma noite sem fim, de um domingo iminente, de mais uma semana de espera até a próxima diversão. Até lá nós nos divertimos como dá, nós. Nós. Esses nós que me ligam a este homem. Este homem cruel que já faz dessa narração um embrulho de palavras sem sentido só para que dele eu não me largue. Mas, adeus, amor, que hoje eu não trabalho mais. Não para você.
Sinatra, com o embalo do companheiro, se moveu, pulando do sofá e andando até as pernas do outro, para lhe fazer uma carícia mútua.
morte matada denise verões
Perez era o contrário de tudo isso. Era uma perfeita antítese, na verdade. Era o contrário de tudo, de todos os estereótipos, era até, às vezes, inumado em algumas características.
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