Admirável Goleada Nova e Outras Discorrências
Dois dias depois. A ficha já caiu, mas por isso em palavras fica mais fácil agora, diante do que eu refleti.
Dois dias antes, acordo as 7h, apavorado. Tomo café na correria, troco de roupa e me mando pro São Lourenço. Poderia ser por não perder mais uma manhã pra dar uma corrida antes de ir pro trampo, mas não. Se tratava de um dia especial demais pra se desperdiçar. Uma semifinal de Copa do Mundo, em terra natal, com o país natal, num lugar com mais milhares de pessoas e do lado de casa. Fui no caminho já pensando que não ia mais conseguir a pulseira pra ver o jogo. Cheguei por lá, aquela fila filhadaputamente grande meio que confirmando meus presságios. Cruzei com os meus brothers, na fila há uma hora. “Se a fila não tiver lá na curva(do estacionamento, nos fundos do parque) cê ainda consegue a pulseira, Ivan”, disseram eles. Peguei um pique e fui correndo pra ver. Por sorte, ainda não tava. Mas mesmo assim os tais presságios ainda pesavam sobre a minha cabeça. Assim fiquei esperando, de pé, até que começassem. Graças a Deus, acabei conseguindo. Tinha o passaporte garantido pra ver o embate.
Como em todos os jogos do Brasil, colei antes na casa dos meus brothers antes do jogo pra gente ir junto até a Fan Fest. Ser vizinho de uma traz as suas desvantagens e benefícios, como todo grande evento que mobilize muita gente e faça muito barulho, mas por experiência de todos esses anos de vida morando do lado da Pedreira, já tô mais acostumado. Pra quem não conseguiu dormir por causa de um show do AC/DC quando tinha sete anos, isso era pouco. Mas a dimensão que ela toma faz com que se torne um evento muito especial. Ver pessoas de todos os lugares possíveis do mundo no mesmo lugar ao lado de pessoas daqui na maior paz é algo que eu vou querer contar pros meus filhos e netos, ainda que eu não tenha podido ir a um jogo da Copa, mas aí já são outros 500.
Chegando lá, procuramos ficar no mesmo lugar de sempre: lado esquerdo, do lado da gradinha divisória, próximo do telão. Dali testemunhamos algo que ficará em nossas retinas pelos aspectos que a coisa tomou. O Brasil, jogando como um bando de peladeiros; a Alemanha, jogando como um reloginho. Depois do quarto gol, a galera começou a vazar em massa da Pedreira; estava definitivamente deflagrado o fracasso, mas ficamos ali. Afinal, era a Copa, uma semifinal de Copa. No quinto, sexto e sétimo gol, só nos restou aplaudir a Alemanha e rir da tragédia da Seleção. Quando acabou, até gostaria de ficar pro show que ia rolar logo depois, mas não dava. Precisava era entender, compreender e depurar o que se passara.
Uma das lembranças que mais me vieram a tona durante aquele jogo e que cabe aqui como uma alegoria pra representar como foi o episódio vem de Admirável Mundo Novo, na passagem em que Linda e John, o Selvagem, são apresentados aquele mundo mecanicamente perfeito. O espanto de Tomakin e dos presentes revela isso:
“Houve um resfolegar convulsivo, um murmúrio de espanto e de horror; uma das moças gritou; alguém que trepara numa cadeira, para ver melhor, derrubou três tubos de ensaio cheios de espermatozóides. Balofa, de carnes pendentes, um monstro de meia-idade estranho e aterrorizador entre aqueles corpos juvenis e rijos, aqueles rostos lisos, Linda adiantou-se, sorrindo coquetemente seu sorriso desdentado e descolorido, e meneando as enormes ancas com o que pretendia ser uma ondulação voluptuosa.
Bernard caminhava a seu lado.
— Pensou que eu não o reconheceria? — perguntou Linda, indignada. Depois, voltando-se para o Diretor: — Claro que o reconheci. Tomakin, eu reconheceria você em qualquer parte, entre mil. Mas talvez você tenha me esquecido. Não se lembra? Não se lembra, Tomakin? Sua Linda! — Ela ficou ali a olhá-lo, a cabeça para um lado, sorrindo sempre, mas com um sorriso que, ante a expressão de nojo que imobilizara o rosto do Diretor, se tornava progressivamente menos confiante, um sorriso que vacilava e acabou por extinguir-se. — Você não se lembra, Tomakin? — repetiu ela com voz trêmula. Seus olhos estavam ansiosos, angustiados. O rosto pustuloso e inchado contorceu-se grotescamente ao assumir uma expressão de sofrimento extremo. — Tomakin!
— Ela estendeu-lhe os braços. Alguém deu uma risadinha espremida.
— Que significa — começou o Diretor — esta monstruosa. . .
— Tomakin! — Ela arremessou-se para a frente, arrastando sua manta, atirou-lhe os braços ao pescoço e escondeu o rosto em seu peito. As risadas explodiram em urros irreprimíveis.”
Assim foi: do horror a tragicomédia disfarçada, mas enquanto aquela sociedade testemunhou uniformemente a antítese a tudo o que ela representava e profundamente rechaçada a ponto de deixar Linda aterrada até a morte em um quarto de hospital, nós observamos de dois modos: com a reação de Linda e de John. O grotesco aliado ao encantamento. De um lado, um futebol feio, datado, desleixado; uma zaga absurdamente posicionada, meio campo inexistente, ataque ineficiente, isso quando aparecia. 11 unidades soltas em campo, flutuando em direção ao nada. De outro, um futebol organizado e que não deixava de ser bonito, muito pelo contrário; uma zaga bem posicionada e postada, com uma marcação feita a ponto de deixar o ataque com um espaço menor que um Cingapura do Maluf; um meio campo criativo, colaborativo, em perfeita ligação com o ataque, rápido e certeiro, ainda que um deles seja apenas um ano mais novo que o principal jogador do meu clube de coração. O resultado tá aí. Felipão virou o nosso Tomakin, assumiu toda a culpa e a queda de sua cabeça é iminente. Bernard e Lenina são os equivalentes ao resto do mundo, recebendo a prova cabal que nós já tínhamos desde 1982 e não sabiam: o futebol bonito e vistoso acabou.
Agora resta aguardar para ver o final disso tudo. Espero que a Alemanha não tenha o mesmo fim de John, afogado pelo encantamento coletivo das massas e que possa se juntar a Itália no rol dos tetras. Quanto a Argentina, vem fazendo por merecer, mas ainda não deixou de ser um time de um homem só, ainda que Higuaín, Lavezzi e outros tenham o seu brilhantismo nessa campanha. Pelo bem do futebol e de um coletivo forte, os alemães merecem o título mais do que ninguém. Porque, parafraseando Antônio Lopes, futebol é desporto terrestre colaborativo.
Além disso, há outro agora: a seleção, o país e tudo o que envolveu isso aqui. Esperar que velhos senis estacionados nos anos 70 façam mudanças radicais é o mesmo que eu acreditar que o Coxa vai jogar a final do Mundial de Clubes do ano que vem contra o Real. Esqueçam Guardiola, Sampaoli, Bielsa ou qualquer outro técnico gringo. Esqueçam reformas profundas no futebol brasileiro. A máquina continuará rodando como sempre foi, tal qual quando Tomakin pediu arrego e as coisas não só podem como vão piorar. Quanto a efeitos eleitorais, o jogo e a Copa terão efeito algum. Mas disso eu prefiro falar numa outra oportunidade, pois é um assunto complexo pra ser tratado nesse texto.
Quanto ao esporte, eu sempre vou continuar assistindo. Se eu mesmo nunca deixo de acompanhar o meu time, ainda que eu nunca tenha visto ganhar um Brasileiro e ter acompanhado dois rebaixamentos. não vai ser por causa de um evento desses que vai fazer gostar mais ou menos. A mesma coisa com automobilismo: não é por causa do Massa largar no meio do pelotão e não ganhar nada que eu não deixo de assistir a F1 ou qualquer outra corrida. A mesma coisa com o rugby: não é por quase ninguém conhecer o esporte que eu não vou deixar de ver um jogo. Esportes são esportes: quando você gosta, jamais deixa de assistir. E não, não venha com esse papinho barato de “ópio do povo”. Qualquer coisa que te tire o foco de política é “ópio do povo” e não é por não assistir ou consumir que você deixa de ser explorado e disso eu já tratei antes.
Mas um grande benefício dessa Copa e tudo o que se passou foi o início de um processo de auto-descoberta do Brasil e do brasileiro em relação ao resto do mundo. Não estamos sozinhos no mundo, essa é a grande verdade. É ao mesmo tempo um alívio e um fardo, pois ao mesmo tempo que outros tem problemas, nós tentamos, erraticamente, decifrar e solucionar os nossos. Que a aceitação dessa realidade nos faça pessoas melhores, mais ponderadas e ao mesmo tempo menos raivosas, ao contrário do que se vê nas redes sociais. Precipitação e ódio são uma armadilha perfeita para uma bola de neve e isso não é nem um pouco bom. Life is too short to be pissed all the time.