HISTÓRIA DA ARQUITETURA III + URBANISMO III | Reformas urbanas ontem e hoje em grandes metrópoles latino-americanas – Cidade do México e Avenida Berrini
Setembro de 1910 a Cidade do México engendra e permeia, com seu Centenário, conceitos formadores da noção de nação, progresso e modernização. O início do século XX a cidade de São Paulo também enfrenta a concretização do moderno através da articulação entre as obras de infraestrutura – energia, pavimentação, bondes e retificação dos rios –. A comemoração do Centenário da cidade mexicana permeou as entranhas do cerne edificado, já que as alterações referenciadas no conceito moderno do estrangeiro, transformaram a cidade em monumentos de paz (TRILLO, 2017, p. 37).
Posto isso, é possível traçar paralelos com a cidade paulista. A acentuação da presença de investimentos de diversas companhias estrangeiras na cidade brasileira, foi oportuna para a máquina pública e a gana moderna, haja vista que desempenharam um grande papel na especulação do território (JUNIOR, 2016, p. 19). Esta correspondência se fortifica pela adequação da reflexão de Trillo em que “la celebración es historicamente reveladora pero no como evidencia de la nación ‘falsa’ y ‘elitista’ [...] De ahí que las ruinas de la falsa ciudad pudieran convertirse en los cimentos de nuevas definiciones de nacion” (TRILLO,2017, p.37) pode se referir a ambos os casos.
Assim, o processo de modernização é atrelado a concepção de progresso, sendo assim necessárias provas de que estejam sendo fortificadas tanto as atividades econômicas quanto as culturais, sem deixar de lado pensamentos sanitaristas, conformistas e estéticos (TRILLO, 2017, 38). Situação que coloca a prova este fato é a retificação do Rio Pinheiros, que transformou a paisagem e o uso das áreas das várzeas. A designação à indústria, além dos loteamentos residenciais resultou na ocupação de uma população operária e de classe média baixa, já que o valor imobiliário era favorável.
A construção de utopias acontecia aos olhos das populações. No México, essa utopia se constrói não só pela construção de monumentos, desfiles e festas, mas pela transformação urbana que traçava, conjunta e falsamente, um cenário de “paz”, que foi a resposta a um processo violento de revolução. De forma conjunta, o governo de Porfirio Díaz, almejava a organização de uma Exposição Universal, um ‘Palácio de Cristal a la Mexicana’ (TRILLO, 2017, p.46) afim de internacionalizar e fomentar o cosmopolitismo. Por mais que os esforços não tenham consumado o sonho em fato, as ideias progressistas que envolviam o projetar de uma cidade moderna exaltavam a obsessão pelos moldes europeus.
Os Haussmanns do México abriram avenidas e bulevares, porém trouxeram uma nova configuração a simbologia e aos estilos de dominação. Por mais que não tenham destruído bairros, ruas, nem remover moradores da zona residencial, a reforma urbana mexicana promovida pelas elites porfilianas significou a conquista sobre a tradição, caos e atraso, considerado por eles como a população do campo e a natureza. Perpetuando uma mistura das antigas formas de planejamento urbano e arquitetônico com os novos estilos de decomposição social (TRILLO, 2017, p.46), fomentaram fronteiras que excluíam bairros operários e indígenas que viviam na balança da
prosperidade e do desaparecimento, haja vista que por vezes se engrandeciam pelo comércio e logo se nublavam pela expansão e força atrativa da cidade.
O Hausmannianismo não foi negado pela capital paulista, foi performado pela figura de Francisco Saturnino de Brito e Francisco Prestes Maia. O sanitarista Saturnino de Brito proferia o discurso de resgate da orla fluvial urbana do primordial logradouro público da futura metrópole (“ENTRE RIOS”, 2011), fomentando a elaboração de um cinturão de bosques aquáticos, que não foi efetivado. Já Prestes Maia deu como reais seus devaneios sobre o Plano de Avenidas, já que estes eram condizentes ao interesse dos investidores paulistanos. Assim, se arremataria o fervor moderno também simbolizado pela indústria automobilística, mas principalmente daria ritmo à expansão do município.
A verdadeira civilização é concebida, tanto no Brasil como no México, pelas configurações de cidade postas pelos sonhos das elites paulistanas e porfilianas que exprimem ideais positivistas, que permeiam as reformas urbanas que ocorreram nas cidades latino-americanas no começo do século XX. A partir da década de oitenta, novas transformações econômicas, sociais e urbanas alinharam o pensamento moderno capitalista. As diretrizes foram alicerçadas a liberação econômica e a retração da força do Estado, sendo a flexibilização de mercado e relações de trabalho - assim como a presença das tecnologias de informação e comunicação - sinalizadoras dessa nova dinâmica globalizada que canalizava as regiões metropolitanas como agentes da modernização presente (ABASCAL, 2006).
A inserção das regiões metropolitanas nas dinâmicas de mercado global implicou a ressignificação do sistema urbano que tinha o progresso como emblema. Entre essas inovações destaca-se o apoderamento do setor secundário sobre os espaços de natureza logística ou fiscal, fomentando a expansão e periferização metropolitana. Esta dinâmica consequentemente impacta nas morfologias sociais e territoriais, que acabam por experimentar a polarização, segregação e a policentralidade (ABASCAL, 2006).
O desenvolvimento do Brooklin Novo, à margem do Rio Pinheiros é resultado dessa nova prática, por sofrer processos de especulação imobiliária desde o início do século XX. Sendo assim, o bairro que, até meados dos anos setenta, era residencial e, em menor escala, industrial, tornou- se nos anos oitenta, um dos focos marcados pela intervenção do capital privado sobre o traçado urbano de São Paulo (IGLECIAS, 2002, p.53). Regressando a 1910, é possível notar um tradicionalismo e perpetuação nas formas de implicação de poder. Afinal, o processo de urbanização fomentando pelo Centenário da Cidade do México, propôs o desenvolvimento dos terrenos que circundavam as centralidades, visando talvez, a criação de novos polos e da multiplicação da elite, tendo sempre como sombra o teor eugenista como formador. “Las élites abandonaron la vieja ciudad colonial y se mudaron a los crecientes barrios al oeste de la ciudad” (TRILLO, 2017, p.42).
A articulação da nucleação do centro metropolitano pode ser claramente notado no denominado Centro Berrini, que assim como em Santa Fé na Cidade do México, foi polo do empreendimento do programa de instalação de centros comerciais e sedes corporativas direcionando os determinados vetores da cidade à economia globalizada (ABASCAL, 2006). Dessa forma, os antigos loteamento residenciais que definiram o novo Centro Berrini, passaram por profunda transformação. Transformação esta financiada pela empresa Bratke-Collet que vislumbrou o potencial dos terrenos das áreas alagadas pela facilidade de acesso como pelos baixos valores (FIX, 2001, p. 15). Estes fatores, todavia eram o motivo do aproveitamento dos habitantes de classe média baixa que tiveram boa parte de suas casas desapropriadas.
A Cidade do México, por sua vez, teve seu fluxo migratório relacionado à dispersão da atividade econômica do setor secundário que se modificava de forma proporcional às transformações da estrutura demográfica. A expansão das atividades econômicas relacionadas ao setor terciário alavancaram a convergência espacial como objeto do crescimento econômico e impulsionaram a valorização do solo e da rentabilidade. Assim como no caso Berrini, houve uma movimentação para que houvesse a migração da população mais vulnerável para as periferias assim como a intenção de expansão da área urbana (ABASCAL, 2006). Desta forma, as cidades provam a presença dessas novas concentrações de serviços, produção e investimentos (sejam eles estrangeiros ou de sedes empresariais) indicando com vigor o surgimento das cidades globais, ou seja, conectoras da região ao mercado internacional.
O cenário brasileiro foge da possibilidade de desencontro, já que o Centro Berrini é uma das melhores formas de se entender o fenômeno no Brasil. Com a abertura de uma avenida, que futuramente se chamaria Engenheiro Luís Carlos Berrini, no fim dos anos 1970, a região se transformaria no novo polo do setor terciário da capital paulista (FIX, 2001, p. 29). São Paulo e a Cidade do México como grandes metrópoles latino-americanas, convivem com “problemas de moradias em favelas, altas taxas de desemprego e a violência urbana” (ABASCAL, 2006). Não obstante, o resultado desse processo de tomada da região do Brooklin Novo, culminou no surgimento de diversas favelas, entre elas, o Jardim Edith.
A favela Jardim Edith surge nos anos 1970, em pleno Milagre Econômico. As favelas paulistanas seguiam ocupando encostas, beiras de cursos d’água, áreas de mananciais e várzeas de rios – como a do Jardim Edith, na várzea do rio Pinheiros – tornando-se um ‘problema’ urbano nas décadas seguintes (JÚNIOR, 2016, p. 26). A empresa Bratke-Collet desenvolveu projetos de grandes torres que monopolizaram quase toda a região do Brooklin Novo, fazendo com que esta deixasse de ser um bairro residencial e adiquirisse caráter comercial.
A favela do Jardim Edith então, se viu envolta por megaprojetos e novas propostas de desenho urbano que seguiam os conceitos abordados e permeados por Prestes Maia. Estes foram adotados como tradicionalismo, haja vista que a área em foco recebeu melhoramentos viários como o corredor sudoeste-centro, porém a ausência de desenho urbano para as áreas de superfície ainda salta aos olhos, bem como a ausência do cuidado com a ambiência urbana e a priorização do sistema viário. A abertura da Avenida Águas Espraiadas é monumento perpetuador dessa visão que desapropriou áreas significativas e implicou a expulsão de cinquenta mil pessoas, intensificando o mercado imobiliário do bairro e desarticulando o espaço urbano.
A questão do direito a moradia digna e do acesso aos meios de subsistência é assegurada pela Constituição Federal, porém a realidade de muitas famílias é bem diferente. A impossibilidade de participar da cidade formal, é suprida muitas vezes pela alternativa de habitar em uma favela. “Ninguém decide morar numa favela porque quer. A favela é o que mercado imobiliário disponibiliza para quem tem pouca renda, em geral em áreas que o mercado formal não pode ou não quer ocupar” (ROLNIK, 2011). Fator que tornou o Jardim Edith mais visível foi, além do fato de se encontrar em um dos endereços mais caros e cobiçados de São Paulo, a inauguração da ponte estaiada.
A performance urbana para classes sociais díspares nas metrópoles latino-americanas acontecem de forma desordenada e distinta. Os privilegiados migram para condomínios fechados, a classe média procura morada acessivel e se desloca para as periferias, e as classes mais baixas para as novas periferias. As práticas urbanísticas, ou neo-urbanísticas são empeendidas nas incertezas e geridas pela estratégia, devendo ser moldadas pela participação social democrática e pela gestão suas potencialidades (ABASCAL, 2006), assim como tentou-se fazer com o caso do Conjunto Habitacional do Jardim Edith.
“A comparação entre São Paulo e Cidade do México é bastante elucidativa quanto aos acontecimentos relativos aos eventos e processos descritos que envolvem a globalização e as transformações produtivas, econômicas e sociais que vêm acompanhando a história urbana recente.” (ABASCAL,2006).
Assim, entende-se que a modernização europeia é marcada de forma paralela a diversas formas de violência e transformação encarnadas por sanitaristas, conformistas, estéticos, cosmopolitas, corporativas, eugenistas, empresas privadas locais e estrangeiras, indústria, chefes de estado, ideólogos e planejadores, arquitetos entre outros agentes envolvidos no projeto de exclusão de classes baixas e a asseguração de direitos previstos pela constituição promovida pelo Estado que, por vezes, é vista como exclusividade das classes mais abastadas.
Porém, não se deve esquecer que, para todos os movimentos comuns de priorização dos investimentos públicos em regiões como Santa Fé e o Brooklin Novo possuem reações, manifestações e reinvindicações populares e sociais que nem sempre são o suficiente para impedir a concentração de renda e poder nas mãos de investidores privados, assim como o privilégio de melhoras na ambiência pública. A cidade é feita de negociações políticas, culturais, ou seja coletivas.
ABASCAL, Eunice Sguizzardi. São Paulo e Cidade do México: espaço e transformações econômico-sociais, um enfoque comparativo. Arquitextos, 074.03, ano 07, jul. 2006. https://www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/07.074/336
FIX, Mariana. Parceiros da Exclusão. 1. ed. São Paulo: Boitempo Editorial, 2001. 253 p. 4.
"ENTRE RIOS" - a urbanização de São Paulo. Direção: Caio Silva Ferraz. Produção: Joana Scarpelini. Intérprete: Caio Silva Ferraz. Fotografia de Lucas Barreto, Peter Pires Kogl, Heitor Missias, Luis Augusto Corrêa, Gabriel Manussakis, Heloísa Kato, Luana Abreu. Gravação de Paulo Plá, Robert Nakabayashi, Tomas Viana, Gabriel Correia, Danilo Mantovani, Marcos Bruvic. [S. l.: s. n.], 2011. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=Fwh-cZfWNIc. Acesso em: 30 jun. 2020.
IGLECIAS, Wagner. Impactos da Mundialização Sobre uma Metrópole Periférica. Revista Brasileira de Ciências Sociais, [s. l.], v. 17, ed. 50, p. 47-70, outubro 2002.
JUNIOR, Aécio. Habitação de Interesse Social: Jardim Edith Habitação de Interesse Social: JARDIM EDITH da favela ao conjunto residencial. Orientador: Edite Galote Carranza. 2016. 156 f. Pós Graduação (Pós Graduação em Arquitetura e Urbanismo) - Universidade São Judas Tadeu, [S. l.], 2016.
ROLNIK, Raquel. Mais um incêndio em favela de São Paulo, mais famílias sem teto. Blog da Raquel Rolnik, [s. l.], 8 nov. 2011. Disponível em: https://raquelrolnik.wordpress.com/tag/favela/. Acesso em: 30 jun. 2020.
TRILLO, Mauricio Tenorio. Sobre 1910 y la Ciudad del Centenario. In: ___ . Hablo de la Ciudad. Los Principios del Siglo XX desde la Ciudad de México. Cidade do México, Fondo de Cultura Económica, 2017, p.33-68.