MEU IMORTAL 1 - Quem Tem Medo Agora?
Ele abriu os olhos subitamente, a frustração lhe consumiu no instante em que seu sono foi interrompido pelos berros de sua mãe. Para um garoto de dez anos, não era comum acordar com discussões e brigas, mas para David Alesco sempre fora assim, desde que se lembrava. Ele ficou ali deitado em sua cama fitando o teto enquanto ouvia sua mãe gritar com o locador da casa onde moravam. O assunto era o mesmo que das outras vezes: Falta de dinheiro para pagar o aluguel.
O silencio se estabeleceu por um instante depois que ele ouviu um barulho de uma porta bater. No momento seguinte a porta de seu quarto abriu e ela apareceu. Uma mulher jovem na idade, mas a vida dura e difícil lhe deu uma aparência mais velha e abatida, tinha rugas, o cabelo era opaco num tom castanho com aparentes fios brancos precoces e tinha olheiras profundas. Seu rosto era fino e tinha uma expressão abatida de quem estava o tempo todo alcoolizado.
Miriam perdeu muitas oportunidades na vida, criada numa casa com três irmãos, tinha que ajudar nos afazeres do lar. Aos dezessete conheceu Derek Gonçalves, um garoto mais velho e ex-aluno no colégio onde ela estudava. Famoso por ser atacante no time, teve todo o brilho do sucesso do colegial ofuscado pelo fato de sua família ter baixa renda, não existia incentivo de patrocínio estudantil em escolas públicas e todo o talento e esforço foram por água abaixo quando começou a trabalhar como atendente numa lanchonete. E foi assim que Miriam o conheceu pessoalmente. No começo ela rasgava elogios pelas performances e troféus que tivera conquistado com o time e depois ela puxava assuntos aleatórios. Derek começou a pedir para que Miriam viesse vê-lo no final do expediente, os dois fumavam um cigarro e bebiam cerveja ao conversarem sobre muitas coisas que o aborreciam e suas mentes migravam para outras realidades, sonhos que eles queriam fazer quando tivessem muito dinheiro. Derek viu em Miriam uma parceira espetacular, que poderia ganhar o mundo junto com ele. Apaixonados, eles fizeram planos para o futuro, mas nenhum deles incluía um bebê. Quando descobriu que estava engravida, após dois testes de farmácia apontarem positivo Miriam viu todos os seus sonhos escorrerem pelo ralo. No primeiro instante Miriam teve um acesso de nervosismo e depois que injetou metanfetamina direto no braço para acabar com toda bagunça em sua mente, acordou três horas depois e saiu de casa disposta a contar a Derek e dividir aquele terror com ele. Terror que não poderia lidar sozinha, afinal tinha dezesseis anos e única filha mulher com um pai rigoroso e irmãos mais velhos
Miriam não tinha aconselhamentos em casa e sim ameaças de seu pai tirano de que ela nunca deveria abrir as pernas para homem nenhum antes do casamento ou seria expulsa de casa, além de seus irmãos aconselharem ela a ficar longe de “macho”. Claro que não foi possível resistir, ela estava namorando o astro do futebol dos anos passados. O abraço dele enquanto se beijavam, o calor das extremidades a fez sentir algo que ela nunca imaginou que sentiria. A excitação de dois jovens apaixonados.
Estava com aquele teste na bolsa que não tinha mudado o resultado. Ficou na frente da lanchonete até que as luzes se apagaram e Derek saiu com um sorriso no rosto de quem iria aproveitar o resto da noite para fazer “Aquilo de novo”, mas a expressão de Miriam não estava nada encorajada. Ela mostrou o palito e ele sabia o que significava aquilo, não era idiota. Quando criança viu uma porção deles no lixo de sua casa. Sua mãe e suas irmãs usaram também.
Logo seu rosto escureceu e sua expressão se fechou. Não podia acreditar que aquilo estava acontecendo com ele. Sua mãe tivera sete filhos e viviam com subsídio do governo e a aposentadoria do pai, suas irmãs tiveram filhos e os maridos não tinham um emprego fixo, nem uma profissão. Todos moravam no mesmo terreno com casas irregulares, puxadinhos mal-acabados numa miséria infinda. Naquele momento viu um filme se passar por sua cabeça de que teria aquele mesmo destino. Teria que construir dois cômodos para ele e sua recém esposa Miriam para criar o filho. Cada vez mais se frustrava acreditando que seu destino era sempre afundar mais e mais. O brilho do jogador de sucesso e milionário desapareceu. Então ele pediu a Miriam um tempo para processar e ela concordou, afinal era um terror aquilo para eles.
Vamos dar um jeito nisso!
Miriam passou a noite em claro tentando achar uma solução e decidiu que faria um aborto e logo eles poderiam sonhar novamente com aquele futuro brilhante.
Na manhã seguinte Miriam voltou a lanchonete para procurar por Derek, mas as luzes se apagaram no fim do expediente e apenas saiu seu colega de turno.
— Oi Leo! Derek está por aí?
— Ele não veio! Pensei que soubesse o motivo dele não vir?
— Ele não me disse nada. — disse ela intrigada.
Miriam foi até a casa dele e uma de suas irmãs carregando um bebe de colo e um garotinho de cerca de três anos de idade ao lado estava com roupas sujas de terra. Miriam se frustrou ao ver aquela cena.
— Estou procurando por Derek. — disse ela no portão de entrada.
— Ele saiu hoje bem cedo, levou uma mochila e não voltou até agora, é importante? Posso deixar recado.
Miriam voltou no outro dia na lanchonete e nenhum sinal de Derek, ela foi até sua casa e ninguém sabia lhe dizer o que estava acontecendo, mas ela sabia exatamente o que aconteceu. Chocada, Miriam sabia que ele havia fugido, justo ele. O homem que lhe prometeu a lua e as estrelas, que compartilhava as angustias do mundo que viviam e que agora se fora para sempre. Perdida, Miriam não tinha outra escolha a não ser fugir também. Seu pai a mataria. Então ela pegou dinheiro escondido de seu pai, juntou uma muda de roupas numa mochila e desapareceu daquela cidade.
Passou a morar em albergues com o dinheiro que ganhava como garçonete em lanchonetes, passou a trabalhar em casas noturnas para juntar dinheiro e logo depois pegou um ônibus e se mudou para Selene, onde seria a oportunidade mudar de vida. Conseguiu alugar a casa onde moravam, claro que não era a melhor casa que conseguira, haviam muitos defeitos, mas era um lar para ela e seu filho recém-nascido.
Miriam não tinha ideais ou religiões, acreditava que nenhum homem a fizesse feliz novamente, afinal o homem que ela amou desapareceu e a deixou com uma criança, seu próprio pai era monstro e seus irmãos a enxergavam com uma empregada e acreditava que deus não estava mais ao lado dela. Quando David nasceu, ela teve medo de que ele também a abandonasse, começou a beber quase todos os dias, não conseguir se firmar em nenhum emprego por conta de seus surtos compulsivos e sempre agredia seus patrões. Por vezes David a recebia em casa escoltada pela polícia.
— Vamos levante, ou vai se atrasar. — Resmungou ela da porta num tom firme e desapareceu.
David apenas fitou a porta por um instante e desejou que naquela manhã tudo pudesse ser diferente. Que quando acordasse em seu quarto não fosse um cubículo escuro com paredes cinzentas e umidade no teto, com cortinas empoeiradas e cheirando a mofo. Ele queria que fosse um quarto azul, com nuvens desenhadas na parede, uma estante de brinquedos e livros de literatura, janelas com cortinas brancas e abajur com formas que refletiam no teto a noite. Ele desejava que sua mãe entrasse naquele quarto e o acordasse com um beijo de “bom dia”, que afagasse sua cabeça e preparasse seu café da manhã. Desejava que ela fosse uma mulher empenhada, que trabalhasse num supermercado ou como recepcionista numa clínica medica, que trajasse roupas elegantes e usasse maquiagem e que a cada dia estivesse com um penteado diferente. Ele sentiu uma profunda tristeza fluir dentro de si. As lagrimas corriam em seu rosto de forma constante, pois sabia que aquilo era uma realidade muito distante do que desejava. Era uma fantasia de sua cabeça.
Após limpar o rosto se levantou para vestir o uniforme da escola, escovou os dentes e com um pouco de água nas mãos ele passou sobre os cabelos negros desgrenhados. Antes de sair do quarto ele parou diante de espelho e fitou sua aparência. Era magro, olhos fundos e castanhos, seu nariz era levemente empinado, lábios vermelhos e as maçãs do rosto eram coradas. Ao sair do quarto e passar pela sala, viu sua mãe deitada no sofá com uma garrafa de cerveja na mão. Ela estava com os olhos pregados na tevê. Assistia aqueles canais de leilão de joias. Era a única coisa que ele sabia que sua mãe gostava, Joias.
David começou a fazer sua refeição matinal. Enquanto comia ele fitava sua mãe.
— Algum problema? — Resmungou ela sem desprender os olhos da TV.
— Não vai comer? — Perguntou ele.
Miriam ergueu a garrafa de cerveja e deu uma leve sacudida.
— Aqui está meu café da manhã.
David balançou a cabeça e continuou comendo. Assim que terminou pegou sua mochila e se dirigia a porta, mas sua mãe lhe chamou antes que pudesse se libertar daquele terror.
— David Alesco, não vai sair sem me dar um beijo. — Miriam era uma negação e mesmo assim acreditava que poderia mudar as coisas.
David hesitou, revirou os olhos e se virou. Ela estava no batente da porta, estava com uma expressão abatida. Ele aproximou dela e a beijou na bochecha. o cheiro do álcool era comum.
— Vou até o centro ver um emprego novo, eu prometo que dessa vez será diferente.
David a olhava nos olhos pesando em como queria que aquilo fosse verdade. Sua mãe nunca tivera sorte com empregos, sempre arrumando brigas com clientes, ofendendo os chefes e até mesmo chegou a roubar dos caixas de supermercados e restaurantes que trabalhou. Teve a sorte de nunca terem aberto queixa na polícia.
— Boa sorte mãe. — Murmurou David e depois saiu.
O céu estava escuro, as épocas de chuva eram constantes na pequena cidade de Selene, envolta por serras altivas e montanhas com paisagens deslumbrantes no verão e na primavera. David adorava o clima e a vista da cidade, enquanto pedalava em sua bicicleta de segunda mão, ele deixava o vento bater em seu rosto e sua mente viajava pela paisagem imaginando o mundo a fora e nas belezas que ele prometera a si mesmo que iria explorar um dia.
O Colégio Municipal de Selene ficava apenas há duas quadras de sua casa. Era uma escola tradicional da cidade, mas não era melhor que as outras. Ali frequentavam alunos dos bairros vizinhos. Por ser uma área de classe social baixa, a região norte era considerada como um subúrbio e a escola não era modelo diante das demais das regiões do centro e próximas a reserva. Aquele era o segundo inferno de David. Ele parou do outro lado da rua para observar de longe. Era um prédio de adobe de dois andares com janelas cumpridas de vidro. Em volta havia um jardim e mais atrás um campo aberto para atividades físicas.
O pátio estava repleto de crianças e adolescentes que iam do quarto ano ao ensino médio. As risadas e as conversas empolgadas sobre as férias de verão eram situações estranhas para David. Nunca teve amigos, nunca conseguiu se enturmar, apenas era notado como o centro das atenções sendo alvo de piadas e deboches dos valentões. Apelidavam-no de estranho, magricela, esquisito, mulherzinha e veadinho. Por vezes passou o recreio na cabine do banheiro sozinho chorando, enquanto comia seu lanche. Ao lembrar disso, ele respirou pesadamente, mas alivio o veio logo em seguida e seu dia ficou mais colorido e suave ao ver Cristian, seu melhor amigo.
Cristian Piastre, era um garoto com a mesma estatura de David, de cabelos negros desgrenhados e olhos azuis intensos e com um sorriso estampado no rosto corado. Não importava o que chateasse David, Cristian era sua ancora emocional, que o deixava alegre e feliz, que o fazia enxergar a vida com mais leveza e cor. Nunca pensou que pudesse ter um amigo, fazer coisas de amigos do mesmo jeito que os outros alunos do colégio faziam. parecia que ele nunca pertencera aquela realidade, mas Cristian não o fazia se sentir assim. Era um jovem bondoso, generoso e alegre que gostava de animá-lo e fazê-lo rir. Adoravam se divertir juntos.
— Ei David, olha só o que eu tenho aqui! — disse Cristian cheio de entusiasmo.
David arregalou os olhos ao ver na mão dele a última edição do HQ do Batman, seu personagem favorito.
— Uau! É a nova do Batman!
— Isso mesmo irmão e eu já li tudinho, agora é sua vez de ler. Tecnicamente é um presente.
Os olhos de David brilharam.
— Que irado Cris! Muito obrigado amigo! — disse David pegando a revista em quadrinho e folheando as páginas maravilhado.
Os dois se abraçaram e de repente as piadinhas começaram para provocá-los. Na verdade, as piadinhas vinham do único valentão mais indesejável do colégio. Erick Moura, era um jovem alto e fora do peso, com cabelos louros e espinhas por todo o rosto, mais parecia um adolescente na puberdade precoce, no entanto tinha apenas 10 anos. Ele estava com outros dois, Victor e Paulinho que mais pareciam bebês da mamãe. Eles faziam gestos ofensivos para todos a sua volta insinuando coisas sobre David e Cristian e todos que estavam em volta riam daquilo como se fosse engraçado.
— Como eu te amo David... Cristian somos feitos um para o outro. — Zombou Erick fazendo uma voz afeminada. E todos os alunos que estavam a sua volta e em torno de David e Cristian começaram a rir.
Cristian ficou constrangido, mas ignorou e seguiu para a escola.
— Vamos David, deixe eles dizerem o que quiserem.
David estava estático, o ódio e a repulsa o consumiam. Podia ouvir baixinho rumorejarem em torno deles.
Essas bichas deviam ser banidas do colégio.
Malditos! devem ter assumido de vez.
E nada poderia ser feito para se defender ou proteger o amigo do assedio e do vexame que passavam quase todo o santo dia. Ninguém se importava no colégio.
David estava farto daquilo, queria viver em paz e queria que Cristian também tivesse paz, mas no fundo David sabia que isso era por sua causa. Sentiu como se fosse uma sombra impura que acompanharia Cristian pelo resto dos dias, era pobre e não se encaixava em qualquer outra realidade a não ser aquela. Talvez fosse mesmo uma aberração. Tomado por uma tristeza profunda ele correu dali se afastando da escola. Cristian continuou pisando fundo irritado, quando se deu conta de que David não estava mais atrás dele. Onde será que ele se meteu? Pensou ele.
David pegou sua bicicleta velha e pedalou pelas ruas da cidade até chegar nas pistas da rodovia e entrou a direita numa estradinha que dava direto para reserva florestal de Selene. A reserva era uma grande área florestal de preservação ambiental aberta para pesquisas devido sua grande variedade de fauna e flora com cerca de 200 hectares e diversas espécies de animais e vegetação. A população também aproveitava a reserva para se aventurar nas trilhas que davam em nascentes e cachoeiras com paisagens incríveis e dava acesso a represa da cidade que recebia banhistas todos os raros dias quentes de verão.
David atravessou um caminho de terra entre arvores altivas que s multiplicavam em volta até chegar até um campina aberta, com gramado verde alto e flores coloridas espalhadas pelo chão. Lá no meio havia um tronco de uma arvore tortuosa de galhos finos e pouca folhagem, e em sua base havia uma tortuosa estrutura de madeiras velhas que formavam uma grande caixa que David e Cristian construíram para ser uma casa na arvore, estava longe de ser, mas era ali onde passavam a maior parte do tempo. E ali David passou o dia pensando nos momentos incríveis que viveu desde que conheceu Cristian.
Depois que Cristian se mudou para cidade de Selene e começou a estudar no Colégio Municipal de Selene, alguém novo num lugar onde todo mundo se conhecia, menos David, era a oportunidade perfeita para se fazer amizade, mas David não sabia se enturmar, e muito menos tinha notado a presença de um novo aluno no colégio. Estava sempre isolado lendo os livros que eram seus verdadeiros companheiros.
Certo dia, um esbarrão no corredor fizeram os livros de Cristian caírem no chão, o brutamontes de Erick Moura, fez de propósito para implicar com o novato. Cristian não era de brigas, sabia que era uma provocação, então ignorou e abaixou para pegar o material, mas por pouco ele não levou um chute direto no estômago. David correu e entrou na frente e chutou entre as pernas do valentão. Todos no corredor que estavam assistindo começaram a rir e zombar de Erick que se contorcia de dores no chão. David e Cristian por sua vez correram para o ginásio. Ninguém os acharia embaixo da arquibancada até que o sinal tocasse.
— Sou Cristian, eu não pensei que os alunos daqui fossem tão hostis.
David o fitou da cabeça aos pés. Cristian parecia ter sido vestido pela mãe, e os cabelos penteados pelo pai. Os sapatos eram novos e sua mochila também. Estava na cara que Cristian se não se encaixava naquele cenário. Um jovem de classe média alta num colégio do subúrbio. Com o passar do tempo David passou a chamá-lo de Almofadinha.
— Está no lugar errado, deveria ter ido para a reserva, os colégios de lá são melhores. — Estava prestes a se retirar e voltar a sua aula.
— Ei! Você não me disse seu nome...
— Não precisa saber, não somos amigos. — David saiu andando pelo ginásio em direção a porta.
— Mesmo assim, muito obrigado!
Naquele mesmo dia quando voltava para casa, David foi perseguido pelo valentão Erick, que o espancou para descontar o chute que receberá mais cedo. Erick não aceitava tal tipo de humilhação, ver as pessoas rindo na cara dele, apontando-lhe e zombando o tempo todo, por isso se aproveitava de sua altura e força para impor respeito. No dia seguinte quando chegou ao colégio cheio de hematomas, David não se importou com os burburinhos pelo que tinha acontecido. Ele apanhou e isso era um fato, nem mesmo sua mãe demonstrou interesse, disse que ligaria no colégio e chamaria a os pais de Erick para resolver aquilo. Seria perfeito, mas momentos depois ela estava deitada no sofá embriagada e dormindo, então não havia com que se incomodar, o que o incomodou mesmo foi novamente ver aquele garoto com um sorriso simpático lhe esperando com um caixa de sapato no pátio.
— Ei amigo, eu trouxe um presente...
David passou por Cristian com se ele não estivesse ali. O ignorou completamente sua existência, afinal sabia que tinha sido uma tolice ajuda-lo, tinha sofrido as consequências por seu ato amigável, mas não se culpava por isso. David odiava confusão e injustiça e no momento que viu Erick daquele tamanho encarando Cristian que era um graveto sentiu a fúria crescer dentro de si. Foi natural defendê-lo.
Cristian passou o dia atrás de David, no refeitório, na educação física e na hora da saída, mas David o evitava o máximo possível. Outra qualidade de Cristian era ser persistente, que para David era um grande defeito. No pátio Cristian tentou alcançar David de uma vez.
— Ei espere! Se não quer falar comigo eu vou entender. Não é de fazer amigos né? Tudo bem, mas quero agradecê-lo pelo que fez ontem. Você não tinha nada a ver com aquilo e...
David parou, deu a meia volta e disse:
— Está vendo isso aqui? — disse ele apontando para seu rosto com a marca roxa do soco que levou. — Foi o que eu ganhei por ter ajudado você. Nessa escola é cada um por si e você precisa dar o fora daqui!
Cristian sorriu graciosamente.
— É por isso que lhe trouxe este presente. — Cristian estendeu a caixa de sapato. — Com relação a surra que levou do idiota do Erick, não posso voltar no tempo, mas aceite esse presente. Eu já li todos e não os quero mais.
Cristian abaixou e deixou a caixa de sapato no meio do pátio. David observou Cristian se afastar e sumir no meio da multidão de jovens. Por um momento ele hesitou em pegar a caixa, mas como não sabia o que havia dentro pegou e correu dali antes que Erick aparecesse.
Quando chegou em casa se trancou no quarto e abriu a caixa para ver o que Cristian não queria mais. Seu rosto se iluminou ao ver uma coleção de revistas em quadrinhos variadas, personagens que ele amava e outros que passaria a amar. David ficara tão feliz com o presente que passou a noite em claro folheando as páginas de cada exemplar. David ganhara poucos presentes na vida. Aquele fora o que ele mais havia gostado.
Quando chegou ao colégio no dia seguinte, Cristian o encontrou no banheiro lendo uma das HQs que ele lhe dera.
— Então você pegou meu presente?
David fitou Cristian com os olhos sobressaltados.
— Não podia deixar esse tesouro para quem quisesse levar. Você mesmo disse que o presente era meu.
Cristian tentou enxergar o título do HQ que David estava lendo abaixando-se um pouco, mas David era irredutível, manuseou a revistinha no ar para que Cristian não pudesse ver.
— Qual é? Deixe-me ver isso ai! — Cristian se aproximou de David e de relance viu parte do nome e deduziu o restante. — Ah! Batman: Ano Um. Nada como um bom começo. — disse Cristian. — Por que está lendo esse primeiro?
— Gosto dele, sombrio e solitário.
— Batman não é solitário para sempre, ele tem o Robin.
— Mas isso não conta, falo do jeito dele, sombrio e sempre na escuridão. Robin só atrapalha. — disse num tom irônico.
— Espere aí, vai me dizer que não é divertido ver o Robin servindo de isca para os bandidos! — Cristian riu como se aquilo fosse uma grande piada.
David sorriu sem perceber, sua pose de durão estava se desfazendo e sua muralha não estava mais tão alta diante de Cristian. Cristian falava com ele como se fosse qualquer outra pessoa, sem ligar para suas roupas, seu cabelo, seu material precário ou pelo que os outros diziam. Sentiu pela primeira vez seu mundo mudar de cor.
— No refeitório eu te conto um pouco mais sobre o Batman. — disse David com um pouco de indiferença. Não queria demonstrar muito afeto. Era estranho fazer amizade, estranho ter alguém para conversar.
— Sério! Vou precisar entender mesmo, esses quadrinhos eram do meu pai, gosto mesmo dos X-Men e Liga da Justiça, o trabalho em grupo é menos triste não acha?
David o encarou com ceticismo.
A ano passou e a amizade dos dois se tornou mais forte. Os dois se tornaram bem próximos, quase que irmãos. Sempre depois do colégio, iam até a reserva nadar na represa e passar as tardes estudando e lendo quadrinhos. Os dois até construíram uma casa na arvore com restos de madeira de paletes e moveis usados que estavam quase apodrecendo no quintal de David. Depois de pronta eles fitaram a casa torta de madeiras irregulares nos tamanhos e nas cores, mas que formavam uma fortaleza para aqueles dois garotos que ficou conhecida como a Sala da Justiça. Ali eles colocaram em prateleiras todas as HQs que tinham juntos. A Sala da Justiça se tornou o refúgio dos dois amigos, onde podiam ser eles mesmos, brincando de jogos de RPG, bonecos e criavam suas próprias histórias com personagens inventados.
David sabia que aquilo que estava vivendo era um sonho, tinha um amigo e seus dias eram coloridos e não eram tão escuros como antes, mas aquela amizade era um fardo para Cristian carregar. Nunca o deixariam em paz, acreditava ele. Não se importava com o próprio fato de ser zoado no colégio, mas não queria isso para o amigo, a pessoa mais gentil e bondosa que ele já conhecerá. Teria que dar um fim nisso, era insuportável pensar em sua vida sem o amigo, mas tinha que fazer.
Naquele dia após a aula, Cristian foi até a reserva de bicicleta e percorreu a pequena estrada que subia a serra para chegar à reserva. O cheiro úmido de mato e da terra era o contato preferido de Cristian. Gostava de estar na reserva, tudo relacionado a natureza e a vida o agradava.
Chegando a casa na arvore baixa de tronco largo e escuro. Ele abriu a porta e passou pelo buraco no chão e viu David sentado no meio das almofadas e travesseiros no canto da casa. Havia um tapete e uma cadeira velha de alumínio. Na outra parede, ficavam as prateleiras com todos os quadrinhos e livros que eles costumavam ler. E uma mesa improvisada com caixotes. A casa era grande e espaçosa. Os dois construíram pensando no quanto cresceriam até o ensino médio.
Cristian percebeu que David estava diferente, nem mesmo havia notado que o amigo teria chegado instantes atrás.
— Você perdeu uma atividade hoje. — Disse Cristian. — Tivemos aula de história também, a sua predileta. Teve almondegas hoje e sei que você adora...
— Não podemos mais ser amigos. — Interrompeu David.
— Do que está falando? — Disse Cristian sem processar o que o amigo havia acabado de dizer.
— Que não podemos mais ser amigos, os outros na escola vão zombar você até o ensino médio por ser meu amigo. Isso nunca vai acabar entende! — Assentiu David.
— Não me importo com as piadas David, não ligo para o que pensem de nós. Garotinhas, veadinhos, namoradinhos, esquisitos. Eles são uns idiotas de merda. Aposto que não sabem o que é uma amizade como a nossa, o que é jogar Nintendo e ler quadrinhos juntos, nadar na represa a tarde toda e depois tomar chocolate quente ou assistir filmes de terror sem medo por que temos um ao outro. Então não David, não vou deixar de ser seu amigo, não vou deixar você se afundar na sua solidão idiota com seu drama familiar e sua situação de vida. Não quero perder sua amizade.
David ficou encarando Cristian imóvel, não conseguia reverter o argumento dele, era como se ele tivesse levado uma rasteira. Cristian de uma expressão furiosa em seu rosto passou a um suave e gentil sorriso. Aquele sorriso contagiando que David adorava
— Meu pai ia jogar a tevê portátil dele fora, então eu a tirei do latão de lixo e escondi no meu quarto, tecnicamente debaixo da minha cama. Esta noite vai passar o filme do Drácula, e nós vamos assistir. Fechado! — Cristian pegou a mochila e foi para a escada, estava de saída. — Eu vou pegar a tevê e roubar algumas coisas para nosso jantar. Te encontro esta noite.
David anuiu, sentia uma grande euforia crescendo dentro de si. Era uma emoção forte. Cristian era a única pessoa que sabia compreende-lo e que nunca o abandonaria.
A noite David pedalou até a reserva com sua bicicleta usada. — Antiga bicicleta de Cristian, no seu último aniversario Cristian apareceu em sua casa com a bicicleta e lhe entregou. David conseguiu conter as lagrimas até a hora de dormir, onde chorou por ter recebido algo tão precioso como aquilo, um amigo de verdade. Cristian pediu uma nova para seu pai para poder dar a antiga para David, assim os dois poderiam sair juntos e apostar corria.
David entrou na Sala da Justiça e encontrou Cristian tentando achar o sinal para a Televisão portátil. Tinha sua própria antena, mas Cristian não conseguiu sintonizar nenhum sequer.
— Como conseguiu ligar isso Almofadinha?
— Isso é uma tevê portátil, e eu peguei o gerador do meu pai emprestado, mas o problema é o sinal.
— Acho que se você levantar a antena vai conseguir pegar sinal.
Cristian olhou atrás do aparelho de dezessete polegadas e encontrou uma pequena antena presa no suporte, ele a ergueu e a tevê parou de chiar e imagem apareceu. Ele colocou sobre a mesa e correu para o canto das almofadas, ele abriu um pacote de batatas e começou a comer enquanto assistia atentamente ao filme.
— Filme de vampiro? — David fez uma careta.
— Não é isso, acho ridículas essas histórias de monstros que bebem sangue.
— Você gosta de zumbis que comem cérebro, não faz sentido. Você tem medo sim. — Insinuou.
— É claro que não, eu não tenho medo do Batman.
— É ele humano e não bebe sangue.
— Mas é um homem morcego.
— Tanto faz, vamos assistir logo, afinal de contas nada disso existe.
Um relâmpago explodiu no céu e David se assustou correndo para o canto das almofadas. Cristian deu uma gargalhada alta.
— Você tem medo! Eu sabia.
— Eu não tenho medo. — Rebateu David.
David foi relutante e ficou ao lado de Cristian. Os dois permaneceram ali assistindo enquanto uma tempestade caia lá fora. No decorrer do filme David sentiu o cansaço consumir seu corpo. Seus olhos estavam pesados, sonolentos, se fechando lentamente. Outro relâmpago e ele despertou, olhou para o lado e Cristian estava concentrado no filme. David olhou para janela e a chuva ainda caia com força.
— Que horas esse filme vai acabar? — perguntou David.
— Shi! — Cristian ignorou tentando prestar atenção na cena de tensão que passava.
— Está ficando tarde, e depois não vamos conseguir atravessar a pista se ela estiver alagada.
— Então vamos dormir aqui. — disse Cristian sem desgrudar os olhos da tevê. — Você disse a sua mãe que ia dormir em casa e eu disse a minha mãe que dormiria na sua casa. Não vejo problema.
David consentiu, odiando a ideia de ter que dormir ali no meio daquela tempestade. O filme era tão forte que ele tinha impressões esquisitas de que um vampiro invadiria a Sala da Justiça e beberia seu sangue ou que Cristian se tornaria um vampiro e beberia seu sangue. Ele fechou olhos para afastar aquelas ideias e tentou se concentrar no filme, apesar do medo que realmente sentia, tentou se conformar que não havia nada com que se preocupar.
De repente um raio caiu perto da casa na arvore fazendo um estrondo ensurdecedor. O raio causou um curto que queimou o gerador com a tevê. Tudo ficou escuro e os dois estavam imóveis, assustados com o barulho. David foi até a mesa e pegou uma lanterna e ligou. Iluminou o amigo no canto assustado.
— O que aconteceu? — perguntou Cristian.
— Eu não sei, você está bem?
Subitamente alguém gritou lá de fora. Era um grito estridente de uma mulher e em seguida outra trovejada explodiu no céu. Os dois amigos se entreolharam intrigados.
— E agora o que foi isso? — Cristian estava apavorado.
— Acho que foi uma mulher gritando, mas não tenho certeza, houve um trovão também.
O grito soou novamente, dessa vez mais alto e estridente. A voz alarmada de uma mulher em apuros. Cristian e David estremeceram de medo, afinal não sabiam o que poderia ser. Alguém gritando daquela forma é por que estava fugindo de algo, sendo atacada ou já tinha sido pega. O que era mais cruel de se pensar?
— Agora eu tenho certeza de que ouvi um grito David. — disse Cristian entredentes.
— Caramba, o que será que pode ser?
— Eu não faço ideia, só sei que vamos ficar aqui agora.
— Precisamos saber o que está acontecendo. — disse David aflito.
— O que? Está maluco? Não podemos ver o que é. E se for um assassino?
David correu até a janela e com a lanterna e tentou iluminar o lado de fora afim de encontrar alguma coisa. A tempestade era forte e o vento circulava com força e os relâmpagos explodiam no céu iluminando em torno da arvore. Nenhum sinal de uma mulher em perigo. David se virou e encarou Cristian.
— Parece que tem alguém com medo aqui? — disse David com sarcasmo.
— E então o que você viu?
— O sugador de almas... — disse David com a voz rouca e fantasmagórica.
— Pare de bobagens David, vamos logo ver o que está acontecendo. — disse Cristian confiante.
— Olha só! Pensei que estava com medinho. — disse David com ironia.
— Claro que não. — Desconversou Cristian, e continuou num tom sombrio. — Agora e se for um vampiro?
David o encarou sem resposta.
— Quem tem medo agora? — Cristian riu.
De repente o grito ficou mais alto, não deu para identificarem direito, mas parecia ter sido um grito de socorro, foi estridente e abafado pela chuva forte e o vento que chicoteava as arvores. Cristian encarou David seriamente.
— Deve mesmo ter sido nossa imaginação — disse Cristian com sarcasmo.
David estava com uma expressão em alerta, como se estivesse preocupado.
— Precisamos ver o que está acontecendo. — disse David saindo da janela e indo em direção a saída, ele pegou uma lanterna vermelha que estava pendurada na parede bateu nela para acender e depois voltou a luz para Cristian que cobriu os olhos com incandescência.
— O que pensa que está fazendo?
— Eu estou indo lá para fora, tem alguém precisando de ajuda.
— E você vai me deixar sozinho?
— Quem é que está com medo agora mesmo?
Cristian bufou, revirando os olhos e seguiu o amigo.
Os dois desceram as escadas, a chuva forte cuia cortante como navalha, impossibilitando a visão, mas de alguma forma David sabia que estava acontecendo alguma coisa e por mais que o medo lhe consumisse, ele sabia que era perigoso. Cristian grudou no braço de David que o fez soltar dando uma sacudida brusca, mas Cristian insistiu e grudou novamente. David revirou os olhos respirou fundo e os dois seguiram em frente em direção a mata. David era guiado apenas pela lanterna que iluminava com dificuldade e Cristian seguia acuado e com medo de todo aquele aguaceiro e os trovões.
De repente os gritos histéricos de uma mulher ficaram mais fortes.
— Isso não pode estar acontecendo. — Murmurou Cristian.
— Deve ser alguma garota perdida nessa tempestade.
Os dois estavam andando na direção em que os gritos vieram. A mata estava completamente escura e ali no meio eles continuaram até ouvirem o gemido de uma mulher: gemido de alguém que se machucou ou que sente uma dor muito forte. Eles se entre olharam e depois seguiram na direção que veio o som.
— Estamos chegando perto. — disse David.
— Acho melhor voltarmos, não sabemos o que pode ser. — insistiu Cristian.
— E se for alguém precisando de ajuda. — disse David, sua valentia vencia seu medo e Cristian admirava isso nele.
— Pode ser perigoso também. — Murmurou Cristian para si mesmo.
David não respondeu, apenas continuou caminhando. Então a lanterna começou a falhar e a luz que pouco ajudava começou a ficar fraca. As pilhas estavam perdendo força. David parou abruptamente e começou a sacudir a lanterna. A luz se extinguiu e eles ficaram na completa escuridão. O silencio era terrivelmente assustador, apenas o som da chuva em contato com a terra molhada e o vento assoviando no céu, os trovões reclamando entre as nuvens negras.
— E agora? — sussurrou Cristian, sua voz era tremula, a chuva fria fez seu corpo perder a temperatura.
— Os gritos, não consigo mais ouvi-los... ela deve estar morta. — As palavras saíram com dificuldade da boca de David.
— Vamos voltar, agora definitivamente eu estou com medo. — Determinou Cristian completamente assustado.
Um grito estridente e horripilante soou subitamente e um raio explodiu no céu iluminando tudo em volta deles. O som do grito parecia ter saído dali, bem diante deles. David estava paralisado, não conseguia se mover, uma onda de terror lhe envolveu. Cristian já estava voltando quando percebeu que o amigo estava parado, estático.
— Ei, o que houve? — Cristian murmurou, era quase um sibilo.
Cristian se aproximou do amigo, analisou seu estado de choque e seguiu a mesma linha de visão que ele. A dois metros de distante um homem de mais ou menos dois metros de altura, com um sobretudo preto encharcado e cabelos cumpridos molhados, segurava em seus braços uma mulher de vestido branco. O homem estava de costas, não deu para ver seu rosto, mas a mulher estava inconsciente e ele a segurava frente ao peito e sua cabeça estava enterrada em seu ombro. De repente a cabeça da mulher tombou para o lado e balançou de forma fantasmagórica e sem vida. Cristian arquejou de medo e deu passo para trás, ele pisou num graveto que se partiu. Aquele som era o anuncio de suas mortes. O homem ouviu o barulho e se virou para olhar. Seu rosto era sombrio e cheio de maldade. Vampiro! A mente de David deu um alerta, não conseguia pensar em mais nada, apenas em correr e fugir. O homem largou o corpo da mulher sem vida e começou a caminhar na mata a procura de quem quer que fosse. Ele rondou a mata a sua volta e os dois garotos ao lado de uma arvore grande não foram notados. Cristian pegou na mão de David e disse baixinho:
—Vamos sair daqui, por favor... vamos David... — Estava suplicando.
Cristian puxou David pela mão. O estado de choque ainda o segurava ali. Mais uma vez, Cristian o puxou com força e David voltou ao normal, ele olhou para o amigo com os olhos arregalados e vibrantes, não conseguia conter o medo. Naquele momento Cristian percebeu que tinha sido uma péssima ideia ter saído da Sala da Justiça, saído para dormir fora de casa, estar ali tinha se tornado uma péssima ideia...
Os dois saíram cautelosamente da linha de visão do homem de preto. E quando passaram os arbustos começaram a apertar o passo e quando se deram conta, estavam correndo pela mata o mais rápido que podiam. Àquela altura seus passos ligeiros já tinham sido percebidos pelo homem na mata.
Ligeiros e desesperados cortando as poças lamacentas no meio da chuva intensa eles estavam sendo perseguidos pelo homem de preto. Os trovões começaram de novo e os relâmpagos distantes iluminavam o caminho. David podia sentir os passos pesados do homem de preto se aproximarem devagar, mais e mais próximos.
Cristian correu na frente, o medo o fazia se mover mais depressa. Desejava não estar ali, desejava que aquilo fosse um sonho ruim. Quando viu a arvore larga e o telhado da Sala da Justiça, sentiu-se mais aliviado. Acreditou que nada poderia lhe acontecer ali, que ninguém pudesse lhe fazer algum mal.
Quando chegou na escada subiu rapidamente e abriu a porta, ao entrar se jogou no chão afoito e sem folego. Ele aguardou o amigo entrar logo atrás dele em segurança. Ele tampou os ouvidos e ficou ali e David não entrou, estava logo atrás dele. Cristian se aproximou da janela engatinhando pelo chão e deu uma espiadela. Tudo era turvo e escuro, mas nenhum sinal do amigo até onde conseguiu enxergar. Depois olhou para a porta de baú velho no chão esperando que a qualquer momento seu amigo passaria por ali são e salvo.
Apenas acreditava que David ainda passaria por aquela porta, aguardou sentado no canto com os ouvidos tampados cheio medo do barulho dos relâmpagos. Cerrou os olhos e tentou se focar apenas em coisas divertidas, nos momentos felizes que viveu com o amigo e como iriam vir aos montes com tudo aquilo que viveram naquela noite.
Cristian abriu os olhos e David ainda não havia voltado.