Quando o Inconsciente Escreve a Peça e o Ego Odeia o Roteiro - Relato Paralisia do sono
Era 4 horas da manhã quando finalmente acordei, se fosse usar palavras melhores diria que a sensação foi de ser arrebatada e trazida de volta várias vezes até eu finalmente voltar de verdade, mas isso já é o futuro. Vamos voltar um pouco e entender minha mistura de fascínio e sensação de não aceitação do que meu cérebro simplesmente criou pra mim.
Era de noite, eu já estava caindo no sono, parecia até a sensação que as pessoas falam de quando sentem que estão super bêbados, não sei, nunca me aconteceu então apenas tenho a fantasia que seja assim e se for assim, então tudo bem não me embebedar a esse ponto, pois o que vinha a seguir não tinha sabor de maracujá com leite condensado. Eu entrei num estado onde meu corpo estava pesado, eu fechava os olhos, pesados e eu fraca, o corpo mole e a alma pesada, eu queria acordar, mas meu corpo me traia e nisso entrei num loop de acordar e dormir por um bom tempo, mas o melhor (ou pior) foi o que meu cérebro escolheu de filme pra eu assistir durante o tempo que eu entrava no sono REM.
→ Os Seres azul e preto mistura de humano com algo do mundo do fantástico, meio glitterinados
Tudo começou com uma visão vinda dos meus olhos, eu deitada e dois seres azulados me olhando de cima me avisando que aquilo era uma paralisia do sono, eu os questionava e falava que não queria aquilo, mas assim como eles surgiram eles sumiram. Nisso fui parar quase que em nada mais e nada menos do que numa reunião de condomínio com as personificações de partes do meu cérebro, todos eles sentados em círculo sentados em cadeiras e eu no centro em choque com tudo aquilo, na verdade a palavra era INDIGNADA, eu olhava para aquilo e só queria sair dali, tinha até a porra de um Mario dentro de um elevador, agora você me pergunta, o que diabos ele representava do meu cérebro? Porra, talvez o meu lado geek? Só pensei nisso agora, mas de todos que poderiam ser, o Mário seria um que nem estaria na lista que personificaria esse conceito. Não acho que consigo analisar tão profundamente quem seria o Super Mario, acho que esse cai naquelas partes do sonho que são apenas o cérebro repetindo coisas da sua memória.
NOTA: Uma coisa que lembro sobre os seres Pré paralisia do sono, um era azul netuno, parecia uma fumaça meio gênio do alladin, essa tinha traços femininos, o corpo era robusto mas eles não tinham pernas. O outro era preto cor do espaço, esse tinha traços masculinos e acho que os dois tinham olhos amarelados que contrastavam com as cores deles.
→ Chuva de tesão (literalmente)
Sim, essa é a melhor forma de descrever a próxima sequência, a personificação da minha excitação era de um ator de uma das minhas novelas favoritas, que coisa brega meu deus, mas enfim. Lá estava eu num tipo de quintal, tava chovendo e eu com um guarda chuva vermelho todo bonitinho, mas aí eu fiquei curiosa e olhei para o ator na minha frente “como assim tá chovendo?” E ele logo começou a rir, eu estava toda molhada, literalmente, a chuva era uma alusão ao tesão que eu estava sentindo mesmo dentro de uma paralisia do sono, sim, nem eu sabia que isso era possível.
A cena passou, agora estávamos no metro, como se viajando pela minha mente, mas eu não queria estar ali, a personificação da excitação dançava e ria, sambava ao me ver querendo fugir dali, eu não queria estar passando por aquele turbilhão de emoções que eu não conseguia entender, não conseguia nomear, quase como uma alusão a vida real, talvez uma bem óbvia.
→ Máscaras e um rosto conhecido, a procura de um caminho de volta pra realidade
Enquanto eu ficava oscilando entre cenas ainda com a personificação da excitação lá dentro do metrô e eu negando falando que não, que eu tinha que sair dali foi ai quando cheguei aparentemente numa casa, parecia até a casa da minha vó, mas o local estava com uma vibe mais pesada, tinham máscaras pretas e brancas, às vezes metade branca e metade pretas e assustadoras penduradas pelos cantos, ali eu estava com medo, estava com medo do sonho se tornar em algo realmente mais como um pesadelo, eu face o tempo todo tentando me proteger disso, eu tava morrendo de medo de virar um pesadelo horrivel, eu chamava então pela minha mãe, isso foi uma tentativa do meu inconsciente de tentar achar algo conhecido e assim me trazer o conforto que eu precisava pra conseguir relaxar e sair do sonho e mesmo com medo, depois de um tempo nessa tortura eu vi ela, vi minha mãe e ela me salvou.
Eu acordei
Queria que tivesse sido fácil assim, mas não foi, eu fiquei oscilando novamente por aquele acorda e dorme e repete tudo de novo, o peso enorme no corpo e pálpebras, mas até que certo momento eu só senti meu corpo contra a rede em que estava dormindo e puxei meu corpo pra cima como um fantasma saindo do corpo que estava possuindo. Eu estava esbaforida, meu cérebro a mil com aquela viagem maluca por dentro do meu cérebro, foi como ver os bastidores da minha própria racionalidade, eu estava acabada.
Analisando uma peça surreal, O inconsciente
Lendo a descrição desse sonho ele parece desconexo e totalmente conectado ao mesmo tempo. ele é confuso e faz sentido ao mesmo tempo, sonhos funcionam assim, isso todo mundo sabe, mas eu não sabia que uma paralisia do sono podia ser tão reveladora assim.
Esse sonho realmente foi uma briga de condomínio, cada um tinha ideias diferentes, mas todos eles eram eu, eu estava o tempo todo gritando comigo mesma, com versões do inconsciente minha. Isso ficou óbvio com a forma como a personificação do cérebro estava se sentindo humilhada, seria o equivalente a se xingar na frente do espelho ou falar coisas do tipo: “como eu sou burra, que estúpida, que burra” são micro agressões que causam macro efeitos debaixo da superfície da nossa mente. Tudo que se é falado e verbalizado num pensamento dito seja na mente ou para outras pessoas ouvirem, tudo isso é visto pelo cérebro quase que como uma verdade incontestável, se você quiser um termo técnico, chame lindamente de Neuroplasticidade Autodirecionada, assim chama a neurociência, mas verdade incontestável é bem mais fácil de falar….e escrever.
O cérebro tem uma dificuldade de separar fantasia da realidade, é por isso que sofremos pela morte de personagens fictícios, mas isso também vale para coisas ditas sem pensar, não existe falar por falar, infelizmente se você fala é quase como se você criasse um mundo inteiro dentro do seu cérebro onde existe uma realidade onde você é a pessoa mais burra, azarada, feia e qualquer outro xingamento existente. Você fica preso entre realidades, o seu eu da vida real pode muitas vezes conhecer pessoas que valorizam sua personalidade, sua beleza, seu jeito de ser, seu humor, todas as coisas que te fazem única, mas aí o cérebro entra em baque com o mundo falso onde você é a pessoa mais fodida do mundo, é nisso que crises acontecem, não aceitações acontecem assim, porque aí também entra outras questões, ok, na vida real você encontrou alguém que te viu, quem te viu pela primeira vez como você gostaria de ser vista, mas você fica dependente agora de um novo mundo que você criou, um mundo que se baseia totalmente na validação externa e que vive constantemente se quebrando e te jogando na sua realidade onde você não se decidiu em qual mundo viver, porque sendo sincera, só existe de verdade um, todos os outros são válvulas pra se proteger de forma falha de algo que não tem como se proteger, o medo da rejeição, e isso tudo porque você foi a primeira pessoa no mundo que te rejeitou.
Como desfazer uma maldição procurando pela ajuda de outros magos se foi você que criou o feitiço?.
"Don’t speak negatively about yourself, even as a joke. Your body doesn’t know the difference. Words are energy and they cast spells, that’s why it’s called spelling." – frase atribuída a Bruce Lee
"Não fale mal de si mesmo, nem mesmo de brincadeira. O seu corpo não sabe a diferença. As palavras são energia e lançam feitiços. É por isso que se chama grafia (spelling)." – frase atribuída a Bruce Lee
O que Bruce Lee falou sobre nos anos 70:
"As you think, so shall you become."
(Como você pensa, assim você se tornará.)
E ele complementava isso com uma nota muito parecida sobre o diálogo interno:
"Mind is like a fertile ground where anything you plant will grow... so be careful what you say to yourself."
(A mente é como um terreno fértil onde tudo o que você plantar vai crescer... então cuidado com o que você diz a si mesmo.)
Talvez para alguns possa parecer tosco citar o Bruce Lee nesse momento, mas meu foco aqui é o significado das palavras dele, parece ate uma metalinguagem dizer isso, mas é essas palavras dele que deveriam ser repetidas na sua cabeça e não esse disco arranhado e mofado que te faz putrefar sozinho pensando em mundos e realidades que nem existem.
→ Emoção de mãos dadas com a Razão
Acho que eu poderia ter sido mais gentil com meu cérebro, ter paciência com as dificuldades dele, com o jeito único dele de funcionar, ele é extraordinário, mas ele está cansado, está sobrecarregado, foi isso que eu deveria ter notado quando vi o homem magricela todo acabado, ele está cansado, ele precisa de cuidados e não mais chicotadas. Já o meu emocional, ele é bonito, tenho que conseguir acreditar nisso, falando até que vire verdade na minha cabeça, uma hora eu acredito, assim como eu acredito em todas as coisas ruins e monstruosas em mim.
Esse sonho foi uma briga de ideias que eu tenho superficialmente no dia a dia e a visão inconsciente de como realmente funcionam as engrenagens do meu maluco e fascinante cérebro. Minhas emoções são lindas e meu cérebro tem vergonha e se sente oprimido por mim mesma pela minha falta de aceitação comigo mesma.
Essa paralisia me deu respostas, me deu visões sobre coisas que às vezes nem se passam na cabeça das pessoas ou elas precisam de tempos e tempos numa terapia pra isso, foi um sonho com respostas e revelações, mas que ele custou caro ele custou. Levei uns dois dias pra me recuperar, o corpo entrou num estado de cansaço simplesmente horrível.
Talvez esse foi o preço de saber o que é ser arrebatado e ser trago de volta.
Talvez esse foi o preço de saber que no fim não é porque algo é instável, problemático e totalmente volátil que as vezes não possa ser lindo, apreciado, único e morbidamente belo.












