Mas a verdade é que eu nem sei por onde devo começar para escrever isso. É simplesmente ridículo, sabe? Eu estou aqui tão chateada, tão usada que quase me esqueço que parte da culpa é minha. Você não pediu nada. Eu ofereci e agora estou me sentindo mal com sua péssima recepção. E a pior parte nem é essa. Juro. Não é. É que eu queria acreditar que seria diferente. Eu já vivi isso tantas vezes que nem sei como consigo fingir que as coisas podem tomar um novo rumo. Como se eu não soubesse onde essa história começa. Como se eu não soubesse exatamente onde ela termina. E ela termina comigo jogada na minha cama, fingindo que estou dormindo quando na verdade tudo o que faço é sufocar lágrimas de culpa, remorso e tristeza no meu pobre travesseiro. E isso tem se repetido ano após ano, numa frequência que ao meu ver cresce de uma forma alarmante e desesperadora. Quer dizer, desesperadora para mim que estou sentindo tudo isso. É como um furacão que vai crescendo aos poucos. Começa numa brisa que não tem força para mover uma folha sequer e quando dou por mim já está arrancando telhados e levando casas embora. Para longe. E você vai junto. E enquanto você voa, sem nenhum medo, sem nenhum pudor, sem nenhuma tentativa de ficar, eu fico e aos poucos transformo a marola mansa e confortável da minha vida, num tsunami incontrolável de lágrimas, que me afoga segundo após segundo. Mas o que me assusta de verdade é dessa vez, eu estou me afundando sozinha. Cada dia, a onda me leva um pouco mais fundo. E não é você que está me empurrando. Você está ali parado, vendo eu me afundar e não faz nada. Não faz absolutamente nada e é isso que me dá raiva. Eu já tentei nadar, já tentei flutuar, já tentei gritar e pedir uma boia, mas só o que consigo é ficar a deriva. Esperando. E não posso sair disso. Não vejo uma forma de sair disso. De repente não tenho mais forças sequer para tentar uma braçada. Me sinto tão pesada, que me falta coragem até para sair do lugar. Não quero mais lutar, não quero mais ficar me esforçando sendo que no final eu sempre vou entregar os pontos para você. Talvez seja melhor desistir de uma vez e poupar tantas repetições estupidas, absurdas e imprudentes. Como se eu nuca soubesse no que fosse dar! É tão escroto. Eu estou fingindo que aprendi tanta coisa quando na verdade não aprendi porra nenhum! E eu não estou brincando não. Eu me sinto sentada numa poltrona improvisada com tabuas que ameaçam a cair a qualquer segundo, assistindo uma mórbida repetição de nossa história: encontro, partida, reencontro, briga, partida, encontro, afastamento, briga, chegada, partida... num ciclo infinito que sempre chega ao mesmo lugar: lágrimas que ferem e perfuram toda vez que caem. Olhos ardendo de lágrimas que já não existem mais para serem choradas. Olhar perdido tentando encontrar o seu, tão longe. E uma letargia tão grande que a vontade é não me mover nunca mais. E talvez seja exatamente isso que faço. Estou sentada no lugar mais desconfortável do mundo, assistindo amargamente minha vida correr diante de meus olhos, como um filme que já vi um milhão de vezes, mas não tenho força para mudar de canal e muito menos me levantar e me tornar a atriz principal. Eu nunca levei jeito para ser a principal. Sempre preferi ser a roteirista, a diretora. Mas nem pra isso estou prestando ultimamente, e só me resta assistir a peça de mal gosto que eu mesma me coloquei e me recuso a me tirar, talvez porque se eu desligar o filme, se eu abaixar a cortina, eu simplesmente acabe. Se já é tão ruim ficar amortecida analisando essa morbidez toda, o que vou fazer se eu não tiver o que ver? Não é desligar o filme que vai me curar de todas as minhas tristezas e me afastar de todos os tornados e todos os tsunamis que vivo desde que te conheci. Desligar esse filme só vai fazer com que o mar profundo no qual me vejo perdida me trague definitivamente para dentro de um poço sem fundo no qual eu me perderia para sempre. Talvez eu devesse lembrar que eu não sei nadar antes de pular com tudo no mar. Ainda que esse mar seja você. Ainda que a onda que me afoga toda vez que acordo seja você. Eu nãos ei nadar e sinceramente não me consigo ver querendo aprender. Mas também não quero aprender a andar de bicicleta, e nem fazer caminhada, o que faz de mim uma sedentária de carteirinha, o que na minha mente deturpada depois de tantos anos vendo essa mesma porcaria de filme, me dá o direito de permanecer sentada vendo minha vida indo por agua abaixo toda vez que você reaparece das suas cinzas. Não, espera! Minha vida não vai por agua abaixo quando isso acontece, porque eu simplesmente não tenho mais vida alguma, seja com você presente ou não nessa encenação que eu tenho a cara de pau de chamar de vida. Ouvindo-me enquanto dito esse texto para mim mesma, parece que eu tenho todo o controle da situação. Nem parece que meus dedos estão doendo de martelar com tanta foça essas teclas, e eu me pergunto por que estou fazendo isso, se detesto produzir meus sentimentos numa tela de computador e chego a uma resposta causticante: você não me respondeu e eu estou completamente devastada por isso. Não espera de novo! Não foi isso. Você me respondeu sim, um “ok” as 11h30 da noite, e teoricamente deveria continuar me dizendo alguma coisa quando acordasse hoje, independente de ser as 8, as 12 ou as 4 da tarde. Mas isso não aconteceu, como eu bem sabia que aconteceria, pois como eu disse, faz anos que eu olho para a mesma história se repetindo debaixo do meu nariz e, bem, é isso, a história apenas se repete. Vez atrás de vez. E eu sabia que você não falaria nada daquilo que eu queria ouvir. Você sempre foi assim e não seria agora que haveria de mudar. Não por alguma razão que esteja ao meu alcance de entender pelo menos. E só para piorar tudo, enfiei na cabeça que não devo ir atrás para não te irritar. Caralho! Agora estou gritando comigo mesma: O que me tornei? E a resposta que tenho é que eu não sei! Não sei mais que diabos estou fazendo aqui sentada, escrevendo tudo isso, com a maior expressão de derrotada do mundo, só porque você não me respondeu uma mensagem, aliás, ressalva: não me enviou uma mensagem. Isso porque era justamente o que eu já estava esperando que fosse acontecer. Ah, merda, tá bom vai! Bem no fundo eu tinha esperança de que por algum milagre você resolvesse falar comigo, mesmo quando tudo gritava que não. E de certo, se eu tivesse aprendido alguma coisa nesse tempo, essa alguma coisa, seria: não tenha expectativa alguma! Principalmente quando se trata de você. Porque você é o maior destruidor de expectativas do mundo. Principalmente se tratando das minhas. E sabe o que mais me deixa com raiva? É que por mais que eu saiba que você não vai aparecer, eu continuo olhando para o celular de canto de olho, com a expectativa de que pisque um led roxo, indicando uma simples mensagem. Coisa que não vai acontecer, se bem te conheço. Mas cá estou me torturando por uma mensagem quando eu deveria, eu mesma, pegar o celular, digitar meia dúzia de palavras e voilá! Mandar eu mesma a porcaria da mensagem. O problema é que você pode ser escroto o suficiente para não responder. E aí sim o vórtice de sucção que tende a me puxar pra baixo, vai me arrastar de vez, porque então eu vou estar de frente para a repetição mais devastadora de todas. A mais repugnante e que teve como resultado um longo afastamento, que nem sequer foi sanado devidamente, porque diga se de passagem, um encontro acidental de menos de cinco minutos não é uma sanção do nosso afastamento. Nem um monte de mensagens picantes. É só um tipo de remendo, pra algo que não tem conserto. Não chega nem a ser uma medida paliativa. E apesar de tudo o que grita que não devo ir atrás, a força que me impulsiona a tentar mais uma vez é grande demais. E eu já sequer saberia o que dizer. Porque simplesmente não há muito que eu possa dizer. Afinal porque haveria? O que eu deveria fazer não é sair por ai brincando de te procurar vez atrás de vez porque você ainda não é homem o bastante para assumir uma postura e dizer “eu quero você” ou “eu não quero você”. O que eu deveria fazer é bem mais simples, na teoria. Eu deveria apagar todas as suas mensagens, nunca mais te procurar, nunca mais te mandar uma foto, nunca mais te ligar, nunca mais fazer nada que te dê uma pequena pista, uma pequena intenção do quanto eu preciso de você. Eu devia desaparecer de sua vida, até o momento que você provar que se tornou suficiente maduro para merecer minha atenção. Mas eu simplesmente não conseguiria aturar isso. A simples ideia de esperar que você retorne quando brigamos já é horrenda demais para aceitar com facilidade. O que me joga mais uma vez naquele improviso de poltrona, vendo morbidamente nossa pseudo-história. Eu deveria esquecer que você existe e ignorar totalmente sua existência até você provar que realmente merece um quarto da atenção e do tempo que dispenso a você cada dia de minha vida, ainda que seja só por pensamento, já que isso é muito mais do que você faz por mim, garanto. Mas acontece que eu te amo. Não posso negar, Não consigo seguir negando, embora é o que tenho tentando fazer a mais de um ano, quando eu finalmente me dei conta de que nunca poderíamos ter uma verdadeira história de amor,. Quando me dei conta de que você não me ama o suficiente, se é que ama. Então eu venho negando, dia após dia, não só para você, como tento faze-lo aos olhos de todos, mas eu sei que não é assim que funciona. Eu sei que todos sabem o quanto eu ainda gosto de você, o quanto eu ainda preciso de você embora eu tente negar com todas as minhas forças. Mas essa negativa não engana ninguém além de mim mesma. Não engana nem você, porque por mais que eu deseje que você esqueça o quanto de vezes eu disse “eu te amo”, eu sei que você percebe nas menores atitudes, e até num “oi”, que as vezes você é a única coisa que me mantem respirando. É ridículo. É estupido. E eu pareço uma pré-adolescente falando. Depois de todo esse tempo sofrendo com as dores desse amor, eu não aprendi nadinha e estou me saindo pior que uma menininha de 10 anos. Eu me sinto horrível. Um lixo. E sabe por quê? Porque eu não aprendi ser mulher ainda. Tão inteligente, tão eficiente, leitora incansável, responsável, decidida na vida acadêmica e religiosa. Mas não aprendi a lidar com os homens. Pior: não aprendi a lidar com você, mesmo depois desses longos 4 anos de idas, vidas, encontros e partidas. E isso é frustrante. Não que você se saia muito melhor, uma vez que nesses quatro anos, você também não aprendeu a lidar comigo tão bem quanto acha que lida. Porque se tivesse aprendido, nossa história daria um pouquinho mais certo. Você pode até me conhecer bem, mas isso é porque você era um observador melhor do que fui todo esse tempo, mas agora estou aprendendo a observar você. Pouco a pouco. E cada vez me decepciono mais com o que vejo. Mas ainda assim, não adianta eu prometer para mim mesma que irei te esquecer, que irei te ignorar e tantas outras coisas. Porque serão todas promessas vazias, que eu farei questão de esquecer assim que você disser oi. Porque no momento que você colocar seu olhar sobre mim, eu vou derreter cada centímetro de gelo que deixei criar em torno de mim e do meu coração. Cada bloco do muro que ergui para proteger meu coração vai sair como magica e por fim minha armadura irá despedaçar. E então eu estarei entregue de novo. Despida de qualquer proteção, de qualquer vergonha e de qualquer lembrança, só para me entregar nas mãos da única pessoa que não sabe cuidar de mim, e que vai me jogar no meio da tempestade sem um guarda-chuva. E ainda assim eu volto. Como uma estupida. Mas eu não consigo mudar isso. Não tenho força para trocar de canal. Mas talvez, pensando bem, eu não precise. Eu posso continuar assistindo ao mesmo filme. E eu não preciso ser a personagem principal, uma vez que nunca foi isso que eu quis para mim. Talvez eu possa simplesmente, pegar um caderno e uma caneta. Ou talvez me esforçar um pouquinho para trazer o notebook até aqui, só para me tornar aquilo que eu sempre desejei ser, porque se teve alguma coisa que eu aprendi nesse tempo todo, foi escrever, e se eu ainda posso ao menos fazer isso, não vai ser você e sua estupidez infinita que vai me impedir de ser a escritora da minha própria vida, mesmo que isso signifique falar de você em todos os capítulos.
Eu não recebi nenhuma mensagem e não sai do lugar, mas eu finalmente descobri quem eu realmente tenho que ser. Vampira-de-Palavras.













