Demorou um tempo para que as pessoas percebessem. Alguns anos repetindo a mesma coisa, até que esta coisa finalmente fica em pauta, por um caso grave (porém não único) envolvendo esta discussão.
Criminosos existem - assassinos, ladrões, estupradores, pedófilos etc -, disto eu sei, mas eu nunca soube (ou escolhi por nunca acreditar) que alguns deles estão soltos, por aí, inocentados pela nossa justiça.
No começo deste mês de novembro, nos deparamos com um caso de uma mulher, vítima de estupro, que teve o homem à quem ela acusava inocentado, duas vezes (em duas instâncias), no tribunal. Esta mesma mulher, aos prantos, ansiosa enquanto relatava a sua versão dos fatos ao juiz, foi acusada de falsidade pelo advogado do réu - o réu que era um potencial estuprador.
O que mais me irrita não é o fato de que - pelo que vimos pelas cenas vazadas pelo Intercept - um advogado pode recorrer aos meios mais baixos e desprezíveis em prol da defesa de seu cliente, chegando até a desmoralizar a vítima em frente ao tribunal. O que me irrita é que hoje, após duas tentativas falhas de culpar um homem que, na melhor das hipóteses, praticou o ato sexual com uma mulher sem o consentimento e a vontade da mesma, e que na pior drogou-a e estuprou-a em seguida; o que me irrita é que este homem está solto, andando pelas ruas da cidade em que mora e frequentando as mesmas festas que frequentou quando praticou aquilo que, na primeira instância, levou-o ao tribunal. O que me incomoda é que temos um estuprador (ou, se preferir, potencial estuprador) solto por aí, pronto para cometer outro crime - ou seja lá como você chama aquilo que ele fez.
Não sou mulher, não tenho medo, não por mim, mas o tenho pelas pessoas que eu conheço, que saem de sua casa esperando ter uma noite normal (ou um tanto divertida) e se deparam com uma questão. Uma questão que, hoje, eu não posso negar que exista na mente de todas as mulheres que saem, por qualquer que seja o motivo, de suas respectivas casas: Será que este homem é um deles?
Digo, em uma sociedade na qual libertamos criminosos sexuais, ou, se não os libertamos, banalizamos o crime até que ele seja digno de ser mais um a ser posto nos arquivos, mais um para ser esquecido. Em uma sociedade como esta, porque não uma mulher se questionaria (com tantos criminosos a solta) se ela vai ser a próxima vítima?
Não escrevo este artigo por raiva, mas sim por medo. Medo de que, no decorrer desses dias, a vítima não seja somente uma mulher que vi apenas na tv, ou na internet, mas que seja uma pessoa próxima à mim, que eu ame e que eu conviva com; minha irmã, talvez, minha mãe?
Peço para que todos reflitam sobre a real natureza desta situação, e que ignorem toda e qualquer forma de tentativa de banalização do caso. Porque, caso banalizemos, caso não fizermos nada a respeito, provavelmente algum dia, algum de nós, terá uma pessoa próxima à si como uma vítima de algo similar ao que aconteceu à Mariana Ferrer (e acredite em mim, eu torço para que isto não aconteça); e, quando este dia chegar, eu aposto que vocês irão clamar por justiça. Tal qual faz a Mariana, tal qual faz a família dela.