Literatura e Consciência Negra: 5 autoras e protagonistas para o 20 de novembro
Mudando um pouco o foco do ano passado, quando indiquei cinco filmes para refletir sobre a data, mas sem perder o que importa, trouxe hoje a indicação de cinco livros escritos por mulheres negras e com protagonistas negras. Tem pra sorrir, pra suspirar, pra se emocionar, pra se revoltar e pra roer as unhas!
Uma União Extraordinária (An Extraordinary Union)
Sinopse: Enquanto a Guerra da Secessão assola os Estados Unidos, num embate entre União e Confederação, uma corajosa dupla de espiões mergulha de cabeça na missão mais perigosa de suas vidas: lutar contra ignorância, mentiras e ameaças para criar um mundo melhor e quebrar as correntes do passado… Elle Burns é uma ex-escravizada com uma paixão por justiça e um talento único. Como uma agente da Liga da Lealdade, ela deixa para trás sua vida de liberdade e retorna ao Sul e ao seu indigno sistema de escravidão… para coletar informações para o Exército da União. Malcolm McCall é um detetive do Serviço Secreto de Pinkerton. Ele tem um dom para subterfúgios e um charme capaz de conquistar tanto nortistas como sulistas, mas está prestes a adentrar a missão mais perigosa de sua vida: se infiltrar como um agente duplo entre os confederados.
Quem me conhece sabe o quanto eu AMO romances de época. E quem ama romances de época sabe que esse é um mundo dominado por mulheres brancas (até aí nenhuma novidade). A adaptação da série de RdE mas famosa do mundo literário, Bridgerton (da Netflix), até anda tentando trazer mais representatividade para as telas, como eu comentei no meu post sobre a primeira temporada, pois é claro que o protagonismo, aliás, creio que o cenário todo, é dominado também por personagens brancos. Assim sendo, a estadunidense Alyssa Cole é uma das primeiras autoras negras do gênero a ser traduzida por aqui. E foi com muita alegria (mas nenhuma surpresa) que eu constatei que ela não perde em absolutamente nada para as autoras mais conhecidas e amadas do gênero.
Uma União Extraordinária é romântico (sim, muitos e muitos suspiros), sexy e traz uma das protagonistas mais maravilhosas que já tive a oportunidade de conhecer. Só de lembrar da sagaz Elle Burns meu coração se enche de orgulho, como se fôssemos de fato amigas. Queria guardá-la num potinho. Aliás, guardá-los, porque seu mocinho, Malcolm McCall, é apaixonante demais. Um Cavalheiro com C maiúsculo e totalmente digno dela! Mal posso esperar para ler os outros livros dessa série (que, acredito eu, pode até ser lida fora de ordem, como é comum nos RdE) e conhecer mais da história (um pouco repaginada) dos EUA pelas mãos da Alyssa!
No Fundo do Poço (In The Ditch)
Sinopse: Adah tem que criar e sustentar sozinha os cinco filhos, vivendo no subúrbio de Londres, em um lugar que ela chama de "o fundo do poço". Tentando manter seu trabalho diário e suas aulas noturnas em busca de um diploma, ela se vê às voltas com o serviço de assistência social, que lhes classifica como "família problema". É onde Adah encontra uma causa comum com seus vizinhos brancos da classe trabalhadora e sua luta contra um sistema social que parece destinado a oprimir todas as mulheres.
Terminei essa leitura ainda esses dias e foi meu primeiro contato com a nigeriana Buchi Emecheta (1944-2017). Ela narra com maestria as dores de Adah e, talvez eu esteja falando abobrinha, mas, me senti lendo uma versão “mais leve” de Quarto de Despejo, da Carolina Maria de Jesus. Acho que eu esperava um desenvolvimento mais dolorido. E não que não seja, mas Adah, tão jovem e entusiasmada, passa uma esperança maior para o leitor. É essa mulher quem carrega e equilibra o peso dessa história que, tristemente, é mais comum do que qualquer outra.
O Crime do Cais do Valongo
Sinopse: Um corpo amanhece em um beco, envolto em uma manta e com pequenas partes cortadas. O enredo, que começa em Moçambique, vem parar no Rio de Janeiro, mais exatamente no Cais do Valongo. O local foi porta de entrada de 500 mil a um milhão de escravizados de 1811 a 1831 e foi alçado a patrimônio da humanidade pela UNESCO em 2017. A história acontece no início do século 19 e é contada por dois narradores — Muana e Nuno — que conviveram com a vítima: o comerciante Bernardo Vianna.
Esse livro conta com o ponto de vista não apenas de um, mas de dois personagens. A carioca Eliana Alves Cruz entrega absolutamente tudo nesse romance policial único e autêntico (é ler pra entender) e que, além de trazer vários acontecimentos históricos, ainda nos apresenta personagens maravilhosos, como é o caso de Muana Lomuè, escravizada trazida de Moçambique que trabalhava para o falecido e que tem um fantástico dom.
Detalhe: os direitos dessa obra foram adquiridos para o cinema, então creio que em breve, teremos essa trama incrível nas telonas! Ansiedade que fala, né?
Maréia
Sinopse: Histórias aparentemente independentes se cruzam na brutalidade da experiência colonial forjada na mentira, no logro e no ganho financeiro e social de um grupo de personagens; mas também na luta, resistência e crença na força e vitória da cultura por parte de outro grupo. Assim, o romance nos leva à história dos Menezes de Albuquerque, mas principalmente da família de Maréia, personagem que dá título ao romance. Nos leva à história do processo de enriquecimento de famílias brancas que com violência e brutalidade ascenderam e conquistaram prestígio na sociedade brasileira – uma metonímia para o processo de escravização impetrado em todos países da afro-diáspora. Porém, enfaticamente, nos leva a conhecer a tradição de um grupo de afrodescendentes que foi zelosamente compartilhada para não ser esquecida.
Essa obra traz mulheres fortes e tradições preservadas. Somos apresentados não só à protagonista Maréia, mas às mulheres de sua vida, com quem possui uma ligação muito forte: sua mãe Tânia, sua avó Déia e sua tia Caciana. Temos também muita representatividade e História através de elementos sublimes e fantásticos, além de alternar entre passado e presente para que, digamos, um equilíbrio seja encontrado. Tudo isso belamente elaborado e desenvolvido pela paulistana Miriam Alves.
Reticências
Sinopse: Davi e Joana se conheceram online e, desde que se falaram pela primeira vez, não conseguiram mais parar. Os dois passam madrugadas conversando, assistem a filmes juntos, desabafam sobre o dia a dia e discutem questões existenciais. O único problema é que eles não sabem a verdadeira identidade um do outro. Para Davi, Joana é @vidaspretas, a ilustradora incrível com quem entrou em contato para um trabalho. Para Joana, Davi é o @caradaprefeitura, que mandou mensagem convidando-a para uma campanha de Dia da Consciência Negra. Tudo o que sabem um sobre o outro (e tudo o que importa) é que se gostam e estabeleceram uma conexão real, possível apenas porque o anonimato da internet permitiu que não tivessem medo de se abrir. O que eles não sabem, no entanto, é que estão muito mais próximos do que imaginam...
Essa comédia romântica xuxuzinha da santista Solaine Chioro já tem resenha. É só clicar aqui pra conferir o que eu achei! ;)
Cinco histórias escritas por mulheres negras, apresentando e representando mulheres negras! Para mim a representatividade é tão importante quanto a militância e eu venho tentando expandir meus horizontes (e os de quem me cerca, já que estão todos os livros aí em futuras listas de presentes hehe) lendo, indicando e divulgando leituras que não têm o devido reconhecimento.
Que possamos refletir e sonhar com um mundo melhor!















