Existência de pirâmides na Amazônia é finalmente confirmada pela arqueologia oficial: A descoberta de cidades perdidas em Llanos de Mojos, na Bolívia
Por Cláudio Tsuyoshi Suenaga
Uma rede de antigas cidades perdidas de arquitetura monumental no sudoeste da Amazônia que ficaram escondidas sob as copas das árvores da floresta por séculos, foi revelada por escaneamento a laser.
A variedade de “assentamentos intrincados” foi detectada na floresta de savana de Llanos de Mojos (também conhecida como Llanos de Moxos ou Savana de Beni), na Bolívia, por pesquisadores da Alemanha e do Reino Unido.
Um mapa da Bolívia destacando a localização de Llanos de Moxos.
As cidades, que foram construídas por pessoas das comunidades Casarabe que ocupavam as planícies amazônicas (uma mistura de savana e florestas dispersas) entre 500 e 1400 d.C., apresentam uma série de estruturas elaboradas bem diferentes de qualquer outra descoberta anteriormente na região.
Eles incluem terraços de cerca de 4,80 metros de altura que abrangem uma área de mais de 2,7 mil metros quadrados ou cerca de 22 hectares – o equivalente a 30 campos de futebol –, complexos montes monumentais conhecidos como lomas (montículo artificial de terra do período pré-colombiano típico da região das planícies de Moxos, na amazônia boliviana e recorrente em muitas áreas das selvas tropicais baixas da América do Sul), hidrovias, uma vasta rede de reservatórios, calçadas e postos de controle que se estendiam por muitos quilômetros, estruturas cívico-cerimoniais construídas em forma de U e pirâmides cônicas maciças cobertas com pequenas plataformas, cada uma com cerca de 21 metros de altura (equivalentes a prédios de oito andares).
Linha de contorno usada para cálculo do volume da área central / P52/ DAI /Nature.
De acordo com o líder da equipe de pesquisadores, o alemão Heiko Prümers, arqueólogo do Instituto Arqueológico Alemão, esses assentamentos eram ligados por calçadas elevadas de até 10 km de comprimento que cortavam a savana. “Eles estão integrados em uma rede de estradas e canais. Isso implica um grau de cultura que nunca se imaginou existir na Amazônia antes.”
Diferentemente da cultura Inca, que usava rochas andesitas ou arenito para construir seus monumentos, a arquitetura Casarabe era feita de terra, areia e lodo que os construtores modelavam.
Para espiar através do dossel da floresta tropical, a equipe de pesquisa usou um método de sensoriamento remoto baseado em laser conhecido como LiDAR, ou “Light Detection and Ranging” (Detecção de Luz e Varredura). O LiDAR é uma tecnologia óptica de identificação remota que mede propriedades da luz refletida de modo a obter a distância e/ou outra informação a respeito de um determinado objeto distante, ou seja, que funciona um pouco como um sonar, enviando feixes de luz e cronometrando quanto tempo leva para a luz refletida retornar ao receptor para criar um mapa 3D da área alvo.
Assim, os cientistas foram capazes de penetrar na vegetação densa que onde a maioria dos especialistas acreditavam não haver sociedades sofisticadas até a chegada dos colonizadores europeus no século 16.
“Este é o primeiro do que espero ser uma enorme série de estudos que vão estourar a tampa de preconceitos sobre como eram as politizações pré-hispânicas na Amazônia em termos de sua complexidade, tamanho e densidade”, disse Chris Fisher, arqueólogo da Universidade do Estado do Colorado que escreveu um editorial acompanhando o estudo.
Segundo Fisher, considerava-se que a ocupação humana pré-hispânica da área era caracterizada por pequenos grupos com desenvolvimento social limitado e sistemas agrícolas. “Mas esses locais estão ultrapassando os limites do que chamamos de cidades.”
De acordo com os arqueólogos, a escala do planejamento e da mão de obra necessária para construir os assentamentos não tem precedentes conhecidos na Amazônia – e, em vez disso, é comparável apenas aos estados arcaicos dos Andes centrais.
Capturas de tela de ilustração de um dos assentamentos, o Cotoca. P52/ DAI /Nature.
Mark Robinson, da Universidade de Exeter, disse que o “traçado arquitetônico dos grandes assentamentos da cultura pré-colonial Casarabe indica que os habitantes desta região criaram uma nova paisagem social e pública.”
Na década de 1960, os geólogos e geógrafos das companhias petrolíferas William Denevan foram os primeiros a divulgar a existência de extensas obras de terraplenagem pré-históricas construídas na Amazônia, especialmente nos Llanos de Mojos. Mas até a perscrutação do LiDAR, apenas 14 assentamentos Casarabe eram conhecidos pelos arqueólogos. O estudo adiciona dois grandes assentamentos junto com 24 menores ao registro.
Para a pesquisa, feita em 2019, os autores utilizaram um helicóptero dotado de equipamentos LiDAR para escanear seis regiões, totalizando 124 metros quadrados, no Departamento de Beni, uma área a nordeste da capital boliviana La Paz.
Esse esforço revelou um total de 26 assentamentos em detalhes sem precedentes, incluindo 11 que antes eram desconhecidos.
À medida que as cidades foram construídas, acrescentaram os pesquisadores, as comunidades Casarabe dos Llanos de Mojos transformaram savanas amazônicas sazonalmente inundadas do tamanho da Inglaterra em paisagens agrícolas e aquícolas produtivas nas quais cultivavam milho e outras lavouras, além de se dedicarem a atividades como caça e pesca.
“Durante o final do Holoceno, os agricultores pré-hispânicos em Llanos de Mojos, transformaram as savanas amazônicas mais extensas e sazonalmente inundadas em paisagens agrícolas e aquícolas produtivas com uma diversidade aparente na organização sociopolítica, sistemas de controle hídrico e bases econômicas”, escreveram os pesquisadores.
A equipe escreveu ainda que a região foi “uma das primeiras ocupadas pelo homem na Amazônia, onde as pessoas começaram a domesticar culturas de importância global, como mandioca e arroz. Mas pouco se sabe sobre a vida cotidiana e as primeiras cidades construídas durante esse período.”
“O sistema de assentamento da cultura Casarabe é uma forma singular de urbanismo agrário tropical de baixa densidade — até onde sabemos, o primeiro caso conhecido para toda a planície tropical da América do Sul”, finalizaram.
Além da sociedade Casarabe, também existiam os povos Cotoca e Landívar, entre outros – o que já era de conhecimento de arqueólogos. No entanto, o novo estudo trouxe um fator surpresa, que é o tamanho e a arquitetura elaborada de muitos dos assentamentos.
O professor José Iriarte, da Universidade de Exeter, escreveu: “Há muito tempo suspeitamos que as sociedades pré-colombianas mais complexas de toda a bacia se desenvolveram nesta parte da Amazônia boliviana, mas as evidências estão escondidas sob o dossel da floresta e são difíceis de visitar pessoalmente. Nosso sistema lidar revelou terraços construídos, calçadas retas, recintos com postos de controle e reservatórios de água. Existem estruturas monumentais [cada uma] a apenas uma milha de distância, conectadas por 600 milhas de canais – longas calçadas elevadas conectando locais, reservatórios e lagos. A tecnologia Lidar aliada a uma extensa pesquisa arqueológica revela que os povos indígenas não apenas manejaram as paisagens florestais, mas também criaram paisagens urbanas, o que pode contribuir significativamente para as perspectivas de conservação da Amazônia. Esta região foi uma das primeiras ocupadas pelo homem na Amazônia, onde as pessoas começaram a domesticar culturas de importância global, como mandioca e arroz. Mas pouco se sabe sobre a vida cotidiana e as primeiras cidades construídas durante esse período.”
Várias outras questões ainda precisam ser respondidas, como de maneira esses povos desenvolveram uma tecnologia tão sofisticada e por que simplesmente abandonaram os assentamentos abandonados antes da chegada dos espanhóis. Desde então, as estruturas sofreram erosão e foram cobertas por vegetação, mas ainda estão de pé e parte delas foi visitada pelos arqueólogos.
Pesquisadores caminham sobre os remanescentes da pirâmide de 22 metros do sítio de Cotoca, hoje cobertos pela vegetação. Foto: Heiko Prümers.
As descobertas se somam a evidências crescentes, como os geoglifos encontrados na região sudoeste da Amazônia Ocidental, mais predominantemente na porção leste do estado do Acre, que desafiam a noção de longa data de que a ocupação humana na Amazônia Ocidental era escassa.
A descoberta da arquitetura monumental dos Casarabe enterra de vez a ideia de uma Amazônia incapaz de sustentar ocupações densas ou sociedades complexas no passado, a qual foi predominante entre os arqueólogos até há pouco, fruto em parte de trabalhos conduzidos pela arqueóloga norte-americana Betty Meggers (1921-2012) e por outros colegas.
E nem sequer é a primeira vez que pesquisadores acham assentamentos parecidos com cidades na Amazônia. Em 2008, em um trabalho feito em parceria com colegas brasileiros e norte-americanos, o arqueólogo Michael Heckenberger, da Universidade da Flórida, identificou no Alto Xingu o que eles chamaram de uma forma de “urbanismo amazônico pré-colombiano”. Dentre os indícios encontrados por eles estavam centros cerimoniais com grandes praças que eram conectados por estradas a vilas muradas e aldeias.
E embora se evite mencionar isso, o fato é que essas descobertas vêm a confirmar que os velhos "mitos" a respeito de cidades perdidas (como Eldorado, Paititi e Muribeca) e pirâmides na Amazônia, propalados desde a época da chegada dos primeiros europeus e que estimularam a imaginação e cobiça de tantos exploradores até mesmo recentemente, como a do coronel Fawcett, eram verdadeiros. Ou seja, a arqueologia acadêmica oficial, que nunca acreditou que pudesse ter havido um assentamento na floresta tropical amazônica e relegava ao limbo qualquer um que afirmasse ter sido ela ocupada por sociedades complexas no passado, agora colhe os louros, um tanto injustamente.
O livro do coronel Percy Harrison Fawcett, A Expedição Fawcett, compilado de seus manuscritos, cartas, diários e registros por Brian Fawcett (Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1954), que você pode baixar aqui, já trazia um mapa da Bolívia assinalando o percurso feito pelo explorador na região do Planalto ou Planícies de Mojos.
Fawcett e outros que sucumbiram em seu encalço, não dispunham da tecnologia avançada que temos hoje e que está revolucionando a compreensão da história humana em áreas como a Amazônia e outras regiões remotas e inacessíveis do planeta. Não tenho dúvidas de que muitos outros daqueles "mitos" e "lendas" do passado virão a ser confirmados nos próximos anos como relatos palpáveis e factíveis e deixarão o campo meramente imaginário para ingressarem no patamar a que sempre pertenceram: o da arqueologia histórica.
Espero que a esse patamar também sejam elevados, ainda que tardiamente, todos aqueles que um dia foram ridicularizados e tiveram suas reputações e até vidas destruídas pela ousadia em defender o que agora que está mais do que comprovado, ou seja, de que sociedades complexas podem se desenvolver em ambientes tropicais tanto quanto em qualquer outra parte do mundo.
Leia aqui o artigo científico "Lidar reveals pre-Hispanic low-density urbanism in the Bolivian Amazon", de autoria de Heiko Prümers, Carla Jaimes Betancourt, José Iriarte, Mark Robinson & Martin Schaich, publicado na edição de 25 de maio de 2022 na revista Nature [606, pages 325–328 (2022)].
Confira também estas publicações:
Lidar reveals pre-Hispanic low-density urbanism in the Bolivian Amazon | Nature https://doi.org/10.1038/s41586-022-04780-4
Large-scale early urban settlements in Amazonia https://doi.org/10.1038/d41586-022-01367-x
Forgotten Ruins of'Monumental' Amazonian Settlements Discovered in Bolivian Jungle https://www.sciencealert.com/ruins-of-monumental-settlements-uncovered-in-bolivian-jungle
Lasers reveal'lost' pre-Hispanic civilization deep in the Amazon | Live Science https://www.livescience.com/lidar-reveals-pre-hispanic-amazon-settlements











