Luana Barbosa, PRESENTE!
Acho que vale a pena lembrar. Vale a pena jamais esquecer. Por mais doloroso que seja, por mais mórbido que pareça relembrarmos uma a uma, se não o fizermos, quem fará? Se não forem as lésbicas a se atentarem à violência e às injustiças empregadas contra nossa existência, quem se atentará? Nem ao menos temos pesquisas oficiais que dizem a nosso respeito: que buscam saber o que ocorre conosco neste país. Para que tivéssemos um dossiê a respeito do lesbocídio no Brasil, foi necessário que um grupo de lésbicas se auto-organizasse e fomentasse, com muito trabalho e esforço redobrado, esse material. E é por isso, sapatonas... é por isso que eu insisto em escrever, em ilustrar. Uma a uma. Quantas eu puder. Porque eu não quero que elas sejam esquecidas...
Tantas manchetes, fotos da tragédia: espancada, enfim assassinada, por simplesmente ter exigido seus direitos. Esses psicopatas da PM, além de lesbofóbicos, duvidaram de Luana quando esta afirmou: sou mulher e não serei revistada por um homem. Humilhação. Ela mostrou os seios e, ainda assim, não foi o suficiente. A punição por exigir um direito muito simples e corriqueiro em qualquer procedimento de revista foi a morte. Sentenciada injustamente. 20 de Abril de 2016. Sentenciada pela lesbofobia, pelo racismo, pela negação da existência duma sapatão negra que se recusa a performar a feminilidade... E parece que em nossa sociedade é menos absurdo matar alguém de forma tão covarde e asquerosa do que uma mulher usar roupas masculinas, do que uma sapatão existir na periferia.
Tantos relatos da injustiça, da brutalidade que mais uma lésbica negra e periférica sofreu. E ao aprofundar em sua existência, em tudo o que viveu, em quem foi em vida, parece que a angústia se torna ainda maior. Ainda pior que saber que mais uma sapatão marginalizada pela sociedade racista, heterossexista, fascista em que vivemos, foi alvo de uma covardia tremenda: um grupo de policiais militares lesbofóbicos que a espancaram num nível tão grave, com cacetetes, a ponto de levá-la a um traumatismo craniano que culiminou em sua morte dias depois, no hospital, onde ela resistiu para viver mas não pôde... Ainda pior que isso é saber que se tratava duma sapatão extremamente potente, extremamente corajosa, e que queria, mas queria muito VIVER! Ainda pior é saber que a violência estatal continuou, em sua família, com ela, pois seu pai (que ela não teve a chance de conhecer e carregou pela vida esta dor) foi vitimado, provavelmente, pelas mesmas mãos: as mãos que monopolizam a violência, que se apropriam das armas com um falso discurso de “justiça e ordem”.
Luana era uma lésbica fantástica, combativa, corajosa! Cresceu entre mulheres numa época crítica para as periferias de São Paulo, especialmente para as meninas: os anos 90. Cresceu presenciando o que se vive como menina nesse contexto, convivendo com mulheres cujas histórias eram trágicas: filhos que faleciam um a um no tráfico, assassinados pela polícia, maridos e parentes que as violentavam, espancavam, abusavam; sua irmã relata, em uma entrevista publicada no site Nós, Mulheres da Periferia, a presença crescente de estupros coletivos na comunidade, e o quanto sempre foi complicado ser uma menina na periferia. Mas ainda assim, com uma grande admiração pelo apoio, sem a mínima referência de feminismo ou teorias, que as mulheres eram capazes de dar uma à outra nessa trajetória. Depois da morte “misteriosa” de seu pai, que foi enterrado como indigente vítima de tiros de arma de fogo, Eurípedes, sua mãe, viveu com um conjunto de mulheres que eram acolhidas desse tipo de situação. E as noções de sororidade e confronto ao machismo germinaram logo cedo para Luana.
Luana, então, cresceu com um espírito convicto de autodefesa e de se impor no mundo. Queria EXISTIR! Ela escrevia, era artista: desenhava, gostava de ler, de poesia, gostava de arte, era uma pessoa que amava abrir novos horizontes e amava criar. Uma potência tão grande que se rebelou, que se aliou a gangues de mulheres, que confrontava os homens na rua, que não permitia que sua existência fosse apagada e sufocada pela violência masculina ou alheia.
A lamentação de sua irmã, de que “depois da morte, Luana saiu do isolamento” é tão dolorosa. Dói mesmo saber disso. Dói saber que uma potência dessas não foi conhecida e reconhecida antes, como deveria, na proporção que deveria. Tendo sido detida pela FEBEM por 2 anos de sua vida, por B.O.s de furto e porte de armas, Luana ainda continuou produtiva e criativa: inclusive compôs o corpo de poetas com suas colegas na prisão a obra Direito ao Olhar – Publicar e Republicar, na qual uma de suas ilustrações, eleita uma das melhores, foi incluída. Como sapatão, porém, ainda era sozinha. Namorava, porém creio que não conhecia uma comunidade lésbica sólida. Sua irmã relata também a sensação de solidão que Luana carregava. Teve, até mesmo, um processo de transição, em que se nomeava como Luan, porém destransicionou e passou a se identificar definitivamente como lésbica.
Mal sei como finalizar essa corrente pensante, como contemplar essa existência. Gostaria de ter a conhecido, muito! Uma lésbica periférica e negra nascida nos anos 80, poeta, artista, combativa, imagine! É uma inspiração de longe! Imagine quantos relatos interessantes ela não tinha para compartilhar, quantas coisas incríveis tinha para dizer e pontuar... e foi silenciada, em vida, porém não permitiremos que tais vozes furiosas, lésbicas, rebeldes, sejam definitivamente caladas! Reafirmaremos sua existência quantas vezes forem necessárias! As opressões eliminam tantas, mas jamais deixaremos de existir! Jamais as mulheres negras deixarão de existir e resistir, também! E as ideias, caras e caros: AS IDEIAS SÃO À PROVA DE BALA!
Por Luana, por Marielle, e por tantas outras que serão lembradas e relembradas por mim, por você, por nós.







