Espaço e lugar, síntese do livro de Kátia Canton
Neste livro a autora fala sobre o espaço e o lugar, começando pela diferenciação entre estas duas palavras, citando o sociólogo britânico Anthony Giddens, “espaço” é utilizada genericamente, enquanto “lugar” se refere a uma noção específica do espaço, um espaço particular, responsável pela construção de nossas raízes e nossas referências no mundo. O objetivo é discutir os espaços territorializados da arte, seu lugar físico e simbólico.
Não podemos negar que uma das características da existência de arte, é a ocupação do espaço institucionalizado do museu ou da galeria, os mais conhecidos, e faz um breve histórico de como o museu sofreu modificações ao longo do tempo, com as mudanças da sociedade e as definições de arte:
as primeiras coleções de arte eram privadas e pertenciam a pessoas poderosas e de grande poder aquisitivo.
a primeira coleção pública, o primeiro museu do Ocidente, é o museu do Louvre, inaugurado em Paris, em 1793.
com a arte moderna, demanda um outro tipo de distribuição das obras no espaço, com menos acúmulo, mais respiro entre elas e uma predominância das formas retas e das cores brancas, os chamados “cubos brancos”.
em 1929 foi inaugurado o primeiro Museu de Arte Moderna, o MoMA.
em 1960, particularmente nos EUA, muitos artistas, movidos por um espírito de experimentação, passaram a questionar a institucionalização da arte pelos museus. Na tentativa de transformar o espaço de “fora” em oposição ao espaço de “dentro”, ao museu, um espaço coincidindo com o espaço da natureza, o movimento “land-art”, caracterizando-se como uma arte feita na paisagem, em busca de uma solidão ou meditação em contraponto à urbanização crescente.
Exemplos de land art citados:
Spiral jetty (1970), uma grande espiral de terra e pedra, do americano Robert Smithson;
Lightning fields (1977), composta por campos desenhados pela luz de raios atraídos por desenhos magnéticos, de Walter de Maria;
Double negative (1969-70), de Michael Heizer, que revolveu 24 mil toneladas de terra no topo dos planaltos do deserto de Nevada, demonstrando a potência da atuação humana, gerando, sobre as profundezas da natureza, algo meditativo, espiritual;
Com a land art, o diálogo de artistas com o espaço público gradtivamente expandiu-se e modificou-se. E fala sobre a experiência em São Paulo, do projeto O afeto e a cidade, concretizado durante a inauguração do CCBB, em 2001. Enquanto o interior do edifício recebia a exposição de Tunga, os entornos do espaço do centro cultural, foram trabalhados por um grupo de quatro artistas contemporâneos: Beth Moysés, Pazé, Sandra Cinto e Renata Pedrosa.
“(...) a noção de arte como produtora de sentido, e não apenas como criação estética.” p. 25
Pazé, criou Transeunte, um boneco em látex que é seu alter ego, replicando o artista, manipulado, andando pelo centro de SP, desenvolve um olhar humano, pleno de curiosidade e perplexidade diante dos detalhes silenciosos da cidade.
Sandra Cinto construiu uma cama. A imagem primeira, alude à ideia de conforto, abrigo, proteção. Porém, essa cama tem particularidades bizarras. Comprida e fina, com os pés fincados em pilhas de livros, ela se mostra rígida, desconfortável, construída em bronze. Aponta para a dura realidade daqueles que dormem nas ruas, um tempo em que seres humanos vivem sem teto, sem abrigo. É, ainda um momento meditativo em oposição àquele encontrado no cotidiano lotado e barulhento do centro paulistano. O local primeiro e último, onde nascemos e onde morremos. O lugar do prazer, do gozo, da concepção.
Renata Pedrosa constrói uma forma simples, uma linha curva da altura de um parapeito, chumbada ao chão, Na linha, materializa-se como uma referência afetiva e um espaço de encontro entre as pessoas.
Em sua obra, Mosaico Branco, Beth Moysés une noivas, com seus vestidos brancos numa performance. As peças de um grande fecho eclér, feitas em mármore branco, conduzidas e montadas pelas próprias mulheres, encaixam-se, formando uma grande roda enterrada, visível à altura da calçada. Ao todo sessenta noivas, cada qual abraçada a uma peça, andam pelo centro. Juntas, elas alcançam a área próxima ao mosteiro de São Bento e ali, sobre uma cratera aberta no chão, começam a desgarrar-se de seus pedaços de pedra para uma a uma, compor uma ciranda, uma guirlanda de cacos de mármore que se unem em encaixes perfeitos.
“No emaranhado disperso da vida cotidiana, afinal, procuramos o eu através do outro, rastreamos nossas histórias e abrimos nossos diários íntimos na tentativa de nos oferecer verdadeiramente para o mundo. É essa troca genuína de memórias e de sentidos que buscam os artistas contemporâneos.” p.35
Em seguida, temos uma entrevista com a artista Sonia Guggisberg, que criou as Bolhas Urbanas, grandes recipientes de PVC preenchidos com toneladas de água. Cheios, os recipientes transformaram-se em grandes bolhas que, a partir de 2005, foram estrategicamente colocadas em locais abandonados ou “adoecidos” da cidade, como exemplos de uma arte pública contemporânea. A artista conta sobre a necessidade do artista de sair, de tomar o espaço público urbano, de ter a liberdade de atuar pelo mundo.
Depois, a autora Kátia Canton fala da relação espaço público-espaço privado, onde diz que esses dois conceitos parecem se inteceptar o tempo todo. “A ideia de privacidade, por um lado, se esgota num mundo em que todas as informações se mostram disponíveis ao público.” (p.42) A intimidade é colocado ao públioco, como exemplo das revistas Caras, Gente e Quem e os programas televisivos Big Brother e A fazenda. Por outro lado,espaços públicos como parques, praças são abandonados pelo medo, maltratados, sujos, ignorados. O grafite então, “é um dos modos mais eficientes encontrados por alguns artistas para furar esse paradigma.” (p. 43) Sua origem histórica vem da origem do ser humano e da história da arte, já que existem registros de sua cultura nas paredes das cavernas e na civilização egípcia. Desde os anos 1980, vem acompanhada da noção de rebeldia, sobretudo à crescente manifestação da cultura negra norte-americana e do hip-hop, revelando nomes como Keith Haring (1958-1990) e Jean-Michel Basquiat ( 1960-1988). A referência de hoje, traz os códigos da pichação em pontos da cidade nunca imaginados, num poder de alcançar o que normalmente não é alcançado. O grafite propõe uma experiência de estética e fluidez, por ser uma arte em movimento, que vai se modificando com o dia-a-dia da cidade. Nessa linha, a autora entrevista o arquiteto e urbanista Sergio Leal que realiza há alguns anos uma pesquisa sobre os grafites da cidade de São Paulo, ele fala sobre a “explosão do grafite”, a partir dos anos 2000. Fala também sobre o modo ilegal, a pichação (escritos que são desenvolvimentos de letras, como uma tipografia, que é mais uma linguagem de entendidos), feitas em grupos, em gangues, sendo como uma forma de protesto de pessoas que estão excluídas de algum modo. Fala que o grafite além de ser admirado por todas as idades, ele propõe um resgate do espaço público para si, que se rebela contra a violência urbana, do mal uso do espaço, descuidado e sujo. E hoje, artistas que começaram em uma linguagem de periferia, estão com status de celebridades, onde as galerias de arte absorvem desses artistas que talvez queiram passar a mensagem de reocupar, reavivar. “É a contribuição sociológica dos grafiteiros para todos nós.” fala Sergio Leal (p.49)
Na pág. 51, Stuart Hall, no livro A identidade cultural na pós-modernidade, fala sobre a cultura global e sua tendência à homogeneização. Ele fala que “quanto mais a vida social se torna mediada pelo mercado global de estilos, lugares e imagens, pelas mídias, viagens internacionais, mais as identidades se tornam desvinculadas - desalojadas - de tempos, lugares, histórias e tradições específicos e parecem flutuar livremente (...) todas as tradições específicas e todas as diferentes identidades podem ser traduzidas. Este fenômeno é conhecido como “homogeneização cultural”. “ Porém, segundo Katia, ao lado dessa tendência, a globalização faz aflorar um fascínio pela diferença, pela alteridade. Hall alerta: “entretanto , parece improvável que a globalização vá simplesmente destruir as identidades nacionais. É mais provável que ela vá produzir, simultaneamente, novas identificações “globais” e novas identificações “locais”.
Cita o escritor Salman Rushdie, que ao defender seu livro Versos Satânicos, levou fundamentalistas iranianos a ameaçá-lo de morte, dizendo que “a hegemonia ocidental se apropriou das alteridades, criando um mercado de etnias; coube aos artistas buscar a mistura para dar novos contornos a essas geografias imaginárias.”
Após, vem uma entrevista com o artista cearense Luiz Hermano, que faz de sua vida e obra uma constante viagem de idas e vindas, explorando materiais simples e inesperados, como fios de arame, briquedos plásticos, botões e o que estiver à mão. Ele conta que além de seu trabalho ser marcado por sua vida e infância, ele também é contagiado pelos diversos lugares por onde viaja, sentindo a sensação de que já estivera por esses locais antes, sentindo uma sintonia por onde passa. “A vida é muito arrastada, o cotidiano estanca...Em oposição a isso, você pontua sua vida com vivências na pele.” diz o artista (p.57)
“Neste momento histórico da chamada globalização ou mundialização, deslocamentos constantes nos fazem sentir que o lugar de pertencimento, de aconchego - a Pasárgada - é constantemente substituído por uma necessidade de nos adaptar aos impactos da vida contemporânea e tecnológica.
Lugares fixos, conhecidos ou confortáveis, são trocados por não lugares, lugares de passagem, lugares virtuais, lugares que nos impõem outros tipos de troca.” (p. 58)
Enquanto na obra de Luiz Hermano a relação entre lugar e não lugar se constitui de uma costura de viagens e voltas, de deslocamentos e retornos, o trabalho de Josely Carvalho parte da ideia de um abrigo móvel, de um lugar simbólico. Ao contar sobre o seu trabalho, Tracajá (sobre uma tartaruga em extinção), ela fala que ao percorrer diversos lugares que nunca foram dela, se dá conta de que nenhum destes lugares são seus e que existia mesmo era essa capacidade, essa possibilidade de poder não ter um lugar.
Katia cita novamente o pensador francês Paul Virilio, sobre a noção que ele chama de “poluição dromosférica”, dizendo que ele “alude à sensação da rapidez do tempocontemporâneo, a um achatamento do espaço, a uma diminuição drástica da experiência dos deslocamentos, dos percursos, dos lugares como percepção subjetiva.” (p.65)
Já a artista carioca Brígida Baltar trabalha com a delicadeza da experiência, enxergando o “lugar” em todos os “não-lugares”, transformando as experiências cotidianas da natureza. A neblina, o orvalho, a maresia são transformados em operações de condensação e coleta, guardados em pequenos receptáculos, como símbolos de um tempo alargado de memória.
Perguntada sobre o sentido dessas coletas, a artista responde: “ Está num lugar muito mais existencial do que estético; um lugar de desmaterialização, que transforma algo que é efêmero, imaterial, não coletável, na ideia de contemplação, de subjetividade.” (p.68)










