Growing Pains: Alex Chang feat. Karim Bashar Montgomery
O dia que cheguei em casa, no meu Ășltimo ano do ensino mĂ©dio, e disse aos meus pais que sĂł tinha aceitado a bolsa de medicina em YALE porque eles aceitaram me dar o segundo curso como dança, foi Ă©pico e jurei que nĂŁo estava fazendo isso por eles, mas sim eu mesmo: nĂŁo ia conseguir fazer um pensando como seria ter feito o outro, e enquanto eu quisesse ser devotado pelas duas coisas, faria elas da melhor maneira e jeito possĂvel.Â
Eu tinha apoio em casa, Bea achava que eu nĂŁo estava fazendo mais do que a minha obrigação usando meu cĂ©rebro e meu talento pra coisas Ășteis, e eu sabia o que eu queria, onde queria estar e o que queria fazer. Eu tinha certeza do meu futuro e das minhas escolhas, achava que era igual pra todo mundo.Â
Agora, anos depois, olhando pra um monte de crianças que tinham acabado de sair da faculdade e escolhido logo a ala de emergĂȘncia do Presbyterian pra começar uma residĂȘncia, entendi que nĂŁo era igual pra todo mundo. NinguĂ©m em sĂŁ consciĂȘncia ia fazer uma coisa daquelas, como eu mesmo fiz no lugar deles.Â
â Puta merda. â Soltei assim que vi cada um deles, que se nĂŁo fosse pelas idades informadas do lado de seus nomes na lista comigo, podia dizer que eram tĂŁo jovens quando Regina e Mitsune, aquela ideia de que deveriam estar em qualquer outro lugar, fazendo qualquer outra coisa. â VocĂȘs nĂŁo tem nem um lugar pra ir? NinguĂ©m pra visitar? Uma outra graduação pra fazer? â Comecei a perguntar gesticulando com uma mĂŁo, nĂŁo me incomodando com a confusĂŁo deles, achando graça inclusive quando me respondiam que nĂŁo. â EntĂŁo vocĂȘs tem mesmo certeza que querem ficar, nĂŁo Ă©? Bom, isso Ă© Ăłtimo, porque nĂŁo tem mais volta quando vocĂȘ entra. NĂŁo pode ter mais volta quando passa por aquela porta.Â
NĂŁo era o mesmo discurso que eu tinha ouvido no dia que comecei, mas achei importante o fazer, porque se alguĂ©m tivesse me avisado, acredito que as coisas teriam sido muito diferentes. Ia ter corrido pro outro lado assim que alguĂ©m me dissesse que, ora, pois, ser mĂ©dico nĂŁo quer dizer que vocĂȘ vai salvar e proteger todo mundo, pra começo de conversa.Â
â Apenas perguntas Ășteis da porta pra dentro, crianças. â Anunciei, antes de abrir a porta e passar por ela, me sentindo em uma excursĂŁo de escola com todos eles atrĂĄs de mim. â EstĂŁo prestes a começar a aprender como dar as respostas Ășteis.Â
Alas de emergĂȘncia sempre foram as minhas favoritas. O dia podia começar bem e parado, e quando vocĂȘ assustava, tinha um corredor cheio de pessoas mutiladas, queimadas, machucadas, desmembradas e meio mortas pra vocĂȘ absorver e cuidar sozinho. NĂŁo existia choque de realidade quanto a vida alheia melhor do que uma ala de emergĂȘncia, era onde vocĂȘ questionava seu valor e real importĂąncia quanto ao resto. Onde a gente se perguntava se era bom o suficiente no que fazia.Â
â Um prĂ© diagnĂłstico pode matar uma pessoa, um diagnĂłstico bom mas demorado pode matar uma pessoa, um diagnĂłstico rĂĄpido e mal feito pode ser uma pessoa. NĂŁo se formaram pra serem sĂł mĂ©dicos, se formaram pra ser as pessoas mais responsĂĄveis e alertas que vocĂȘs conhecem. â Ia falando, passando de leito em leito, como fazia todos os dias, mas agora nĂŁo sendo mais a pessoa que trabalhava ali, mas a que dirigia o prĂ©dio todo. â Porque cada passo, cada suspiro, cada momento seu, agora significa o quĂŁo capaz vocĂȘ Ă© em ajudar a salvar a vida de alguĂ©m.Â
As portas no começo do corredor abriram com um barulho muito alto, uma fila de macas e enfermeiros se alinhando rĂĄpido. FamĂlia, acidente de carro, tantos ossos quebrados e ĂłrgĂŁos comprometidos, sĂł alguns casos em meio a tantos outros iguais ou piores ali.Â
â Alguma pergunta Ăștil? â Anunciei com as mĂŁos na cintura, observando aquelas crianças olhando pra todos os lados ao mesmo tempo.
â Por que o senhor nĂŁo exerce mais? â Menos uma delas. Um deles, e precisei olhar seu crachĂĄ, e depois seu nome na minha lista pra me certificar de quem era. â Por que o senhor sĂł dirige o hospital, agora?
A porra do enteado/filho mais velho do Jyn Montgomery.Â
â Eu disse perguntas Ășteis, senhor Bashar. â Respondi ao mais jovem, lhe oferecendo um sorriso enquanto negava com a cabeça. â NĂŁo acredito que descobrir o que esse lugar faz com vocĂȘ, vĂĄ te ajudar agora.Â
Talvez ajudasse, sabe, a desistir, mas sabia que nĂŁo devia ser o que ele queria, porque quando era eu no lugar dele, eu mesmo tambĂ©m nĂŁo queria desistir.Â
Eu consegui crescer e me tornar muito bom no que eu fazia muito rĂĄpido. Sabia que os casos mais complicados eram importantes pro meu currĂculo, e conseguia equilibrar todos eles com os mais simples. Consegui ser o melhor mĂ©dico especialista em emergĂȘncia na cidade, consegui ser um dos melhores do estado. Eu tinha tudo, atĂ© ser um profissional competente nĂŁo ser mais o suficiente.Â
â A coisa toda Ă© que, a dor continua batendo em vocĂȘ e vindo de todos os lados. â Um mĂ©dico mais velho me disse uma vez, quando eu ainda era um feto, e comecei a provar minhas primeiras perdas. â E uma hora vocĂȘ sĂł para de sentir, porque nĂŁo importa quem seja, como seja ou o tamanho do seu erro e quanto vocĂȘ se culpe por ele, vai continuar acontecendo e vocĂȘ nĂŁo pode impedir.Â
Minha mĂŁe me dizia que era normal, sentir muito por um caso ou outro, e que mais normal ainda viver esse pesadelo de tempos em tempos; que nem sempre as coisas iam terminar bem, e que nem sempre eu ia ser capaz de enxergar tudo por mais que eu tentasse. Ia acontecer com um idoso, uma criança, um adolescente e ia acabar colecionando vidas perdidas da mesma maneira que colecionava pacientes vivos e recuperados, mas existia esse sentimento de acĂșmulo, quando fui ficando cheio de tudo e nĂŁo conseguia me livrar do que eu nĂŁo queria.Â
E quando tentava nĂŁo me sentir afetado no trabalho, me sentia oprimido em casa. Me ocupando com um monte de pesquisas e trabalho extra pra nĂŁo ter que lidar com Bea e Regina, e com meus pais, e com meus sobrinhos pequenos, e pensar neles vivos, quando eu corria o risco de perder os parentes importantes de outras pessoas quando estivesse trabalhando. Parecia injusto, mesmo que nĂŁo tivesse acontecido, e eu me sentia mal, mas acreditava que ainda podia fazer algo sobre isso.
AtĂ© eu ver essa garota queimada entrando pela ala de emergĂȘncia, e eu nĂŁo precisava que o enfermeiro me dissesse quem ela era, porque eu a conhecia: ela era jovem, tinha acabado de se casar com o namorado que conhecia desde sempre, vinha no hospital de tempos em tempos porque precisava. Estava grĂĄvida, e agora parecia estar a um passo muito pequeno de sequer continuar viva.Â
â Como conseguiu entrar em um acidente assim? â Perguntei a ela enquanto eu mesmo empurrava a maca pelo corredor, um monte de pessoas que tambĂ©m a conheciam olhando pra ela.Â
Ela nĂŁo me respondeu porque tinha respirado muita fumaça enquanto queimava dentro do carro, e disseram que nĂŁo precisavam de um exame pra saber que o bebĂȘ dela tinha morrido, quando colocaram ela em um respirador, e eu tive que avisar ela.Â
â Eu preciso te avisar, porque ninguĂ©m mais quis dizer a vocĂȘ. â Murmurei sentado do lado da cama dela. â Seu bebĂȘ nĂŁo sobreviveu, seus ĂłrgĂŁos estĂŁo parando de funcionar, e vocĂȘ vai morrer, mesmo que eu nĂŁo tire o tubo de vocĂȘ. â Continuei, achando difĂcil sustentar meu olhar no dela, mas ainda o fazendo porque nĂŁo queria que ela se sentisse sozinha. â Mas eu vou manter ele, pro seu marido conseguir chegar, e conseguir se despedir de vocĂȘ.Â
E mesmo que Ă quilo doesse nela, ela ainda tentou alcançar a minha mĂŁo como se me desse algum tipo de permissĂŁo, e foi aĂ que eu soube que nĂŁo podia continuar.Â
â O hospital me mandou tirar o respirador dela antes do marido dela chegar. Disseram que pacientes terminais nĂŁo podiam ter mais direitos quanto aqueles que precisamos tratar porque sabemos que vĂŁo sobreviver, entĂŁo eu mesmo substituĂ a bomba dela e fiz o trabalho manualmente. â Contava a Karim, sentado ao seu lado na sala de dança do centro cultural do Bronx. â Fiquei bombeando todo o oxigĂȘnio pra ela por horas, o marido ficou preso em um engarrafamento por causa da neve, e nĂŁo conseguia chegar mesmo sabendo da situação. Queriam que eu desistisse dela porque precisava atender outras pessoas, mas sabia que nĂŁo ia conseguir me perdoar se nĂŁo pudesse fazer aquilo, sĂł aquilo, por ela e deixar ela ir em paz. Eu tinha outras vidas pra tentar salvar, mas sĂł queria dar um pouco de alĂvio pra garota que tinha perdido tudo em um Ășnico dia.Â
Observava Regina dando aulas pras crianças que nĂŁo conseguiam atravessar a cidade pra ter aulas no nosso estĂșdio, pensando que podia ser ela no lugar daquela garota que tinha morrido fazia tanto tempo, pensando que podia ser qualquer pessoa que eu conhecia, e queria que alguĂ©m fizesse aquilo por ela. Por todos eles.Â
â Fui diagnĂłstico com Burnout depois desse dia, dizem que eu jĂĄ estava meio depressivo antes, mas eu nĂŁo tenho certeza. â Comentei com o mais jovem, encolhendo os ombros e o observando sentado ao meu lado, muito atento. â Me perguntaram se eu me sentia apto a continuar atendendo e eu disse que nĂŁo. NĂŁo porque eu nĂŁo queria, mas sim porque eu nĂŁo sabia se ia suportar mais.Â
â EntĂŁo o senhor decidiu que era melhor assistir de longe e gerenciar tudo. â Karim concluiu mais pra si, enquanto eu acenava com a cabeça, em um sim silencioso. â Porque nĂŁo queria estar mais lĂĄ.Â
â Ainda amo o que faço, amo o que eu fazia. â Confessei soltando um riso sem muito humor, porque sabia que existia milhares de pessoas em situaçÔes muito maiores. â Mas nĂŁo quero mais ser responsĂĄvel, nĂŁo acredito que eu seja o melhor. NĂŁo sou o que as pessoas precisam de verdade enquanto eu me sentir assim.Â
Mas eu nĂŁo sentia mais coisa alguma, entĂŁo uma coisa sempre ia acabar conectando a outra.Â












