“Portugal Hoje—o medo de existir” de José Gil
A pessoa que vê notícias na TV tem a experiência de transcendência possível ao ser colocada dentro do mundo ao mesmo tempo que permanece acima dele.
A acusação de Gil é que em Portugal “nada acontece, nada se inscreve” e o passado é onde os estudos mais sólidos se encontram. Essa não-inscrição é, para Gil, herdada do Salazarismo, escola de irresponsabilidade que nos ensinou a permanecer crianças, “adultos infantilizados”. Também é neste contexto que uma personagem como o chico esperto (ou burgesso) sobressai. Não há mortos na vida dos vivos.
O clima é de “anestesia e obediência generalizadas”, mal difuso que impede as existências de se expandirem. A comunicação social serve apenas para confirmar o sistema estático que por ela é mantido, na aparência de debate e discussão. O sonho dos mais atrevidos será ser reconhecido fora do país para depois arrastar para dentro dele o mérito validado no exterior, o que, no fundo, confirma que até esses serão “exilados nos seu próprio país”.
Num ambiente saudável, um autor deseja que a sua ideia entre no espaço anónimo para suscitar a participação dos outros. Em Portugal não: fulaniza-se porque “se é X que o diz, com a sua inteligência, a sua cultura, o seu prestígio, então as suas palavras enchem-se de uma força que não teriam se tivessem sido escritas por um x qualquer, desconhecido de todos”. Somos arcaicos pós-modernos.
A não-inscrição é também um espaço público deficientemente democrático, cativo do sistema partidário e mediático transcendente. Como “o 25 de Abril não conseguiu abolir a divisão instruído/sem instrução, (…) o medo, a reverência, o respeito temeroso e a passividade perante as instituições (…) não foram ainda quebrados por novas forças de expressão de liberdade. (…) O Portugal democrático de hoje é ainda uma sociedade de medo. É o medo que impede a crítica”. É neste contexto que Gil classifica o ritual do 25 de Abril como “cada vez mais patético”.
“Somos um país de burocratas em que o juridismo impera de maneira obsessiva, como se, para compensar a não-acção, se devesse registar a mínima palavra ou discurso em actas, relatórios, notas, pareceres” (usando os termos de Foucault e Deleuze, estamos em transição de uma sociedade disciplinar para uma de controlo). A adesão à tecnociência que nos foi feita mais acessível a partir da entrada na Comunidade Europeia apenas confirma este impulso de obediência passiva.
A não-inscrição combate-se com o desejo, que permite o acontecimento: “a inscrição acontece quando o desejo se modificou sob a pressão, a força, de um outro desejo, ou da violência de um outro acontecimento. (…) Inscrever-se significa produzir real”. Mais do que simulacros de inscrições, interessa compreender e rejeitar o terno apelo do pequeno, como espaço de conforto. “O português habita numa espécie de bola de afecto que faz com que cada separação mínima de um ente querido pareça enorme, longa e longínqua. (…) O ser pequeno é a estratégia portuguesa de permanecer inocente” (síndroma de Liliputh).
Conversamos sem nos saber ouvir, num “esvaziamento da palavra”. Se parecemos abertos à superfície, continuamos interiormente fechados, ultra-susceptíveis ao encontro da familiaridade: “os portugueses eram todos parentes”. Somos um povo da poupança, “restringindo o desejo ao mínimo indispensável, (…) desenvolvendo um espírito cauteloso, prudente, desconfiado—uma sociedade docemente paranóica. (…) Vivemos um tempo eternamente ‘adiado’, e ‘territorializado’ no adiamento”. Se por acaso o português consumir desenfreadamente depois disto, dá seguimento ao mesmíssimo problema. A Europa entrou em nós mas nós não entrámos na Europa.
Temos afecto pelo deambular e a nossa expressão “se calhar” comprova-o: é uma espécie de aventura possível mas sem risco. Não abordamos os assuntos senão “indirectamente, percorrendo espirais, caminhos ínvios e barrocos até abordar claramente a questão”. Tanta precaução recusa o enfrentamento, típico de outras sociedades mediterrânicas como a Albânia, a Grécia, a Córsega, a Sardenha, o Líbano, a Líbia, etc. “Debaixo da precaução, da cautela, da desconfiança, habita o medo, (…) metabolizado em brandura, doçura, amenidade”, que não são bem o civismo que parece. Temos “medo de agir, de tomar decisões diferentes da norma vigente, medo de amar, de criar, de viver. Medo de arriscar. A prudência é a lei do bom senso português (…) e a incompetência aumenta por falta de audácia”. Tratam-se de relações de poder, à la Foucault. Temos medo de sermos desmascarados. A nossa iliteracia e fragilidade económica vêm daqui. O máximo que conseguimos é o desenrasque. Na “indefinição salvaguardamos a tendência à não-acção. (…) Os portugueses são seres adiados”.
A nossa ampla burocracia resulta de o medo ser o nosso maior regulador, e ela cresce em função da “recusa do conflito e da acção”.
Somos um povo de invejosos “porque uma sociedade em que tudo se faz para encobrir os conflitos convém particularmente bem ao trabalho da inveja”. Banhamo-nos em ressentimento, sobretudo produto do Salazarismo, considera Gil. Não sendo nós capazes de uma admiração sincera, cultivamos “o elogio excessivo que cumpre a estranha função de desrealizar a obra que pretende caracterizar, colocando-a em píncaros tão altos que se torna uma pura figura de retórica”.
“Há uma fascinação-repulsa pela ausência”, temos “horror pelo vazio”. Também é nesta vacuidade que o nosso discurso humanista se universaliza, numa cobardia intelectual óbvia que rejeita ponderar que centrar tudo em nós pode ser uma das piores desgraças para a “ecologia do espírito” (como dizia Lévi-Strauss). “Em Portugal, o discurso humanista ajuda a não pensar”.
“A sociedade portuguesa está normalizada por uma regra invisível (…)valorizando acima de tudo a paz da mediania—o [suposto] bom senso”. Seremos “prisioneiros em liberdade, controlados à distância, (…) em que qualquer desvio mínimo é sinal de catástrofe, de perigo de exclusão total”.
Espaços claramente fracos do livro de Gil: atribuição excessiva dos maiores males existenciais portugueses ao Salazarismo, consequente de uma análise ainda demasiado marxista de fenómenos de relações de poder, análise essa que podia e devia não temer abrir as asas de uma verdadeira acepção espiritual; e uma linguagem demasiado fenomenológica de conceitos centrais no livro como a “inscrição” e “não-inscrição”, que contraditoriamente mantem o leitor comum preso na dicotomia condenada de “instruído/sem-instrução”. Ou seja, a caracterização do problema do medo de existir português é excepcional mas a causa apontada para ele é claramente mais frágil. Sente-se demasiada política na hora de perceber o espírito de um povo, aspiração acalentada pela força de um título de livro tão certeiro.













