CONHECE A TI MESMO
O aforismo, “Conhece a ti mesmo”, inscrito na entrada do templo de Delfos, na Grécia, e disseminado por Sócrates, vale como premissa para o desenvolvimento do psicanalista.
“Ainda que conheçamos mil vezes mais sobre nós mesmos, nunca alcançaremos o fundo.” (FROMM, p.30, 1986). Mesmo assim, é somente conhecendo-nos que conseguiremos conhecer o outro, que senta à nossa frente, com suas dores e angústias.
Ver nossa própria realidade, transpor nossas ilusões, a imagem distorcida de nós e do outro, daquilo que é nosso e está no outro. Compreender o “fato de haver nascido sem por vontade própria e de ter de morrer contra sua vontade, de ter de morrer antes daqueles que ama, ou estes antes dele, a consciência de sua solidão e separação (...).” (FROMM, p.15, 1986).
Uma das partes mais difíceis do processo psicanalítico, a autoanálise. Olhar para as próprias dores, e tudo o que carregamos durante tanto tempo, compreender o percurso da nossa vida, da nossa história. Aquilo que nos moldou a ser o que somos, nossas relações parentais, conjugais, e com nós mesmos. A forma que concebemos o mundo, a sociedade, a espiritualidade. Nossas crenças e fantasias, construídas na mais tenra infância e afirmadas pelo sistema familiar e coletivo.
Somos um aglomerado de experiências, vivências, somos nós e também somos os outros, um pouco de cada pessoa que passou em nossas vidas. Portanto é necessário encontrarmos nossa essência, desmistificar o que somos no âmago do nosso ser. Para isso, o processo analítico contribui, proporcionando um encontro com nossos Eus.
BREVE ANÁLISE CONCEITUAL SOBRE ALGUNS CONSTRUCTOS HUMANOS: O AMOR, A MORTE, A DOR
Nossa concepção reflete tudo aquilo que nos moldou, que nos conduziu até aqui. De forma geral, (e também genérica) nossa concepção sobre esses e demais aspectos da realidade, no inconsciente coletivo, estão definidos pelo relacionamento dos nossos pais, nossa infância, e das demais construções sociais, novelas, filmes, livros, religião para citar alguns. Esses constructos carregam toda a subjetividade de cada indivíduo, suas percepções decodificam o mundo, e é a partir delas que cada indivíduo age.
Diante disso, a questão torna-se bastante complexa, pois é necessário sempre partir da premissa, de que cada pessoa, acredita estar fazendo aquilo que pensa ser o correto. Mesmo quando determinadas atitudes vão contra a lei, ou são consideradas imorais, etc.
Olhando um pouco o conceito de amor, e aí iremos nos ater à sociedade ocidental e urbana, pois é possível perder-se no tema. Temos então o conceito definido pelos apaixonados, amantes, pais, amigos, em resumo um sentimento de afeição intensa.
Do ponto de vista psicanalítico tudo é libido, energia, investimento de energia. Então há duas formas de se fazer a escolha do objeto de amor:
“(...) a escolha narcísica tem como modelo a imagem de si mesmo: amamos o que somos, o que fomos, o que gostaríamos de ser e alguém que foi parte de nós mesmos. Já a escolha anaclítica tem como modelo as funções maternas e paternas.” (NASIO, 1997, p.20).
Há no início uma idealização do outro, e torna-se muito comum, depois de passado um tempo, percebemos defeitos no objeto amado, e as queixas não se esgotam. Então entra em ação a tentativa de mudar o outro, e adequá-lo ao nosso molde, ou aquele que gostaríamos de ocupar. “(...) uso de mecanismos de projeção, para o fim de evitar os próprios problemas e preocupar-se, em vez disso, com os defeitos e fragilidade da pessoa ‘amada’”. (FROMM, 1986, p.77).
Logo, acreditamos que é possível que o outro, o objeto de nosso amor, seja capaz de nos fazer feliz, criamos expectativas, e acreditamos que o que não tivemos dos nossos pais, teremos do outro. “A condição básica do amor neurótico está no fato de que um dos amantes ( ou ambos) permaneceu aferrado a figura de um dos pais e transfere os sentimentos, expectativas e temores que outrora experimentou (...)” (FROMM, 1986, p.72).
A morte é outro conceito que carrega uma infinidade de significados, existe sempre dentro das religiões a noção de uma existência infinita, algo eterno. A humanidade sempre criou mitos, histórias para explicar o que ainda não entendia, esses mitos ainda perpassam diversas culturas do mundo, pois apesar dos avanços científicos, escolhe-se, ou aceita-se viver de acordo com esses mitos, pois talvez o Eu não esteja preparado pra lidar com a realidade, tal como se apresenta. Escolhemos no que queremos acreditar, e agimos sempre de acordo com nossas crenças. “(...) em nosso inconsciente, a morte nunca é possível quando se trata de nós mesmos. É inconcebível para inconsciente imaginar um fim real para nossa vida na terra (...)” (KÜBLER-ROSS, 2017, P.6).
As condições econômicas e sanitárias foram melhorando à medida que houve avanços na ciência, com isso, a morte, muito comum à nossos ancestrais, em um passado não muito distante tornou-se algo longínquo, algo para não se preocupar ao menos durante um tempo.
A psiquiatra Elisabeth Kübler-Ross, através do seu trabalho de pesquisa com doentes terminais, identificou os cinco estágios do luto, a negação, a raiva, a barganha, a depressão e a aceitação. Isso não quer dizer que todos os pacientes consigam passar por todos os estágios ou mesmo que eles sigam essa ordem, tudo depende de como a pessoa viveu, o que ela está deixando, o que pensa sobre a morte, e como isso tudo está sendo elaborado atualmente. E claro que tudo isso aplica-se somente aos pacientes terminais.
A quem fica, resta-se trabalhar o luto, desinvestir a libido, recolher-se, para dentro, pois, “A perda do amado é uma ruptura não fora, mas dentro e mim.” (NASIO, 1997, p.50). E então, “(...) a dor é uma reação não a perda, qualquer que ela seja, mas à fratura da fantasia que nos ligava ao nosso eleito.” (NASIO, 1997, p.50).
O luto, o abandono, a humilhação e a mutilação, fazem parte da dor psíquica, e qualquer ruptura sob essas quatro circunstâncias, desencadeará a dor. Sob a ótica da psicanálise não há diferença entre a dor física e a psíquica/emocional. “Antes de tudo, a dor é um afeto, o derradeiro afeto, a última muralha antes da loucura e da morte.” (NASIO, 1997, p.19). E toda dor, é uma espécie de luto.
CONCLUINDO
Estar diante de um paciente, é estar em contato conosco também, é ter bem delimitado aquilo que nos constitui, o que somos, e o que constitui o outro. Compreender de modo mais profundo nossas próprias dores e refletir sobre os aspectos que constituem a humanidade, saindo do senso comum, estando sempre a analisar as minúcias da vida.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
FERREIRA, N. P. A teoria do amor na psicanálise. Rio de Janeiro: Zahar, 2004.
FROMM, E. A arte de amar. São Paulo: Brasiliense, 1986.
KÜBLER-ROSS, E. Sobre a morte e o morrer: o que os doentes terminais têm para ensinar a médicos, enfermeiras, religiosos e aos seus próprios parentes. São Paulo: Martins Fontes, 2017.
NASIO, J.D. O livro da dor e do amor. Rio de Janeiro: Zahar, 1997.












