Por todos os anos que nos antecederam, por todos os anos que a gente ainda tinha pra viver... Essa é pra ti.
Tu que me moldou em notas amargas de marchas desgraçadas e realidades que não eram as minhas, mas eram as tuas. Eu queria ter te compreendido por inteiro, mas ainda não consegui nem te compreender pela metade.
Eu nunca entendi teu jeito torto de lidar com a vida, a raiva acumulada, o ódio quando se posicionava, mas sempre te admirei. Queria que tu soubesse disso... O mundo sempre foi muito ingrato contigo e tu nunca deixou passar nenhuma das injustiças. Tu sabia de todas elas; decoradas, marcadas na pele, na alma, na vontade de querer vingar. Mas acho que tu também tava cansado de lutar por isso; cansado do óbvio, da mesmice que era sair do problema e voltar pra ele logo depois.
Acho que eu nunca vou esquecer aquela noite... E eu tentei, juro que tentei. Mas foi a primeira vez de tantas únicas vezes.
Eu te vi se render e foi assustador pra um cacete.
Nunca tinha te visto chorar. Já tinha te visto sofrer, se machucar, mas nunca chorar. E eu me amaldiçoo até hoje por pensar que o sentimento de tristeza te moldava melhor do que qualquer outro, parecia destacar quem tu era de verdade e te pintava de azul, azul, azul.
Tu chorou dolorido, machucado. Eu nunca vou esquecer. Senti que tivesse invadindo tua vida, como todas as outras vezes. Eu sempre achei que tivesse entrando em estradas que meus pés não mereciam; tu carregava tanto mistério e dor que nunca soube se era bem-vindo. Sempre achei que a qualquer momento eu fosse ser expulso e acho que acertei em pensar isso, no fim de tudo. Tu me expulsou naquela noite, sem explicação, só com amargura e pavor.
As três batidas ocas na porta naquela madrugada de sexta ou sábado ainda ecoam como reza nos meus pensamentos. Numa marcha fúnebre, sombria, melancólica... Pensei sobre muitas possibilidades, sobre vizinhos batendo na porta errada, parentes planejando uma visita. Mas eu nunca pensei em ti... Em ti parado logo ali no tapete de boas-vindas, as bochechas coradas e úmidas das lágrimas que ainda rolavam.
Â"Me leva daqui", tu pediu. A voz era dolorosa e só de lembrar eu sinto vontade de desaparecer do mundo. "Eu quero sentir que eu sou real, eu quero me sentir real".
Quando eu enfiei meus pés no primeiro calçado que vi, apanhei as chaves do carro e te agarrei pelo pulso, eu não fazia ideia do que tava fazendo. Foi inconsequente, mas eu acho que te devia essa. Tu sabe... Por todos os anos que nos antecederam, por todos os anos que a gente ainda tinha pra viver.
E a gente dirigiu; grandes avenidas movimentadas, ruas desertas, estradas sem fim.
Dali eu conseguia enxergar todas as artes abstratas que as luzes da cidade pintavam no teu rosto. Os cÃlios ainda úmidos e as bochechas coradas pela fuga irresponsável. Os fios dos teus cabelos dançavam com o vento, uma alegria quebradiça, frágil, intragável. A gente nunca chegou a sentir ela naquela noite, mesmo que tu tivesse sorrindo com a janela abaixada e o rosto apoiado nos braços. Quando tua boca encontrou a minha em uma urgência lamentável, eu entendi que era uma despedida. Era desespero puro, eu sentia o amargo na ponta da lÃngua, o salgado do teu choro travar na garganta.
Teu beijo mostrava que a tua vida não começava ali, mas que acabava junto a minha.
Tu não foi uma poesia com versos melodiosos, beleza estonteante; tu foi um puta soneto triste, uma progressão dos anos 50, uma combinação de notas musicais escolhidas pra incitar dor e solidão.
E eu senti toda a tua dor e toda a tua solidão.
A liberdade sempre pintou teus traços e ações; sempre enfeitou teus discursos raivosos. O direito de fazer o que bem quisesse, ser livre de tudo o que pudesse te prender... Mas ali eu percebi que o teu próprio "ser livre" sempre foi restrito; vigiado de perto por todos os teus medos, aflições e um passado que eu nunca soube o bastante. Nossas vidas sempre foram distintas, contrastes grotescos; extremas. Acho que uma parte tua sempre me odiou por isso, por ter tudo o que tu sempre quis sem nem ao menos saber ou tentar.
Sinto que eu te devo desculpas, mesmo sem saber o que te fiz.
A gente não era poesia. A gente era versos sem rima, intensidade ou sentimento. A gente era futilidade pura, unidos por conforto e frustração. Mas a gente se encontrou ali; num emaranhado feio, egoÃsta, superficial e dolorido.
A gente não era amor, a gente foi dor, dor, dor.
E acho que foi por isso que a gente funcionou por um punhado de meses e uma miséria de dias.
A gente sempre foi despoesia.
















