Ele estava exausto. Portava trajes da nobreza e ainda assim sentia-se em farrapos. Os ombros pesavam, os olhos lacrimejavam vez ou outra ao exclamarem por repouso e a respiração se arrastava, mas Arthur mantinha o queixo erguido e mostrava-se inabalavelmente perspicaz, como se o cansaço não o pertencesse. Tudo estaria bem, desde que sua mente mantivesse a força que lhe era característica. Porque o resto era apenas o seu corpo e ele era feito essencialmente de alma, não de carne.
Quando chegou em terra firme, mensageiros reais garantiram-lhe um período de repouso para que as feridas da última viagem cicatrizassem por completo. E enquanto esforços físicos lhe eram restringidos, recuperaria a energia que lhe fora drenada nos últimos meses.
Jovem e vistoso como era, não se confinaria às paredes do lar, porém.
Naquele momento, o cavalo trotava com elegância pela a estreita trilha criada dentre as árvores e Arthur aos poucos conseguia escutar o ruído de água corrente cada vez mais próxima, indicando que seu objetivo aos poucos era alcançado. Uma viagem longa para que aproveitasse em sua solidão e assim pudesse se dar ao desfrute do sossego, longe de qualquer problema, em paz. Com atenção, visualizava o caminho a sua frente iluminado pelos feixes de luz que ultrapassavam as copas, um corredor da vegetação mais viçosa levou-o até a cachoeira. A brisa fresca contribuía para a paisagem ser atraente, convidava-o a mergulhar nas águas cristalinas e facilmente fazia com que esquecesse das injúrias em seu corpo.
Por um longo tempo permaneceu sobre o cavalo, observando a paisagem em deleite. Somente uma melodia sobrepujou a beleza do cenário, uma voz doce proveio das proximidades e atraiu o olhar masculino. De uma formosura inigualável, a silhueta de mulher comportava-se sobre a rocha. Claramente distraída, escovava as madeixas encaracoladas -- tingidas por um dos rubros mais vibrantes que ele tivera a oportunidade de presenciar. As costas nuas estavam viradas para ele, este que a observava em silêncio, mas que não o fazia em sensata admiração.
Arthur parecia atônito, até desorientado diante de um suposto e repentino reencontro. O timbre das palavras proferidas lhe era familiar, afinal. Acabou por abrir um sorriso vacilante, dotado de amarga e implícita ironia, embora não fosse uma curva espontânea.
Aproximou-se da margem, resignado e hesitante, com superficial bravura. O tom de voz, acompanhante indispensável em sua postura de cavaleiro, ergueu-se com vigor enquanto lentamente procurava a fronte feminina.
"Seraphina?" -- Por fim, inquiriu a pergunta que martelou-lhe o juízo até então, defensivo em cada avanço. -- "É um prazer revê-la." -- Prosseguiu com amargura e tocou a tira de couro que revestia um de seus olhos. Um gesto simples, mas que complementava o rancor dos dizeres.