POV 001: cause all ‘good’ things must come to an end
A última aula era a mais chata de todas, Akame pensou, enquanto trocava os livros no armário. Se pudesse trocar aquela matéria por outra, o teria feito antes mesmo que pudesse piscar, mas o caso era: ela precisava de horas naquela área caso quisesse ir para a faculdade. E ela queria ir para a faculdade, mas isso não significava que era fácil para ela ir para uma aula onde precisasse se expressar. Literatura era umas das matérias que ela mais odiava porque era obrigada a falar o que pensava sobre determinado assunto. Nos primeiros dias havia ficado quieta, sem opinar em nada, mas nos dias seguintes àqueles, seu professor disse que ela teria de participar ou ele pediria para ela se retirar. Como se retirar não era uma opção, ela ficou. E hoje seria um dos piores dias, ela teria que apresentar. O assunto? Um autor que era muito melodramático para seu gosto. Mas ela passou dias pesquisando sobre ele, montando a apresentação porque, por mais que odiasse a matéria, tinha que ser a melhor. Sempre. Devia aquilo a seus pais. Mesmo que tivesse sido uma filha ruim, queria mostrar que ainda podia dar orgulho a eles, mesmo onde eles estivessem. Iria para faculdade para mostrar que ela podia superar qualquer coisa, ah se ia. Pensar neles ainda formava um bolo em sua garganta que ela fazia de tudo para engolir e não conseguia. Mas ali estava ela, andando com altivez e arrogância para a sala de aula. O professor a olhou com um visível ponto de interrogação, talvez duvidando que ela fosse incapaz de se apresentar devido a dois motivos: o primeiro que ela não gostava de falar em frente às pessoas e o segundo que ela não tinha tanto conhecimento assim sobre o coreano. Mal sabia ele que ela tinha treinado cada parte da apresentação mais de sete vezes, corrigindo a pronúncia sempre quando era necessário. Assistiu a inúmeros vídeos que mostravam o modo correto de como falar, qual a entonação certa e tudo mais. Se ele achava que ela falharia, estava muito enganado. Ninguém sabia desse seu lado, do lado que dava duro para mostrar às pessoas que ela não era apenas uma menina mimada. Até porque ela não era mimada, como seria se não tinha pais? Havia uma coisa que as pessoas não entendiam sobre Akame, nunca entenderiam, e não seria ela que explicaria isso. Por que deveria, se as pessoas não se importavam? Ela estava bem do jeito que estava. Sem laços, nem relacionamentos. Recebeu uma mensagem dos pais enquanto ela arrumava os papéis para apresentar. Os ‘pais’ não podiam ligar para ela, um acordo que fizeram, em vez disso mandavam mensagens quando precisavam falar com ela. A mensagem da vez dizia que eles estavam indo trabalhar e passariam a noite fora, ao que ela respondeu com apenas um Okay, e se virou para os alunos, pronta para começar sua apresentação.
E tudo aconteceu bem, excepcional, seu professor dissera, ou isso que ela tinha entendido. Sorriu satisfeita consigo mesma por ter conseguido realizar o que pretendia, que era apresentar sem qualquer erro. A pronúncia das palavras havia sido correta, apenas seu sotaque sendo evidente, mas fora isso, nada destoava. O único problema foi o horário, ela falou demais, e mesmo ganhando nota máxima, ela ficou por último para arrumar os papéis e sair, além de arrumar a sala. Fez isso, com a cara mais amarrada do mundo e saiu, trancando a sala e indo até a sala dos professores entregar a chave. Os corredores cheios de gente não tinham mais ninguém, de tão tarde que estava, e Akame sabia que teria que voltar pra casa utilizando as ruas principais. Depois que deixou a chave com um dos professores, a garota pegou sua mochila em seu armário mas teve que voltar para ir no banheiro e trocar de roupa, não queria voltar de uniforme e dar a alguém a chance de reconhecê-la daquele dia. Ainda tinha pesadelos com aquilo. trocou de roupa e foi até a saída, passando pelas salas escuras e trancadas, apenas algumas estavam abertas. Finalmente satisfeita com o dia e quase na saída, Akame sentiu seu corpo sendo empurrado para dentro de uma sala e ela nem mesmo teve tempo de se segurar enquanto caía duramente no chão. Ouviu a fechadura da porta trancar e se levantou rapidamente, indo até a porta para tentar abri-la, mas sem resultado. Viu apenas um vulto se afastar, rindo, e sua mente a alarmou de que aquilo podia ser algo a ver com o homem daquele dia, ou os assassinos de seus pais. A paranoia cresceu em sua mente e ela começou a bater na porta, gritando que alguém a ajudasse. Gritou tanto que sua voz começou a falhar minutos depois e suas mãos doíam de bater na porta. Ninguém a ouvira? Sabia que não havia mais tantas pessoas na escola, por ser tarde, mas deveria haver alguém que pudesse ajudá-la, não? Tão desesperada para sair dali que não percebeu onde estava, no laboratório de química, e se lembrou que poderia haver uma chave no armário ali dentro. Tentou ligar o interruptor para ajudar, mas o mesmo não funcionara, a deixando apenas com a fraca luz que entrava pela brecha entre a porta e o chão. Foi tateando até encontrar o armário, que era onde se guardavam os materiais para as aulas e sabia que deveria haver uma chave reserva lá. Mas não contava com suas coisas: sua baixa altura e o fato de a chave aparentemente não estar nas prateleiras mais baixas. Então teve de se esticar, se guiando apenas no tato e foi para a prateleira seguinte, bem acima de sua cabeça, nada ali também. Logo, pisou no primeiro degrau do armário, se esticando ainda mais para alcançar a última prateleira, finalmente encontrando um objeto metálico e puxou a mão de volta, batendo em algumas coisas que não conseguiu definir. Mas não puxou somente a chave, ela notou, quando algo começou a cair em sua cabeça e quando atingiu seus olhos, Akame gritou de dor.
Ardia, ardia tanto que parecia estar queimando seus olhos. Ela se afastou, tentando parar aquilo, porque aquele líquido, fosse o que fosse, ardia demais. Usou a manga da camisa para limpar, mas parecia que quando tocava os olhos, mais os mesmos queimavam. Akame ficou tonta, o susto a fazendo cair sentada no chão perto de uma bancada e ela apoiou a cabeça na mesma. Não conseguia nem mesmo chorar de dor, já que os olhos estavam ocupados demais. Ela gritou, gritou tão alto que ficou surda momentaneamente, ouvindo apenas o zumbido de seus gritos. A dor era tanta que nem conseguia abrir os olhos, mas mesmo assim ela pegou o celular do bolso da saia. Tinha que ligar para alguém vir ajudá-la, tinha que tirar aquilo dos olhos. Mas quando tentou abrir os olhos, ainda estava escuro, alguém havia desligado todas as luzes da escola? Será que já tinham fechado e ninguém a ouvira? Olhou na direção do celular, não vendo a luz da tela brilhar no escuro e se apavorou. –– Não não, o que está acontecendo? –– Sussurrou alarmada para si mesma, sua voz saindo apenas aquilo, já que ela tinha gritado demais por um dia. Resolveu fechar os olhos novamente quando a dor voltou a queimar seus olhos e quando se deu conta de que ela não tinha ninguém para ligar, não tinha ninguém. A chegada àquela conclusão a deixou tão triste que Akame começou a fungar, os olhos ardendo mas ainda assim enchendo-se de água, o que até mesmo aliviou a queimação dos olhos. Ninguém a ligaria, seus pais postiços só voltariam no dia seguinte, e eles até mesmo poderiam não perceber sua ausência, e mesmo assim não ligariam para ela. Estava sozinha, no sentido mais explícito da palavra. Deixou a mão cair no chão enquanto começava a chorar, já perdendo as esperanças de sair dali naquela noite. Sairia de manhã, quando estivesse claro, quando houvesse gente, e iria no médico ver para que pudesse ver o que havia acontecido. Porém, o barulho de seu celular tocando a fez levantar a cabeça e olhar, com os olhos fechados em sua direção. Mesmo através das pálpebras, não via a luz do visor. O que estava acontecendo? Atendeu, mais por hábito do que outra coisa, nã se atentando ao fato de que pouquíssimas pessoas sabiam seu número de telefone. –– Moshi moshi? Yeoboseyo? –– Repetiu, falando coreano. E ela nunca tinha ficado tão aliviada de ouvir a voz de alguém. Era o garoto que a tinha salvado no outro dia, o mesmo garoto que tinha implicado na primeira vez que o viu. Ele ligava para ela desde então, ela se lembrou, para verificar se ela estava bem. Era incômodo no início, visto que ela não se sentia a vontade falando com ele, mas teve de se acostumar, já que ele a tinha ajudado. –– H-Hobin-san... –– Começou a falar, mas um soluço de choro a interrompeu, e somente depois de respirar fundo que Akame voltou a falar. –– Você pode vir me buscar aqui na escola? Eu acho... Acho que estou com problemas. –– O ouviu ficar alarmado, perguntando se ela estava bem, se tinha se machucado, mas Akame não sabia responder àquilo, então apenas pediu que ele viesse rápido. –– E-Estou no laboratório. É, eu... venha logo, por favor? –– O ouviu desligar depois de dizer que estava indo buscá-la e Akame se arrependeu de ter atendido o telefone. Mais uma vez seria ele quem a ajudaria, mais uma vez, ela ficaria devendo uma para ele. Akame não gostava de dever nada a ninguém, ainda mais quando eram pessoas que ela não conhecia bem, mas aquela era uma situação de emergência, e seus olhos ainda ardiam muito.