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Visite a solidão, não a torne morada
Ei, tu aí. Olhe agora para o lado. Tem alguém contigo? Não? Sim? Esse texto é para quem tem uma pessoa ao lado, mas que sente-se sozinho mesmo assim. Até acho que é normal essa solidão, acho mesmo que o ser humano, como ser individual, deve ter esse sentimento meio que inerente. Mas tu já pensaste sobre como poderia evitar essa sensação de estar “sozinho acompanhado”?
Tem uma frase do Quintana que diz “ele morava sozinho e um dia fugiu de casa”. Tu já pensaste em fugir de casa, mesmo sabendo estar sozinho? Eu já. planejei fugas dignas de filme. Mas depois lembrei, ‘quem alimentaria meu gato’, porque a fuga exige que tu não conte para ninguém, né? É, esse é um texto cheio de encucações pra tua cabeça, que tá aí do outro lado da tela lendo.
Convivi por algum tempo ‘acompanhada’, mas tinha a impressão em alguns momentos de estar sozinha. Era como se naquele sofá estivéssemos eu, uma sombra ao meu lado e um amor flutuando na minha cabeça. Achava que era noia minha. Mas não era. Por quê? Porque simplesmente eu estava acompanhada apenas de mim mesma, dos meus sentimentos e talvez de uma projeção da minha mente.
Por motivos inexplicáveis, eu pensava que aquela pessoa que, naquele momento, caminhava ao meu lado [mas não parecia estar ali] vivia uma vida no qual eu não deveria fazer parte. Pensei certo. Mas fiquei sabendo tarde demais. Disse o Lennon que “a ignorância é uma espécie de bênção. Se você não sabe, não existe dor". Essa dor retardada dói mais que a dor do saber na hora certa? Será que há hora certa para saber certas coisas?
Então, tu te vê sozinho. Agora, desacompanhado, analisa a situação, olha para trás e percebe que tu simplesmente não conhecia a pessoa que estava do teu lado. Tadã: Aí está a resposta para algumas perguntas desse texto [pelo menos pra mim]. A resposta, por exemplo, do por que se sentir sozinho mesmo acompanhado.
Tá, tá, agora tu vai dizer: “mas, Grozelha, é impossível conhecer uma pessoa complemente, visto que ela própria não tem conhecimento pleno de si”. E eu vou concordar contigo. É sim, impossível, ao passo que somos todos uma construção inacabada, para o resto da vida. No entanto, tento justificar a mim e a ti, que quando temos essa sensação de incompletude, não é só uma sensação, ela existe. Não a ignore.
Ser o mais sincero possível, conversar, desabafar, até gritar na janela se for o caso, mas pôr pra fora o que se sente é mais benéfico pra ti e para o outro do que tu possas imaginar. Não saber pode ser uma benção, sim. Mas saber te faz tomar decisões acertadas sobre uma situação real e não imaginária. Porque o que não sabemos, inventamos. Sempre há um jeitinho de inventar.
Não omita, não suprima e não minta. O básico para dar segurança a pessoa que está contigo no sofá. Porque depois que ela levantar e sair porta a fora, sem olhar pra trás, não vai adiantar muito dar explicações. Se é que tu vais querer explicar algo, ou ela a ti.
Quero dizer com isso tudo que, não ignorar o que se sente é um passo importante para te tornar mais completo, deixar a outra pessoa saber quem tu és e o que almeja vai deixá-la segura, mas que apesar disso sempre haverá aquela partezinha que ninguém vai saber, além de ti. Outra coisa, antes que eu esqueça, não sinta-se só quando acompanhado: FALE! Porque morre lentamente não expõe suas ideias, seus sentimentos e desejos. E a gente tem pouco tempo aqui nesse planetinha azul.
Visitar a solidão as vezes é saudável. Mas não a torne morada. Não visite a solidão acompanhado. Vá sozinho, reflita e volte. Creio sermos uma geração de pessoas que vivem muito isso. Não queremos filhos cedo, não queremos casar-nos cedo. Vivemos em apartamentos apertados. Compramos porções para um. Queremos nossas vidas “nos trilhos”, somos do mundo. Mas e o mundo, o mundo nos é dado de que forma senão pelos laços que criamos?
Vou terminar por aqui, sem responder esse monte de questionamentos que lancei. Porque acredito que não há uma responsa certa e concreta para eles.