A Gentrificação da Mulheridade
SĂŁo tempos difĂceis para as mulheres. O movimento feminista dos anos 70 e 80 levantou a conscientização sobre a violĂȘncia contra mulheres numa escala global. Como resultado, hoje, nĂłs podemos identificar o assassinato de mulheres e meninas como sistemĂĄticos sob o patriarcado. Na AmĂ©rica Latina e Caribe, onde a violĂȘncia contra as mulheres Ă© uma epidemia, nĂłs atĂ© temos um termo para isso: feminicĂdio, que significa âo homicĂdio de uma mulher por conta de seu sexoâ.
Apesar disso, a realidade vivida pelas mulheres se tornou mais indizĂvel hoje. Aquelas que reconhecem que as fĂȘmeas sĂŁo oprimidas como uma classe, sob o patriarcado, sĂŁo rotuladas como âfĂłbicas ou pior. Em outras palavras, anĂĄlise feminista de sistemas de poder Ă© posta de lado para acomodar a ideia de que a mulheridade nĂŁo Ă© nada mais que um âsentimentoâ.
Em âEqualidade para elaâ, a jornalista Katelyn Burns escreve:
âEntĂŁo, o que significa se sentir como uma mulher? Significa que se vocĂȘ Ă© uma mulher, isso Ă© qualquer coisa que vocĂȘ estĂĄ sentindo no momento. Mulheres sĂŁo tĂŁo diversas em suas experiĂȘncias que nĂŁo pode haver um modelo universal de mulheridade.â
Aparentemente, mulheridade Ă© agora tĂŁo abrangente que pode ser experenciada por qualquer um, baseado nesses âsentimentosâ. Ainda assim, ao mesmo tempo, dentro dessa anĂĄlise, a mulheridade Ă© representada sem sentido e sem raĂzes estruturais.
âO que Ă© uma mulher?â Ă© uma pergunta feita por aquelas privilegiadas o bastante para nunca terem tido de sofrer a resposta desta pergunta. NinguĂ©m pergunta Ă s mulheres como Ă© âsentirâ a mulheridade, poque, para nĂłs, ser âmulherâ Ă© simplesmente nossa realidade.
A maioria das mulheres no mundo aprendem bem cedo que, no patriarcado, sua opiniĂŁo acerca da sua subordinação Ă© irrelevante. Como uma força estrutural, o patriarcado continua a degradar e violar mulheres e meninas, gostemos ou nĂŁo, concordemos ou nĂŁo â os sentimentos das mulheres que se danem.
A violĂȘncia masculina contra mulheres garante a nossa conformidade. FeminicĂdio Ă© o extremo letal disso, mas a violĂȘncia contra mulheres e meninas se manifesta de inĂșmeras maneiras. Em cĂrculos feministas, nĂłs falamos sobre violĂȘncia masculina contra mulheres com muita frequĂȘncia. Na verdade, acabar com a violĂȘncia masculina Ă© o ponto mais urgente da agenda para a liberação das mulheres.
Mas como nĂłs podemos erradicar a violĂȘncia masculina contra mulheres se ignorarmos a centralidade dos corpos das mulheres sob a supremacia masculina? Como podemos ultrapassar a sociedade patriarcal se recusarmos a reconhecer que mulheres sĂŁo uma classe de pessoas, cujo status Ă© determinado pelo seu sexo?
Em 31 de Agosto, essa realidade foi revelada em um hospital chinĂȘs. Uma mulher de 26 anos chamada Ma Rongrong entrou em trabalho de parto uma semana antes da data marcada. Ela foi advertida pela equipe mĂ©dica, no hospital Yulin NĂșmero 1, na provĂncia de Shaanxi, que a circunferĂȘncia da cabeça do bebĂȘ era muito grande para um parto normal. Ma e seu marido, Yan Zhuangzhuang, assinaram um documento, contrariando as recomendaçÔes mĂ©dicas, afirmando que Ma queria tentar um parto vaginal mesmo assim.
O jornal chinĂȘs Caixin relatou que, conforme as dores do trabalho de parto intensificavam, Rongrong mudou de ideia e pediu uma cesĂĄrea, vĂĄrias vezes. O problema Ă© que, sob a lei chinesa, um familiar da paciente deve aprovar todas as cirurgias de grande porte que seu parente estĂĄ para ser submetido. A famĂlia de Rongrong recusou a cesĂĄrea.
O artigo explica: âOs registros do Hospital mostraram que ambos, a mulher e o hospital, solicitaram permissĂŁo da famĂlia trĂȘs vezes para realizar a operação, mas os parentes dela alegadamente recusaram e insistiram num parto normal.â HĂĄ imagens de vĂdeo de Rongrong tentando andar, mas ajoelhando em dor excrucitante, rodeada por meia dĂșzia de membros da famĂlia.
Hoje, a famĂlia e a equipe do hospital culpam uns aos outros por negar a Rongrong a cesĂĄrea que precisava. Mas parece que a Ășltima palavra dada por sua famĂlia â especificamente o marido de Rongrong, que tinha sua permissĂŁo escrita para decidir sobre o mĂ©todo de tratamento mĂ©dico para sua mulher (apĂłs consulta com equipe mĂ©dica), ainda assim nĂŁo aprovava a cirurgia.
Em desespero, Rongrong até mesmo tentou deixar o hospital, mas foi pega e trazida novamente para dentro. Eventualmente, ela tomou uma decisão dråstica e trågica: Ma subiu numa janela do quinto andar e pulou para a morte.
Por que Rongrong morreu? Eu diria que Rongrong morreu, em Ășltima anĂĄlise, por causa de seu sexo.
NinguĂ©m perguntou a Rongrong se ela se âsentiaâ como uma mulher, o patriarcado simplesmente tratou-na como uma â governando seu corpo de fĂȘmea contra sua vontade, ignorando seus pensamentos e sentimentos. Uma polĂtica nacional ditando que todas as cirurgias tem que ser aprovadas por membros familiares afeta cada paciente na China Mas, como a morte de Rongrong mostra, essa polĂtica tem repercussĂ”es especiais para aquelas com corpos fĂȘmeas.
Um caso igualmente horrĂvel aconteceu na mesma altura na RepĂșblica Dominicana. Uma menina de 16 anos, chamada Emely Peguero Polanco, estava desaparecida hĂĄ mais de 10 dias. Seu desaparecimento e os esforços de busca foram notĂcias de Ășltima hora, em parte porque Peguero Polanco estava grĂĄvida de cinco meses em um paĂs que fetichiza a gravidez. Por quase duas semanas, parecia que o paĂs nĂŁo tinha mais o que falar.
Como muitas pessoas suspeitavam, Peguero Polanco foi assassinada. Suas horas finais e a maneira de sua morte foram horrĂveis. Ela foi emboscada pelo seu namorado, um cara mais velho chamado Marlon Martinez, que disse que a levaria para uma consulta mĂ©dica. Ao invĂ©s disso, ele a levou para seu apartamento onde (provavelmente com a ajuda de outras pessoas) lhe fez um aborto forçado.
A investigação ainda estĂĄ aberta, mas o crime Ă©, ambos, misĂłgino e vil. A mĂŁe de Marlon, Marlin Martinez, era uma polĂtica influente na comunidade e ajudou ativamente seu filho a encobrir o crime. Marlin pagou vĂĄrios funcionĂĄrios para transladar o corpo de Peguero Polanco atravĂ©s do paĂs, de modo que as autoridades nĂŁo pudessem encontrĂĄ-lo Marlin atĂ© mesmo aparece com seu filho numa gravação de vĂdeo em que eles pedem a Peguero Polanco â que jĂĄ tinha sido assassinada â para voltar para seus amados familiares, dirigindo-se a ela como se tivesse fugido.
O relatĂłrio forense afirma que Peguero Polanco foi vĂtima de violĂȘncia fĂsica e psicolĂłgica, bem como tortura e atos bĂĄrbaros:
âDentro do cadĂĄver, havia pedaços do feto que ela gestava no Ăștero, concussĂŁo na parede uterina e canal vaginal, perfuração do Ăștero, significando que uma grande força foi aplicada na ĂĄrea e vĂĄrios ĂłrgĂŁos relacionados a um aborto forçado.â
O relatĂłrio tambĂ©m explica que ela tinha âuma concussĂŁo contundente com hemorragia cerebral, significando que o trauma foi inflingido enquanto ela estava vivaâ.
Independente dos âmotivosâ que seus assassinos e seus cĂșmplices pudessem ter (alguns analistas argumentam que havia um elemento de classe, pois Peguero Polanco era pobre e Marlon era de classe alta, entĂŁo sua famĂlia nĂŁo queria uma garota da classe trabalhadora carregando um filho seu), Peguero Polando foi morta por causa de sua gravidez, corpo fĂȘmea. E eu tenho certeza que nenhum desses que fizeram o aborto forçado que a matou perguntaram a Peguero Polanco se ela se âidentificavaâ com as realidades biolĂłgicas da sua mulheridade.
Ronrong e Peguero Polanco sĂŁo meros exemplos recentes, mas os modos que as mulheres sĂŁo assassinadas por serem mulheres, sob um sistema patriarcal, sĂŁo infinitos. Mas a teoria Queer de hoje e seus defensores estĂŁo pondo de escanteio essa brutal realidade para pintar a mulheridade como abstrato. Reduzir a âmulheridadeâ a sentimentos, vestimentas e identidades pessoias Ă© um tapa na cara da maioria das mulheres e garotas cuja opressĂŁo lhes Ă© imposta, independente de como se vistam ou identifiquem.
Recentemente, o cantor britĂąnico Sam Smith se apresentou como ânĂŁo-binĂĄrioâ dizendo âEu me sinto tĂŁo mulher quanto homemâ. Essa identidade recĂ©m-descoberta parece ser baseada unicamente no superficial. Ele explica:
âHouve um momento na minha vida em que eu nĂŁo tinha uma Ășnica peça de roupa masculina, sĂ©rio... Eu usava maquiagem completa todo dia na escola, cĂlios postiços, leggings com coturnos Dr. Martens e enormes casacos de pele â por dois anos e meioâ.
Determinar que vocĂȘ âse sente como uma mulherâ porque gosta de usar salto alto, maquiagem e vestido Ă© profundamente misĂłgino, pois essas sĂŁo apenas as armadilhas da feminilidade â uma projeção das fantasias masculinas sobre mulheres â ainda assim, essa ideia parece estar ganhando tração.
Bem como a classe alta adora a estĂ©tica da classe operĂĄria e similamente aos autores masculinos que fetichizam mulheres na IndĂșstria do Sexo, querendo parecer âhipâ, como Kajsa Ekis Ekman argumenta, essa diluição da mulheridade Ă© uma forma de gentrificação. Nesse caso, a mulheridade Ă© desejada e cooptada por aqueles que sĂŁo beneficiados no patriarcado (machos), enquanto as realidades desconfortĂĄveis e violentas da mulheridade continuam relegadas Ă s subclasses, que nĂŁo tem saĂda.
Em Being and Being Bought, Ekman escreve:
âUm homem que romantiza a classe operĂĄria aplaude o trabalhador fĂsico e espera que ele tenha alguns desses atributos, mas Ă© o estereĂłtipo de masculinidade que ele admira, nĂŁo a pessoa tentando sobreviver em condiçÔes difĂceis. O âwiggerâ sente que Ă© parte da comunidade negra, mas nĂŁo se chateia com a violĂȘncia no gueto. O que ele falha em compreender Ă© que ao fetichizar a vida cotidiana de alguĂ©m, ele mostra quĂŁo distante estĂĄ dela. As condiçÔes de vida se tornam uma identidade, e depois um fetiche.â
A gentrificação da mulheridade pega os estereĂłtipos de gĂȘnero impostos Ă s mulheres e os apresenta como se eles definissem a mulheridade. Isso oferece uma fachada subversiva que funciona apenas a nĂvel individual, em vez de estrutural, ignorando o sofrimento e opressĂŁo das mulheres. Em vez de avançar nos direitos das mulheres e garotas, essa forma de gentrificação os obscurece, apagando as razĂ”es pelas quais mulheres precisam de direitos sexuais em primeiro lugar.
Ekman argumenta:
âO oprimido estĂĄ profundamente consciente da humanidade dos privilegiados. Para os privilegiados, por outro lado, o oprimido Ă© um enigma vivendo num mundo mĂĄgico meio-humano. A fantasia do privilegiado Ă© ter a habilidade de chafurdar nesse mundoâ.
De fato, homens podem atĂ© fazer isso, mas eles nunca serĂŁo forçados a existir dentro dos limites da mulheridade, pois nĂŁo nasceram com corpos fĂȘmeas. AtravĂ©s de escolhas superficiais como roupas e maquiagem, a opressĂŁo das mulheres Ă© transformada em algo libertador... para todos, menos nĂłs.
A crueldade casual desses argumentos absurdos e circulares tĂȘm se desenrolado enquanto meninas e mulheres no mundo todo sentem o peso do que para elas, Ă© uma realidade, nĂŁo uma identidade.
Texto de Raquel Rosario Sanchez
Link original:Â https://goo.gl/wkA7ja













