Depois da tempestade, um sobrevivente das mentiras. por Julio Vicari, 2026.
Toda grande crise deixa duas marcas: a que se vê e a que fica escondida. A primeira aparece nos números, nas fotografias, nos jornais. A segunda mora nas conversas interrompidas, nas amizades perdidas e nas palavras que nunca mais puderam ser recolhidas.
Durante a pandemia, muita gente apontou o dedo. Houve quem chamasse o outro de irresponsável. Houve quem chamasse o outro de manipulador. Entre um extremo e outro, quase ninguém teve coragem de admitir uma verdade simples: todos tentavam entender um cenário novo, cercado de medo, incerteza e informações que mudavam a cada semana.
Hoje, passados alguns anos, continuam surgindo documentos, investigações e revelações sobre decisões equivocadas, interesses políticos, falhas de gestão e erros de comunicação. É natural que isso desperte indignação. Afinal, quando vidas estão em jogo, qualquer erro pesa muito.
Mas existe uma pergunta ainda mais difícil do que descobrir quem errou: quem está disposto a reconhecer o próprio erro?
Pedir desculpas nunca foi um hábito popular. É mais fácil mudar de assunto, encontrar uma nova justificativa ou dizer que tudo era inevitável. O orgulho costuma falar mais alto que a consciência. Também é perigoso transformar o outro em inimigo permanente. Quem apoiou uma medida pode ter agido por convicção sincera. Quem discordou pode ter feito o mesmo. Houve oportunistas dos dois lados? Sabemos qual lado usou para continuar no poder. Houve pessoas honestas tentando fazer o melhor que conseguiam com as informações que tinham. Mas vozes fortes influenciadoras cometeram erros graves, julgando sem saber o que julgavam; acusando sem saber se existia culpa. Artistas, jornalistas, políticos, ministros e até ignorantes manipulados cometeram esses erros. Essas vozes vão pedir desculpas?
A História costuma julgar com mais calma do que as redes sociais. Ela separa os erros cometidos de boa-fé das decisões tomadas por negligência, abuso de poder ou interesse. É esse julgamento, baseado em provas, investigação e responsabilidade, que deve prevalecer. Talvez a maior lição daquela época não seja descobrir quem venceu uma discussão. Talvez seja aprender que nenhuma sociedade sobrevive quando substitui o diálogo pelo rótulo e a dúvida pela certeza absoluta. No fim, as crises passam, os mortos não ressuscitam, mas continuam sua caminhada. O que permanece é o fato de uma farsa ser usada para destruir caminhadas no mundo todo. Mas devemos aprender com isso, a melhorar a forma como escolhemos tratar uns aos outros quando ninguém tinha todas as respostas.














