Conto - Poeira cósmica.
Ontem saí com um pessoal esquisito, o carro tocava música alta e estranha, a maioria num tom feliz — aquela felicidade que todos sabiam ser falsa, mas ignoravam isso — e piadas internas que eu não conhecia. Agora a dúvida que permanece no ar é, o que eu estava fazendo lá com essas pessoas que eu mal conhecia e ouvindo uma música que eu definitivamente não gostava? Me sentia solitária, estava tentando gostar de viver novamente, porque às vezes a gente perde o gosto pela vida ou a vida perde o gosto pela gente.
A noite estava tão bem iluminada e mesmo sendo assim eu mal conseguia enxergar o casal que estava aos beijos ao meu lado. O motorista dirigia rápido, rápido demais e em nenhum momento sequer eu tive medo de morrer, de alguma forma sabia que se isso acontecesse eu só voltaria para o lugar de onde vim, junto das estrelas como poeira cósmica.
Senti o vento batendo no meu rosto e tudo começou a formigar, como se fosse um momento relevante, como se fosse uma boa sensação, como se por um breve momento eu tivesse lugar naquele mundo e eu sorri, sorri porque senti algo, senti o gosto da vida novamente.
E ela, a vida, depois desse breve momento de ilusória felicidade me bateu, o gosto que havia em mim agora era sangue, o mais vermelho, o mais brilhante sangue que alguém poderia experimentar e eu apanhei com gosto, assim como apanhava quando meu coração batia forte, assim como apanhava quando via o sorriso dele. Era por causa dele que eu estava ali, ele me tirou o gosto da vida, me deu esperanças de pertencer a algo e depois arrancou tudo, foi embora, assim do nada, como às vezes fazemos quando estamos cansados de algo. Ele se cansou de mim.
Era de se esperar, o que uma estrela tão brilhante quanto o sol iria querer com alguém como eu? Não era pra mim, nunca foi. Eu estava destinada a momentos demasiados curtos e falsos de felicidade, como quando o vento bate em minha face e o sangue da vida jorra de minha boca.
O casal já não estava mais lá.
Eu olhava para o céu, estrelado, milhões e milhões de estrelas como ele, brilhantes e encantadoras. Ele me disse que iria ser melhor que todos que passaram por minha vida e eu acreditei, por um momento tudo parecia real, a felicidade parecia real. Eu o vi de novo, chorando em meu ombro e dizendo que sentia muito, me pedia desculpas por ser um idiota, desculpas e mais desculpas, o que eu poderia fazer? Aceitei, ele era a estrela, eu era poeira cósmica.
O motorista estava ali, seus olhos perderam o brilho, sangue escorria por sua cabeça, sua boca entre aberta denunciava uma surpresa eterna.
Senti minhas mãos, meu rosto já não mais formigava.
Eu não pertencia a aquele lugar, nunca pertenci, mas ele fez eu me sentir como se um dia eu pertencesse, como se um dia eu fosse feliz.
O gosto de sangue permanecia em minha boca e o coração batia, eu apanhava.
As estrelas continuavam acima de mim, mas eu não conseguia alcança-las, foi quando a Terra me chamou. Ela disse “O mundo está caindo eu estou morrendo, será que você pode pular antes de mim? Veja, não tenho luz própria, preciso de alguém para me salvar”.
Era um precipício, uma rua sem saída, eu tinha que pular e salvar a mãe Terra, tinha que saltar dessa para outra vida. E foi o que eu fiz, saltei.
Não virei estrela, não virei fantasma, virei Terra com poeira cósmica, sem luz própria, porém infinita, eu nunca iria morrer.
As sirenes me acordaram e eu percebi por fim, estrelas morrem.
- Leandra Diamor. siga: medium.com/@leandradiamor















