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Há dias em que sinto que não sei ser amada. Como se algo em mim tivesse desaprendido o gesto de receber. Estendo as mãos, mas sempre na direção do outro, nunca em direção a mim. Como se não me sentisse digna… Como se o amor fosse um prêmio reservado aos que nunca se quebraram. Como se evitando o amor, evitasse também a dor.
Eu sou uma pessoa gentil, costumava virar o rosto quando via alguém tropeçar, para que não se sentisse observado ou envergonhado. Eu sou uma pessoa boa, poxa. Carrego essa delicadeza quase como um pedido de desculpas ao mundo.
Mas me pergunto: por que não consigo ser doce comigo?
Por que minha empatia sempre para na fronteira da minha pele?
Às vezes, tudo dói, e eu nem sei exatamente o porquê. É uma dor espalhada, uma saudade de algo que nunca vivi.
Porra, por que tem que doer tanto?
Eu me sinto dilacerada por dentro, tentando costurar com amor o que o tempo insiste em rasgar.
Não me acho bonita.
Não me acho suficiente.
Carrego em mim uma coleção de medos, traumas e culpas — como se cada erro antigo ainda respirasse nas minhas costas.
Tenho medo de ser traída, e talvez isso seja o reflexo mais cruel do que um dia fui.
Talvez seja o karma, ou talvez só o eco daquilo que não soube curar.
Eu só queria ser normal, queria ser leve, transparente, como quem caminha sem precisar justificar a própria existência.
Queria me olhar e não querer ser outra pessoa, queria que o espelho me abraçasse em vez de me julgar.
Queria ser mais bonita, mais segura, mais inteira. Mas, no fundo, o que eu mais queria era me bastar.
Amar sem implorar, existir sem pedir desculpas, respirar sem sentir culpa.
Talvez o amor — o verdadeiro — comece quando a gente para de mendigar carinho e começa a se oferecer colo.
Talvez eu esteja aprendendo, aos poucos, que ser amada não é tarefa, é entrega.
E um dia, eu espero que essa dor só desapareça, que talvez, quem sabe, possa se transformar em ternura...
-ren-di-da
eu finjo que toda estrela é cadente
Cada excesso diminui a vitalidade e, portanto, o sofrimento.
Albert Camus, “A Queda”
Apenas sentir não é o bastante para alguém que vive de excessos.
Intenso e mágico - J.M

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Versos póstumos 2
Talvez nao seja aqui
Ou eu apenas tenha cansado.
Ah sinta a canção
E se perca hoje a noite.
Tome um gole e lembre
Do olhar dela
Dizendo adeus
Na parada.
Talvez nao seja aqui
cigarros demais
Bebidas geladas
Praças cheias
Verão eterno
Eu me divertir
Mas agora cansei.
Fique comigo amor
Longe demais de casa
E seu olhar talvez seja um atalho.
Esses versos póstumos
Sao minha morte
Sao meu descanso.
Mas esta tudo bem
A luz que não estava aqui
Agora está.
Talvez nao seja aqui
Ou eu apenas tenha cansado,
Minister e pinherense demais.
Ria, querida,
Que isso seja teu extase.
Eu fui dormir
Mas você me acordou
Com todo
Seu amor.
Aliás, não quero ter nem ser de ninguém. Quero algo além desse sentimento de posse, quero a entrega todo dia, por vontade própria. Sem contratos de amor eterno. Que o meu alguém tenha mil defeitos, seja o oposto de todas as minhas idealizações, mas que me ame com o coração e a alma, me respeite, cuide de mim, me proteja. Sem sufocações, sem pressões, um amor leve e sem cobranças.
Caio Fernando Abreu.
Eu sinto demais, esse é o problema.
Escritora de Luar