You may say I’m not a dreamer, but I don’t want to be the only one*
Ficar sonhando acordada Ă© quase um vĂcio para mim. Vez ou outra me pego perdida em histĂłrias que imagino, desenvolvendo linhas de pensamentos, hipĂłteses e aparentes soluções. É um exercĂcio que tem desencadeamentos bem interessantes quando se trata de enxergar outras visões, porĂ©m, nĂŁo raramente, acabo me perdendo e me distanciando um pouco do contexto em que estou inserida, com os pĂ©s sentindo a necessidade de tocar um chĂŁo mais firme, afinal, Ă© insustentável ficar caindo em buracos ao correr atrás de coelhos atrasados.
Por vezes, sinto que cresci bastante, que sou grande, possuindo capacidade de realizar muitas ações. Em outras, sinto que sou impotente, que nada posso fazer, que sou um ser muito pequeno mesmo. Mas é revezando esses sentimentos que me permitem alcançar objetivos em algumas situações e ao mesmo tempo abrir portas em outras, muitas vezes há a necessidade da união de ambos. Lágrimas podem querer me afundar nesse processo, mas combinando essas sensações, vou fazendo o que estiver ao meu alcance, seja estando muito pequena, seja estando muito grande.
Outras vezes me pego correndo em cĂrculo com um monte de seres estranhos, parece que nunca vamos chegar a lugar algum. PorĂ©m, lá estou eu, correndo, sem pensar muito bem, sem entender muito bem. Já tive coragem de perguntar o porquĂŞ de fazermos isso, mas as respostas que escuto sĂŁo desdenhosas, com se eu estivesse questionando o Ăłbvio. Contudo, qual a minha surpresa quando descubro que naquela corrida todos ganham? Ou será que Ă© o contrário?
Algumas vezes fico perdida, precisando de ajuda, mas o que encontro sĂŁo palavras duras e secas, como pimenta sob a pele ou machucado, que fazem questĂŁo de mostrar as minhas limitações. Mostra-se como um alerta estridente, podendo ser contĂnuo, parecido com o choro de um bebĂŞ ou guincho de um porco. Será que isso vem de dentro de mim?
Mas também já me peguei estagnada, dependendo dos caminhos que escolhi, impedida de conseguir avançar, parecendo um eterno chá das seis. É como se alguém tivesse quebrado o relógio, ou como se as horas estivessem retrocedendo.
Não é incomum pessoas aparecerem e desaparecerem logo em seguida, não sem antes dizer algo marcante, mexendo comigo, mas deixando-me sozinha em seguida. São momentos pontuais, mas capazes de “encucar” ideias em minha cabeça, ainda que eu permaneça relutante.
A rainha ditatorial também não pode ser esquecida, aquela que governa para si apenas, que distorce tudo a seu favor. Mas ai de você se não aceitar tal jogo, pois quando se cresce exageradamente, ela simplesmente decidirá cortar a sua cabeça, sem maiores justificativas. E junto a essa rainha, há sempre outros que a ela se subjugam, que se omitem, que compactuam com esse regime de atrocidades.
DifĂcil Ă© acreditar que faço parte desse mundo caĂłtico, aparentemente sem sentido, onde algumas regras de amplo consenso nĂŁo sĂŁo seguidas, como se estivĂ©ssemos sempre jogando crĂquete com a rainha.
Mas é nele que eu vivo, é nele que eu preciso agir. Não quero fingir acordar como se tudo tivesse sido um sonho, não quero mais perseguir coelhos atrasados, que servem seus superiores por medo. Talvez eu não consiga mudar esse mundo, mas alterações que posso causar dentro dos meus limites podem ter um efeito amplificador muito maior do que eu pensei; quem sabe. Só sei que cansei de apenas sonhar.
B.
 *Você pode dizer que não sou um sonhador, mas eu não quero ser o único.









