Já faziam quase cinco dias que não encontrava motivação nem pra tomar banho, deitado, mesmo no calor, com sede e sem nenhuma vontade de beber, com fome mas sem vontade de comer, e mesmo assim o estado de torpor parecia uma aura sólida em volta dos olhos. Conseguiu em um esforço se levantar e ir até a janela, vendo a “Filha da Fúria”, sua moto, com o banco novo marrom e se imaginou sentindo o vento batendo no rosto. Foi ao banheiro, tomou um banho rápido e gelado, afinal, não poderia se sentar nela se não estivesse limpo. Vestiu suas roupas pretas, as botas meio carcomidas pelo tempo mas extremamente confortáveis, pegou o capacete e foi se encontrar com ela, quente pelo sol do meio dia, deu a partida e saiu, sem nenhum lugar pra ir. Assim como todas as vezes que empunhava a espada, parecia que no momento que montava nela, sua mente se esvaziava, tornando a vida quase “vivível”. Pegou o caminho que seu amigo mostrara há algumas semanas, e acelerou rumo ao nada, sentindo a brisa, agora real, e continuou desviando de carros, ouvindo a canção do motor, sentindo a vibração do asfalto. A Fúria resmunga depois de horas que vieram como minutos e ele para num posto, a abastece e pergunta pro camarada de cinza e verde por onde está. Sai do posto sem pressa, acompanhando a velocidade de outros viajantes até o retorno à direita. Havia dirigido pra longe, perto de lugares que já estivera, talvez destino, talvez o inconsciente. Voltando para a pista principal, olha pro céu e vê que na direção onde estava indo antes, o tempo está fechando, nuvens carregadas de lembranças, mas ao seu lado, o sol se põe, e as nuvens tomam tons alaranjados, roxos com bordas escuras. Acelera o caminho de volta pegando algumas gotas de uma garoa que não refresca mas também não incomoda seus olhos marejados. Estaciona no lugar de sempre, entra em casa, toma um banho, uma cerveja e se deita, esgotado. Uma boa tarde pra dirigir, mas espera que os sonhos não o perturbem essa noite. Melhor deixar as nuvens pra trás. Que chova em outros agora.












