Historicamente, dois gĂȘneros foram estabelecidos no Ăąmbito social: o feminino e o masculino. Todavia, existem pessoas que nĂŁo se identificam com eles: as autointituladas ânĂŁo-binĂĄriasâ. Elas nĂŁo gostam da obrigatoriedade de se encaixar em um sistema falido que invalida existĂȘncias e limita as possibilidades do ser. A luta des nĂŁo-binĂĄries Ă© muito importante para o crescimento da liberdade individual. Trata-se de trazer visibilidade para pessoas que foram silenciadas por nĂŁo se identificarem com os padrĂ”es impostos por uma sociedade conservadora e exclusivista. Para falar sobre, entrevistei e nĂŁo-binĂĄrie Cosmo Kahalia (Kahalia).
- GlossĂĄrio
*Cis: AlguĂ©m que se identifica com o gĂȘnero que lhe foi designado ao nascer.
*Trans: AlguĂ©m que nĂŁo se identifica com o gĂȘnero que lhe foi designado ao nascer.
*Intersexo: termo geral usado para uma variedade de condiçÔes em que uma pessoa nasce com uma anatomia reprodutiva ou sexual ou cromossĂŽmica, que nĂŁo parecem se encaixar nas definiçÔes tĂpicas de sexo feminino ou masculino. Por exemplo, uma pessoa pode nascer parecendo ser do sexo feminino do lado de fora, mas tendo a maioria de sua anatomia interna tipicamente masculina. (Fonte: http://gecopros.blogspot.com.br/)
*O artigo âĂȘâ Ă© usado para representar pessoas de todos os gĂȘneros.
-EU: Qual artigo vocĂȘ utiliza para referir a si prĂłprie? Ă o mesmo para todes es nĂŁo-binĂĄries?
COSMO: âEu, pessoalmente, tenho uma fluidez de gĂȘnero que estĂĄ entre o masculino e o neutro, gosto de pronomes neutros e masculinos. GĂȘnero Ă© um espectro imenso com inĂșmeras possibilidades de identificação, cada nĂŁo-binĂĄrie tem uma preferĂȘncia diferente. O que precisamos fazer Ă© perguntar para a pessoa como ela gostaria de ser tratada e respeitar isso. NĂŁo podemos simplesmente olhar para alguĂ©m e deduzir o gĂȘnero delu pela roupa/corpo. NĂŁo-binĂĄries nĂŁo precisam se encaixar em um padrĂŁo fixo e limitado. NĂŁo Ă© porque alguĂ©m usa batom e saia que automaticamente irĂĄ querer ser tratade por pronomes femininos. â
EU: Existe diferença entre os conceitos de âsexoâ e âgĂȘneroâ? Qual Ă©?
COSMO: âOlha, Ă© um assunto complicado que estĂĄ sendo debatido entre biĂłlogues, outres cientistas e pessoas trans (etc). Estus estĂŁo dizendo que nĂŁo faz tanto sentido assim o termo "sexo biolĂłgico". Existem por exemplo pessoas intersexo, como um homem com cromossomos xy com pĂȘnis e com ovĂĄrios. Cromossomos tambĂ©m nĂŁo definem tanto assim o "sexo" de alguĂ©m. NĂŁo importa o gĂȘnero que estĂĄ na identidade da pessoa, na certidĂŁo de nascimento. Se ela diz que o gĂȘnero Ă© tal, entĂŁo pronto. Basta respeitar. â
EU: HĂĄ pessoas que acham que, se nĂŁo houvesse sido criado o conceito de âgĂȘneroâ, a opressĂŁo seria menor ou inexistente. Como vocĂȘ se sente acerca dos gĂȘneros, em geral?
COSMO: âMuita violĂȘncia Ă© fruto dessa imposição de gĂȘneros binĂĄrios na sociedade. Acho que nĂŁo deveriam ter imposiçÔes sobre as pessoas. NĂŁo deverĂamos ser obrigades a desempenhar papĂ©is de gĂȘnero de acordo com nossos genitais. A questĂŁo da abolição de gĂȘnero Ă© algo interessante, acho vĂĄlido sim, porĂ©m na nossa sociedade atual creio que isso nĂŁo seja possĂvel. Por enquanto, acho que devemos mudar o que for possĂvel, como criar novos nomes para descrever gĂȘneros nĂŁo-binĂĄrios, para as pessoas se sentirem representadas e incluĂdas em algum deles, se for o que as deixam confortĂĄveis. Por exemplo: eu sou uma pessoa nĂŁo-binarie, e dentro disso sou uma pessoa com gĂȘnero fluĂdo. Quando descobri que existe uma nomenclatura que descreve o que eu sinto, me senti muito feliz em saber que pertenço a um grupo e que hĂĄ outras pessoas que entendem o que passo. Me sinto muito bem me denominado nĂŁo-binarie/gĂȘnero fluĂdo. TĂȘm pessoas que nĂŁo gostam disso, que sentem que nĂŁo precisam de "rĂłtulos". O que importa mais Ă© respeitar cada pessoa e fazer o que estiver dentro de nosso alcance para melhorar a situação. â
EU: De que forma a sociedade lida com a sua identidade? VocĂȘ Ă© respeitade?COSMO: âA sociedade força muitos papĂ©is de gĂȘnero na gente: se vocĂȘ se identifica como mulher precisa se depilar, usar vestido, usar maquiagem, ter vagina, voz fina; se vocĂȘ se identifica como homem, precisa ter um peitoral liso, voz grossa, usar roupas escuras e que cobrem seu corpo, cabelo curto, ter pĂȘnis; se vocĂȘ Ă© trans, vocĂȘ precisa fazer tudo o que for possĂvel pra se aproximar Ă imagem de uma pessoa cis: cirurgias, terapia hormonal, se vestir de acordo com o estereotipo tal de seu gĂȘnero, etc; se vocĂȘ Ă© nĂŁo-binarie, nĂŁo tem direito de se vestir de modo "masculino" ou "feminino" porque quer, vocĂȘ precisa ser uma pessoa de aparĂȘncia neutra ou se aproximar ao "oposto" de seu gĂȘnero.
No meu caso, quando meu gĂȘnero flui para o masculino: um homem trans nĂŁo pode usar batom ou ter cabelo longo/colorido, nĂŁo pode se sentir confortĂĄvel com seus peitos sem sutiĂŁ, precisa fazer mastectomia ou escondĂȘ-los com um sutiĂŁ compressor (binder). Quando meu gĂȘnero flui para o agenere/neutro: uma pessoa agenere nĂŁo pode usar batom e saia e coisas âfemininas" se essa pessoa foi COERCIVAMENTE designada mulher ao nascer (AFAB ou DMAN); uma pessoa agenere nĂŁo pode usar roupas "masculinas" ou ter pelos faciais ou cabelo curto se a pessoa foi COERCIVAMENTE designada homem ao nascer (AMAB ou DHAN).
Se vocĂȘ fugir de qualquer estereĂłtipo de gĂȘnero imposto a vocĂȘ, sendo cis, vocĂȘ Ă© aplaudide, Ă© revolucionarie. Homem cis de saia e batom vai mudar o mundo, muito legal; mulher cis que nĂŁo se depila estĂĄ afrontando o patriarcado, um orgulho. Se vocĂȘ discorda desses papĂ©is de gĂȘnero impostos e se sente Ă vontade para se expressar da maneira que quiser sendo uma pessoa trans, vocĂȘ nĂŁo Ă© âtrans o suficiente/trans de verdade", "estĂĄ querendo chamar atenção", "estĂĄ confuse", âestĂĄ de frescuraâ, "nĂŁo Ă© o gĂȘnero que diz ser".
No meu caso, não me sinto nem um pouco mulher, porém nasci com vagina e peitos, não sou tão alto assim, sinto muito calor em Goiùnia e prefiro usar roupas confortåveis e frescas, mesmo que sejam saias shorts e tops curtos, adoro a cor rosa, pinto meu cabelo e deixo ele crescer, não tenho dinheiro pra comprar um binder, não sinto vontade de fazer cirurgia pra retirar meus peitos, não quero tomar testosterona, não quero mudar meu jeito para me adequar ao estereotipo de masculinidade, gosto de roupas e acessórios com lacinhos, unicórnios, brilhos, glitter e miçangas.
Mesmo com tudo isso, eu continuo me sentindo homem/agenere. Continuo usando pronomes masculinos/neutros. Mesmo assim sinto orgulho em dizer que sou sim trans nĂŁo-binĂĄrie.
Mesmo que a sociedade não me respeite, erre meus pronomes e tente me forçar à um molde ultrapassado e obsoleto de "mulher" só pelo que tenho entre as pernas. Mesmo que dentro da própria comunidade trans tenha que enfrentar rejeição e desrespeito. Mesmo meu professor deslegitimando não-binåries durante a aula.
Quem sabe de meu gĂȘnero sou somente eu, nĂŁo preciso da validação de mais ninguĂ©m. Estamos aqui para questionar esse CIS-tema binĂĄrio, opressivo e inadequado. â
EU: Com que meios vocĂȘ acha que se pode desconstruir preconceitos impregnados no imaginĂĄrio coletivo?
COSMO: âA internet tem ajudado bastante na disponibilização de textos, pdfs, traduçÔes e outros, e na acessibilidade Ă essas informaçÔes. A informação nĂŁo Ă© algo que sĂł existe na Universidade, a internet estĂĄ aqui para ajudar a gente a sair desses moldes academicistas. Varies autories estĂŁo publicando materiais simples e fĂĄceis de entender. AliĂĄs, atravĂ©s das redes sociais, a gente faz grupos sobre assuntos trans. Tem um que faço parte, GENDERFLUIDS Brasil, que estĂĄ aqui para as pessoas de gĂȘnero fluido no brasil, com informaçÔes traduzidas e debates em portuguĂȘs, para a gente ver que no prĂłprio paĂs podemos nos identificar com outras pessoas que nĂŁo sĂŁo sĂł gringos que estĂŁo questionando e combatendo as imposiçÔes de gĂȘnero na sociedade ocidental. AtravĂ©s do Facebook, YouTube, Tumblr etc, a gente tem acesso a outras pessoas trans nĂŁo-binaries que estĂŁo dispostas a nos ensinar sobre a vivĂȘncia delas com palavras simples, textos, desenhos, vĂdeos, documentĂĄrios independentes, entrevistas de jornais e blogs independentes, etc. Tudo isso estĂĄ ampliando o pĂșblico desses assuntos, as informaçÔes estĂŁo chegando para muitas pessoas com esse meio de divulgação, a tecnologia estĂĄ aqui para ajudar a gente. AtravĂ©s de desenhos e tirinhas/quadrinhos de pessoas trans, a gente estĂĄ espalhando informação. Estamos aqui para te mostrar que vocĂȘ nĂŁo Ă© uma pessoa estranha/solitĂĄria que nĂŁo se encaixa na sociedade. Mostrar que vocĂȘ tem sim um lugar, que existem pessoas que querem te ajudar e te acolher. Estamos aqui para ajudar e explicar e mostrar que nĂŁo existem apenas 2 caminhos (homem e mulher). AtravĂ©s da absorção dessa informação a pessoa tem condiçÔes de refletir e pensar sobre seu gĂȘnero e, muitas vezes, descobrir que esse sentimento dela tem sim um nome. Existe um grupo de pessoas que sentem o mesmo que ela e que estĂŁo aqui para fortalecer e empoderar a pessoa atravĂ©s do questionamento diĂĄrio que a gente vĂȘ em pĂĄginas e blogs e canais pela internet. A gente estĂĄ abrindo as mentes de outras pessoas, para ter uma nova visĂŁo, uma visĂŁo que nĂŁo Ă© binarista e cissexista. Uma visĂŁo que abrange todas as pessoas. â
EU: As pessoas nĂŁo-binĂĄrias se incluem nas causas feministas?
COSMO: âFeminismo, ao meu ver, estĂĄ aqui para todas as pessoas que sĂŁo prejudicadas pelo patriarcado e pelo CIS-tema machista, racista e capitalista em que a gente vive. O feminismo deveria defender os direitos das pessoas nĂŁo-brancas, das pessoas trans (binarias e nĂŁo-binarias), das pessoas com divergĂȘncias neurolĂłgicas, das pessoas pobres, das pessoas exploradas no trabalho etc. Pessoas nĂŁo-binarias estĂŁo dentro do termo guarda-chuva "trans": a gente sofre com o patriarcado, a gente Ă© forçade a desempenhar certos papĂ©is de gĂȘnero. Se vocĂȘ nasceu com um genital e Ă© coercivamente designade a tal gĂȘnero (homem ou mulher) e foge do estereĂłtipo, pode ser vĂtima de violĂȘncia psicolĂłgica, financeira, sexual etc. Se vocĂȘ nasce com vagina e nĂŁo se comporta " como uma mocinha", pode sofrer por isso. AtĂ© pessoas cis que estĂŁo fora desse comportamento sofrem, mas a intensidade Ă© maior quando vocĂȘ Ă© trans. Existe o "estupro corretivo", usado para tentar manipular seu comportamento e tornĂĄ-lo agradĂĄvel aos olhos de seu agressor. Existe a violĂȘncia fĂsica, o bullying na escola, a violĂȘncia verbal (quando as pessoas te xingam na rua/na escola/em casa porque vocĂȘ nĂŁo se veste/nĂŁo age de tal maneira), violĂȘncia financeira (quando dinheiro/coisas bĂĄsicas como comida ou roupas ou moradia sĂŁo negadas a vocĂȘ porque nĂŁo estĂĄ de acordo com os desejos de seu agressor), violĂȘncia psicolĂłgica (ânĂŁo vou te amar se vocĂȘ cortar seu cabelo, nĂŁo vou deixar vocĂȘ sair atĂ© que depile suas pernas, vocĂȘ me deixa triste quando usa essas roupas de âtravecoâ "), uma manipulação emocional para tentar te tornar a pessoa errada e te deslegitimar (tambĂ©m conhecida como âgaslightingâ) etc. Essas sĂŁo agressĂ”es mais graves, mas Ă© uma pirĂąmide de opressĂŁo. Atos "menos graves" estĂŁo na base de frases como "coisa de menina/de menino", "vocĂȘ nĂŁo pode brincar com bonecas/carros", "vocĂȘ nĂŁo pode vestir essa saia/essa camisa", "vocĂȘ nĂŁo pode cortar seu cabelo/deixar ele crescer/pintar ele", "nĂŁo criei filho pra ser bicha/nĂŁo criei filha pra ser sapatĂŁo" (infelizmente ainda Ă© comum confundirem sexualidade com gĂȘnero), "Filha, mas vocĂȘ Ă© tĂŁo bonita pra sair assim sem maquiagem com essas roupas largas parecendo macho...â, errar de propĂłsito os pronomes de alguĂ©m apĂłs a pessoa te avisar quais pronomes ela usa, agir como se o gĂȘnero da pessoa fosse uma brincadeira pra "chamar atenção/uma invenção" de quem ânĂŁo tem mais nada pra fazer", deslegitimar o gĂȘnero de alguĂ©m ("ah mas vocĂȘ sempre gostou de rosaâ, âah mas vocĂȘ usa vestidoâ, âah mas seu cabelo Ă© longoâ, âah mas vocĂȘ nĂŁo toma hormĂŽnioâ, âah mas vocĂȘ nĂŁo fez cirurgiaâ, âah mas isso nĂŁo existeâ, âDeus fez o homem e a mulher, vocĂȘ nĂŁo pode inventar essas palavras de qualquer jeitoâ, âvocĂȘ estĂĄ confuseâ, âvocĂȘ nĂŁo sabe de nada, olha sua idade"...). Enfim, uma sĂ©rie de injustiças e violĂȘncias sĂŁo sofridas pelas pessoas nĂŁo-binaries e o feminismo deveria estar aqui para ajudar a gente a combater isso. Eu, como feminista interseccional, incluo todas essas pautas em minha militĂąncia. Feminismo estĂĄ, entre outras coisas, combatendo o patriarcado, e o patriarcado anda de mĂŁos dadas com o CIS-tema heteronormativo. â
EU: Os movimentos sociais vĂȘm buscando integrar as pessoas fluidas de gĂȘnero em suas causas, e a representatividade LGBTTIQ (LĂ©sbicas, Gays, Bissexuais, TransgĂȘneros, Transexuais, Intersexuais, Queer) vĂȘm crescendo atualmente. VocĂȘ se sente representade pelo movimento LGBTTIQ?
COSMO: âGĂȘnero fluĂdo estĂĄ dentro do termo guarda-chuva "nĂŁo-binĂĄrie": Ă© um gĂȘnero nĂŁo-binĂĄrio. Muitas pessoas nĂŁo se sentem representadas por essa sigla, pois a versĂŁo mais famosa Ă© a LGBT, fora que existem inĂșmeros gĂȘneros e sexualidades, fica meio impossĂvel representar todes numa sigla assim. EstĂŁo estudando siglas novas para substitui-la, como MOGAI (OrientaçÔes e Alinhamentos de GĂȘnero Marginalizadas e Intersexo).
Dentro da comunidade LGBT existem muitas discĂłrdias, disputas e opressĂ”es internas, como os GGGG (homens cisgĂȘneros gays que querem tomar o protagonismo do movimento LGBT inteiro e tornĂĄ-lo apenas sobre gays por puro egocentrismo e ignoram as outras integrantes da sigla) das baladinhas, dos filmes e series com personagens LGBT (na maioria com a sexualidade apagada, pele branca, pessoas bonitas e ricas, pĂ©ssima representação), das propagandas estilo O BoticĂĄrio etc.
A comunidade LGBT como um todo continua muito marginalizada, principalmente pessoas que nĂŁo estĂŁo na sigla mais conhecida e pessoas que estĂŁo na favela/em situaçÔes precĂĄrias sociais/econĂŽmicas. As pessoas mais pobres nĂŁo se importam se elas podem se casar ou adotar, porque simplesmente ainda nĂŁo possuem o direito de existir, de andar de mĂŁos dadas, de beijar na rua, de usar as roupas que querem. A realidade dessas pessoas, principalmente na mĂdia, nĂŁo Ă© representada e muito menos respeitada. A mĂdia sĂł quer propagar uma imagem higienizada, racista, gordofĂłbica e machista, entre outros preconceitos, da comunidade LGBT.
As travestis negras que sĂŁo obrigadas a se prostituir nĂŁo sĂŁo contempladas por esse movimento. As pessoas que nĂŁo tem acesso a esse movimento, que apanham atĂ© a morte ao serem vistas indo pra casa apĂłs as paradas de orgulho LGBT, que apanham em casa apĂłs serem vistas beijando alguĂ©m do mesmo gĂȘnero na rua pelos vizinhos fofoqueiros, que nĂŁo tem dinheiro pra se expressar de maneira confortĂĄvel e agradĂĄvel (seja com roupas, hormĂŽnios, cirurgias etc), que sĂŁo expulsas de casa /do trabalho quando sĂŁo expostas como sendo parte des LGBT... essas pessoas nĂŁo sĂŁo contempladas pela comunidade LGBT que a mĂdia quer propagar. Se sua militĂąncia nĂŁo contempla essas pessoas, hĂĄ algo muito errado.Se vocĂȘ sĂł aceita LGBTs se forem "machos, nĂŁo veados", hĂĄ algo errado.
Se vocĂȘ sĂł aceita lĂ©sbicas quando estĂŁo "realizando um fetiche" seu, hĂĄ algo errado.
Se vocĂȘ diz que bissexuais nĂŁo existem e que isso Ă© apenas indecisĂŁo e falta de vergonha na cara e acha que servem apenas para "menage" contigo, hĂĄ algo errado.
Se vocĂȘ acha que assexuais nĂŁo existem, hĂĄ algo errado.Creio que o maior problema dentro da comunidade LGBT seja o egocentrismo e a falta de empatia. Muites integrantes apenas se preocupam com as causas que es abrangem, nĂŁo se importam com pessoas diferentes delus. Por causa disso, hĂĄ preconceito e opressĂŁo dentro do prĂłprio movimento, como: misoginia entre os gays cis, transfobia entre as lĂ©sbicas cis, bifobia/panfobia entre os gays e as lĂ©sbicas, acefobia (preconceito contra assexuais) entre vĂĄrios membros, elitismo e higienização entre as pessoas mais ricas e racismo entre as pessoas brancas etc. Esses problemas sĂŁo muito graves e precisam ser combatidos, principalmente com diĂĄlogo, empatia e respeito. Mas tambĂ©m nĂŁo podemos medir a reação de uma pessoa oprimida. Se uma pessoa trans nĂŁo se sente confortĂĄvel com uma lĂ©sbica cis transfĂłbica, nĂŁo podemos mandar elas darem as mĂŁos e serem amigas pois o "verdadeiro opressor" sĂŁo os hĂ©teros cis/o patriarcado.
Mesmo sofrendo opressĂŁo, vocĂȘ ainda pode usar os poucos privilĂ©gios que tem para oprimir outras pessoas. Devemos reconhecer nossos privilĂ©gios e usĂĄ-los para ajudar a ampliar as vozes das pessoas oprimidas, tentar ajudĂĄ-las. Devemos ouvir o que elas tĂȘm a dizer e lutar de maneira secundĂĄria, deixando o protagonismo a elas. NĂŁo me sinto representade pelo movimento LGBT da mĂdia, que vemos na TV e nos jornais. â
EU: Qual o significado da expressĂŁo âqueerâ?
COSMO: â"Queer" na verdade começou como um xingamento. A tradução mais adequada parece ser "veado". Muitas pessoas da comunidade LGBT, inclusive eu, retomamos essa palavra e ressignificamos ela de maneira a nos empoderar, que nem acontece com "sapatĂŁo/bicha/vadia". A gente usa como sĂmbolo de orgulho. Uma palavra usada para nos difamar agora a gente usa para mostrar que nossa sexualidade e nosso gĂȘnero nĂŁo sĂŁo motivos para ofensa. TĂȘm pessoas que se empoderam com isso, mas tambĂ©m tĂȘm pessoas que nĂŁo gostam, tĂȘm traumas e, com razĂŁo, sentem desconforto com esse uso. Ambas perspectivas sĂŁo respeitĂĄveis. NĂŁo dĂĄ para forçar essa palavra em toda pessoa, nĂŁo dĂĄ para chamar alguĂ©m de um xingamento mesmo que a gente queira empoderar ou usar como elogio se a pessoa nĂŁo gosta disso, se ela nĂŁo quer, se ela tem trauma. â
EU: PolĂtica pode ser a atividade de associar e defender pessoas semelhantes, revolucionando o coletivo. VocĂȘ considera o seu existir um ato polĂtico?
COSMO: âCitando frase de autore desconhecide, "quando a sociedade te odeia simplesmente por ser quem vocĂȘ Ă©, (R)existir Ă© um ato revolucionĂĄrio "â.
EU: Levando em conta sua vivĂȘncia, qual o comportamento necessĂĄrio que as pessoas assumam para que es nĂŁo-binĂĄries se sintam apoiades e segures?COSMO: âEm qualquer caso de tentar militar em algo que estĂĄ fora de sua vivĂȘncia: vocĂȘ, como uma pessoa aliada, tem que primeiramente enxergar que tem certos privilĂ©gios. Esses privilĂ©gios sĂŁo frutos de uma opressĂŁo sistemĂĄtica.NĂŁo, sua mera existĂȘncia como pessoa branca / hĂ©tero / cis / homem / rico nĂŁo Ă© sua âculpaâ. Mas sim, diante desses fatos, vocĂȘ tem privilĂ©gios e precisa reconhecer isso. Sua vida Ă© diferente de uma pessoa oprimida em um aspecto no qual vocĂȘ nĂŁo Ă©. Sendo assim, vocĂȘ pode ler todos os livros do mundo, fazer um TCC, uma tatuagem etc que mesmo assim vocĂȘ nunca vai entender como uma pessoa diretamente afetada por essa opressĂŁo sofre.
Por causa disso, vocĂȘ tem que aprender a ficar em silĂȘncio e simplesmente ouvir o que as pessoas oprimidas tem a dizer.
VocĂȘ nĂŁo tem direito de dizer o que Ă© ou nĂŁo Ă© opressĂŁo para essa pessoa.VocĂȘ nĂŁo tem direito de medir a reação dessa pessoa, dizer que ela tem que ser pacĂfica e paciente, âdeixar quietoâ e âficar na pazâ com o opressor.VocĂȘ tem que respeitar a dor dela, respeitar que cada pessoa lida com isso de uma maneira diferente.NĂŁo tens direito de falar sobre essa opressĂŁo diretamente. VocĂȘ pode ler e ouvir o que essas pessoas dizem e reproduzir isso.Por exemplo, se vocĂȘ estiver diante duma situação de injustiça e nĂŁo tiver alguĂ©m com conhecimento/propriedade para falar sobre essa opressĂŁo, vocĂȘ pode falar o que vocĂȘ jĂĄ leu sobre e reproduzir esse discurso, como "tal pessoa negra diz que isso Ă© uma piada racista e que vocĂȘ nĂŁo deve achar graça disso por isso e isso", " pessoas trans acham essa palavra ofensiva por isso e isso, vocĂȘ nĂŁo deve usĂĄ-la". VocĂȘ precisa respeitar as pessoas e tentar aprender, lembrando que existem pĂĄginas e livros e documentĂĄrios etc que sĂŁo didĂĄticos e falam disso. Nem toda pessoa oprimida Ă© obrigada a ser seu Google pessoal. Ăs vezes, Ă© irritante falar sobre isso e simplesmente nĂŁo estamos afim, Ă s vezes, a pessoa Ă© muito ignorante, nĂŁo estĂĄ disposta a aprender e nĂŁo queremos nos estressar com isso.
Existem militantes que batem de frente e sĂŁo violentes com os opressores, existem militantes pacientes e didĂĄtiques. Devemos respeitar ambos. Se a pessoa estiver disposta a te ensinar, vocĂȘ deve respeitar os limites dela e ser uma pessoa educada, tentar ao mĂĄximo nĂŁo ser invasive. Se ela disser que vocĂȘ estĂĄ passando dos limites, recua e respeite, peça desculpas sinceras.VocĂȘ deve respeitar os pronomes dela, mesmo que ache âfeio/errado de acordo com a gramĂĄtica/difĂcil se acostumar".
A lĂngua Ă© algo fluido, evolui junto com as pessoas que a falam. Ă possĂvel mudĂĄ-la. Se vocĂȘ ler um livro antigo, ele nĂŁo Ă© escrito do mesmo jeito que escrevemos hoje, isso Ă© normal. Tente se adequar. Tudo bem errar, peça desculpas e tente se policiar para nĂŁo acontecer de novo. E se vocĂȘ acha um incĂŽmodo, tente ter empatia com a pessoa e pensar o quĂŁo difĂcil deve ser para ela ter seu gĂȘnero constantemente deslegitimado e desrespeitado.NĂŁo Ă© porque vocĂȘ âachaâ que a pessoa parece tal gĂȘnero que necessariamente ela seja. NĂŁo Ă© porque a pessoa tem peitos ou porque ela usa vestidos que necessariamente ela seja mulher cis. Ă sempre bom perguntar, com respeito, pois realmente ninguĂ©m vai adivinhar gĂȘnero alheio. Se uma pessoa usa vestido, batom, cabelo longo e salto alto e mesmo assim diz que usa pronomes masculinos, nĂŁo importa o que vocĂȘ acha, vocĂȘ tem o dever de respeitar isso. SĂł vocĂȘ sabe de seu gĂȘnero. NinguĂ©m tem direito de te deslegitimar. Seu gĂȘnero Ă© vĂĄlido sim. VocĂȘ existe sim. â
*Entrevista de 2015