#DicadeHQ - A Parteira
Começo o texto com certa polêmica: se pararmos para analisar, há muito no universo das artes sobre o ato da mulher que deseja ser mãe, mas ainda é tímido o destaque para o difícil (e belo) papel de auxiliá-la na hora do parto, seja no papel de parteira, seja na função de doula – esta acompanha de perto toda a trajetória da gestação. E quando há, pode-se cair em clichês ou mesmo deixar todas essas personagens tão relevantes, inclusive a mãe, em segundo plano.
Quando vi o post da Milena Azevedo (@milenaazevedome) falando de sua mais nova HQ, cuja temática rondaria o terreno, confesso que além de curiosa, me veio esses fantasmas. Contudo, quem conhece o trabalho dela, surpreender é verbo que sabe conjugar bem!
No roteiro de A Parteira (José Veríssimo assina o traço e a capa é de Victor Negreiro), vamos ao encontro de Dite (sim, de Afrodite!), que realiza partos no Vale do Vento Dourado, um misto de cidadela medieval com elementos futuristas. O interessante é que o chamado não vem por alguém batendo na porta da protagonista: ela conta com sexto sentido, uma anunciação. Aliás, nem porta tem, já que vive em uma caverna. E lá se vão Dite e seu amigo, o dragão de aço Ilo, “cumprirem a sina”, como ela mesma define.
No vídeo, conto mais detalhes de A Parteira (Milena Azevedo e José Veríssimo) – foto e filmagem – Keli Vasconcelos
Contudo, Dite começa a colocar essa rotina em cheque ao perceber que, parto após parto, nem um agradecimento foi recebido em troca. E, como somos movidos por recompensas, para suprir tal vazio, ela decide cometer pequenos vícios, leia-se, surrupiar objetos de valor das casas das parturientes.
Ao ser descoberta pelo ferreiro Phaestus, Dite se refugia no Reino da Lua Perdida e sem dar muitos spoilers, ali descortina-se a importância de estar presente não somente de “corpo físico” ou a outrem, mas pertencer-se: ser presença para si mesmo. Valorizar-se sem precisar provar. Entregar-se genuinamente.
Digo isso porque uma frase dita por Phaestus ecoou na mente por um tempo .... Ao darem conta da saída de Dite ao ser desmascarada, ele reúne os moradores do Vale, que maldizem a moça. Phaestus, por sua vez, apenas lança a indagação: “Será que chegamos num ponto em que uma irmã precisa suplicar por atenção?!”.
Aquela que sempre esteve a postos para atender, agora não tem o que a move.
O que fazemos nesta vida, então? São para os outros ou para nós mesmos? Qual é, então, nossa causa para estarmos agora, fazendo, agindo, movendo-se?
E em A Parteira, isso fica bem claro, pois Dite perdeu-se naquele velho estigma do “faço isso por minha obrigação”. Também, não podemos julgar a revolta dela. Afinal, quem nunca ficou sem entender por que razões faz ou deixa de fazer determinadas ações?
Quando Dite transpõe a fronteira desses questionamentos, não apenas a de ir para o Reino da Lua Perdida, descortina-se um insight sobre nossa verdadeira função no mundo, nossos valores grandiosos, nossas essências.
Ou seja, não fazemos isso por A ou B, ou fazemos por fazer.
Fazemos porque é preciso.
É preciso ter sentido.
Fazemos porque é preciso SER sentido.
E fazemos porque tudo depende de tudo.
Dite vai conhecer esses valores nessa jornada bonita de A Parteira. Uma leitura gostosa que não fala só de parir vidas, mas de parir sentimentos e Amor (com “A” maiúsculo).
Elementos que este e outros mundos tanto necessitam.
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