Se existia uma lição que havia aprendido com os pais, é que não existiam finais felizes. E, como poderia ser diferente? Nêmesis, deusa da vingança, deixava claro que sua inevitabilidade era o fim de todos os mortais. Mesmo o que não começava com uma vingança, poderia terminar com uma. A natureza vil de todas as pessoas sempre as levaria ao limite entre a justiça e a retaliação e, qualquer alma, por mais boa que parecesse, pecaria. Seu pai concordava, afinal, a advocacia jamais conseguiu saciar o ódio, a vingança ancestral que borbulhava em suas veias, o desejo de punir com suas próprias mãos aqueles que considerava errados, como se fosse dele, mero mortal, a obrigação de sentenciar quem era ou não bom. Como se fosse bom. Ah, seus pais eram o deleite um do outro! Ela via nele a certeza de sua existência, e ele via nela a motivação para sua vida. E, o que ambos vinham em Tadeu, era a oportunidade. A reafirmação de um amor que se baseava em inflar seus egos e enaltecer às convicções obscuras que possuíam, vendo tudo pelas lentes escuras, o que, posteriormente, seria também uma maldição herdada. Nêmesis, a Inevitável, lhe mostrou da pior maneira que ninguém conseguia escapar dela. Muito menos seu próprio filho.
Com toda certeza deveria ter ficado mais aliviado com a perspectiva de que sairia daquele lugar infeliz, não é? Voltaria para a superfície, onde, por mais insano que fosse, também sabia que era esperado por pessoas queridas. Sophie, Maeve, Stevie, Love, Ronnie... Entre outras de suas amigas mais próximas, ou que estavam se tornando próximas, como Mary-Lou, Isabella e Candy. As vezes se perguntava como tinha feito amigos naquele lugar. O problema, claro, estava na parte da troca, que fora deixada clara pelas Fúrias insuportáveis. A questão ali é que ele não achava que tinham realmente uma escolha, afinal, Hades não aceitaria não como resposta mesmo se não quisessem trocar nada. Era uma intimação, e, pior ainda, estavam no território dele.
Por isso que, mesmo diante da aparente boa notícia, não conseguia se sentir completo, muito menos bem. Algo lá no fundo indicava que as coisas estavam erradas, uma sensação estranha, um sentimento que queimava no âmago de forma extremamente semelhante a forma como seus poderes se manifestavam antes de chegar aos seus olhos. Era um pressentimento vívido. Insuportável. Como um ímã que o puxava para um lugar onde ele precisava chegar. Onde ele inevitavelmente precisava estar.
Ali, no palácio de Hades, cercado de perigos e com uma cortesia velada de ameaça, existia alguma coisa perigosa, um último desafio antes da suposta paz os alcançar. E, sendo quem era, Tadeu precisava ir atrás disso, pois, lá no fundo da cabeça ainda escutava a voz Dela, repetindo como um mantra, que ele existia para isso. Com os óculos escuros ajeitados, a primeira coisa que notou foi a falta de Melis. Bem, ela ficava invisível, então em teoria isso não era novidade. A questão ali era o motivo da invisibilidade. Não desconfiou dela de primeira, preferindo direcionar a falta de fé ao anfitrião, pois ingrato como era e sem qualquer vergonha ou remorso disso, mordia a mão que o alimentava.
Contudo, ainda mais no fundo, ele sabia que também não estava certo disso. Por mais que quisesse confiar em Melis, não confiava. Sequer sabia a razão, apenas que, a mesma força dentro de si que era capaz de indicar o caminho, também apontava para ela. A justiça vingança de Nêmesis nunca falhava. E não falhou, quando, ao entrar naquela sala, usando da própria furtividade e, novamente com o amuleto da sorte ativado, ele viu inúmeros artefatos e a silhueta da filha de Hermes logo a frente. Basir não precisava de muito para entender a situação. ❛ Filha do deus dos ladrões, não é? ━━━━━ Quis rir, amargo. Ela podia ter escondido dele onde o frasco estava, mas Tadeu já tinha visto o que ela estava escondendo. Uma poção, toda branca. Uma parte sua simpatizava um pouco, afinal, Melis também não podia escapar de quem era filha, não é? Velhos hábitos nunca morrem.
De braços cruzados, se aproximou a passos lentos. "No fim, ninguém é inocente", foi o que pensou primeiro. Entretanto, o pensamento foi interrompido por um outro, mais novo, menos negativo. Todo mundo tem seu lado da história, e todo mundo tem o direito de se explicar antes de ser punido. Justiça não é igualdade para todos, especialmente não quando um deus é o outro lado da narrativa. Conflituoso entre confiar ou desconfiar de Melis, Tadeu ainda se sentia capaz de realizar um verdadeiro julgamento, e de qualquer modo, agora era um cúmplice daquela situação. Tinham muito o que esclarecer.
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