Como se a cada noite ou momento solitário (não necessariamente sozinho) essa suposição de verdade viesse como uma ventania, um sopro repentino, fazendo oscilar tudo que já vi ou aprendi na vida. Como um terremoto dimensional, um craquelar da integridade da matéria que me cerca, e da qual também sou feita. Como se caminhasse num cenário de animação ou vÃdeo game, aonde nada tem peso ou profundidade real, são só detalhes simulados artificialmente, visuais. Um existir mais leve que a folha de papel mais fina, planeta de código binário. Ideias que me atormentam em razão da duvida, diferente da epifania onÃrica de suspeitar que a vida seja um sonho, vai mais além: seria eu personagem do sonho de alguém? Seria todo esse mundo que vivo, criação de outra cabeça? A cabeça que me imagina? É diferente de Deus. Deus teria criado essa outra mente, e então essa mente me criou, e tudo que já fiz e inventei até agora foi premeditado, não é de minha autoria exatamente. Não sou eu que mexo meus braços, sou um boneco de The Sims. Entretanto uma vez, criando coisas despretensiosamente, reparei que todos os personagens ou alegorias que imaginava pareciam uma metáfora barata de mim mesma, e então pensei: tudo o que invento sou eu. E isso não é outra metáfora, é uma coisa precisamente obvia, não tem como ser outra coisa. Mas se sou criação de outro ser, quem sou eu? É torturante reparar frequentemente que não tenho poder suficiente de fugir da matemática, que estou completamente inserida no plano que habito, e sou igual o chão que piso e a parede que me prende, tudo é a mesma coisa. O cenário que me limita também faz parte do meu corpo, e meu corpo também me limita. Não posso saltar cinco metros de altura quando quiser, não posso atravessar a mão na barriga igual fantasma quando quiser, nem nas paredes, e nem no chão. E não importa a posição que eu esteja, estou sempre passÃvel à divisão infinita, paradoxo de Zanon. Existir como matéria fÃsica é limitado, e pra mim, apesar de tudo, apesar do peso e da dureza dos objetos, quando vem o sopro, tudo parece extremamente fino e oco, holográfico, um digital orgânico. Minha cabeça não está ligada numa Matrix, eu realmente existo exclusivamente dentro dessa Matrix, e explicar isso pra alguém soa como o mais bobo dos exercÃcios, porque é óbvio que vocês já sabem. Vocês são como as paredes. Quem me garante que outros continentes existem se nunca fui até lá? Que meus amigos da internet tem corpo e são tridimensionais? É tudo falso, até eu. Em todo lugar que me recosto, sinto a superfÃcie de contato se dissolver. É o único momento que fico mais próxima do limite da minha prisão. Meu corpo parece uma casca. Se me deito de costas parece que a qualquer momento poderei combinar uma força mÃnima a um movimento jeitoso e me descolar dessa pele que habito, cair pra baixo do cenário, que agora está grudado a ela (minha pele). Ecdise dum universo inteiro, é o que eu queria fazer. É a vontade que me consome todos os dias, chego a não suportar mais a angustia. Eu sei que existe mais alem do que eu enxergo e toco, mas não consigo atingir, pois sou tão frágil quanto papel, tão frágil quanto um diamante.













