Desconstrução
Meus olhos cansados recusaram-se olhar para aquela tela escura do celular. Minha alma dilacerada gritou mais uma vez. Meu ego tão frágil tornou-se insustentável, tudo parecia vão. Ninguém me olhou... Viam o que queriam ver, viam a mentira que eu mostrava. Eu havia sido treinada pra ser uma boa menina e se não era, era pelo menos uma boa mentirosa. Como uma rede podia mascarar tanto a verdade? Eles só estavam desatentos... Tão desatentos. Não havia interesse por mim, só pela minha vida de aparências... Eu só queria que eles me olhassem, eu só queria que eles notassem que eu existia, que pulsava um coração aqui dentro, eu só queria que eles prestassem atenção, um pouco de atenção, mas só havia solidão. Meti os pés pelas mãos, estava cada dia mais atolada naquele personagem que eles adoravam. No meu íntimo, eu sofria e convivia com meus demônios. No final do dia sempre voltava pra casa vazia. Parecia que quanto mais eu tentava me encaixar, menos dava certo. Me via perdida em passatempos de prazeres vãos... Mas ali pelo menos eu podia ser o que eu quisesse e por isso eu fingia. Fingia que não havia timidez, fingia que não havia desamor e inseguranças, fingia uma felicidade que nunca me pertenceu, fingia uma vida perfeita, fingia que a minha dor não era real, mas os cacos virtuais me estilhaçavam por dentro. Eu me submetia a tudo em nome da beleza, buscava cada padrão imposto pela sociedade, um por um... Eu queria ser aceita, eu queria ser bonita, eu queria ser desejada, eu queria ser popular, e o mais irônico é que eu não me sentia assim. Nunca importou a minha singularidade. Só estávamos todos iguais, submetendo-se aos mesmos procedimentos, cortando e puxando nossas peles como se aquilo não significasse nada. Só estávamos agindo como se estivesse tudo bem, mas não estava. A nossa alma gritava a todo momento que era ela quem precisava de cirurgia. Com o tempo essa corrida inalcançável tornou-se árdua demais e toda aquela busca por aprovação e aquela vida de aparências era um fardo pesado demais para carregar. Eu era só uma menina, uma menina sexualizada, mas ainda uma menina. Ninguém notou, mas a depressão batia a porta, se convidava pra entrar, sentava e tomava chá. Ninguém notou a minha incapacidade de suportar, eu não tinha forças para tirar ela do sofá. Eu era só uma menina... Uma menina que eles não viram, sequer perceberam. Eu fui morrendo aos poucos e não havia quem pudesse me ajudar. Não morri uma única vez, mas todos os dias eu morria um pouquinho, e fui morrendo até não restar mais nada.
- Do projeto Coletânea MPB







