As encostas do Monte Etna não cheiravam a deuses. Cheiravam a enxofre, a lã molhada e ao hálito pútrido de algo que não escovava os dentes desde a Idade do Bronze. Sileno, o outrora garboso (ou pelo menos funcional) tutor de Dionísio, estava de cócoras, os joelhos estalando como galhos secos, tentando remover uma camada particularmente teimosa de excremento de cabra de um pilar de pedra que servia de entrada para a caverna.
— Oh, Baco! — suspirou ele, limpando o suor da testa com as costas de uma mão coberta de terra. — Se as ninfas me vissem agora, trocariam as suas flautas por foices para me acabarem com o sofrimento.
Sileno era uma figura que personificava a ressaca da história. A sua barriga, uma cúpula outrora dedicada ao vinho generoso, agora roncava de fome e murchava sob uma túnica de pele de bicho que já tinha visto séculos melhores. O seu nariz, um bulbo purpúreo adornado com veias que pareciam o mapa de estradas de uma província perdida, era o único vestígio da sua glória passada. Ele era um Sátiro no exílio, um espírito da natureza que a natureza parecia ter-se esquecido de levar.
Atrás dele, os seus filhos — o Coro de Sátiros — tentavam manter uma aparência de trabalho, pastoreando as ovelhas de Polifemo com a mesma eficácia que um grupo de gatos pastorearia peixes. Eram criaturas de apetites simples: vinho, música e luxúria. Naquele rochedo vulcânico, porém, só tinham acesso a leite de cabra, silêncio e ao medo constante de serem esmagados por um pé do tamanho de um barco de guerra.
— Pai, o Ciclope está a voltar? — gritou um dos jovens sátiros, a voz falhando enquanto tentava desviar uma cabra de um precipício.
— Ele volta sempre — resmungou Sileno, falando mais para o chão do que para o filho. — O mal tem esta irritante tendência de ser pontual. Enquanto vocês brincam de pastores, eu aqui estou, o grande Sileno, o braço direito de Dionísio, reduzido a ser o zelador de um estádio de horrores.
Sileno sentou-se numa pedra, a coluna soltando um protesto audível. Começou a divagar, um dos seus passatempos favoritos agora que o vinho escasseava. O seu pensamento recuou àqueles dias dourados em que a comitiva de Baco atravessava a Trácia e a Índia, uma procissão de êxtase, tambores e loucura sagrada. Ele lembrou-se de como Hera, com a sua habitual falta de sentido de humor, tinha lançado a loucura sobre Dionísio, forçando-os a navegar por mares desconhecidos.
— E depois, claro, houve o desvio — murmurou ele. — Onde está o meu senhor agora? Nas mãos de piratas? Ou talvez a rir-se em algum banquete no Olimpo enquanto eu lavo as cuecas de um gigante com um só olho e zero etiqueta?
A injustiça da sua posição era o motor da sua retórica. Para Sileno, Polifemo não era apenas um monstro; era um "erro estético". O Ciclope era um ser que não compreendia a ironia, não apreciava um bom trocadilho e, pior de tudo, bebia o leite das ovelhas puro, sem nunca o ter transformado num queijo minimamente decente para acompanhar uma bebida.
O vento soprou do topo do vulcão, trazendo consigo o som distante de pedras a rolar. O chão vibrou. Era um tremor rítmico, uma pulsação que Sileno conhecia bem. O "Patrão" estava a descer das pastagens altas.
— Rápido, seus bastardos de patas peludas! — berrou Sileno para os filhos, a voz subitamente aguda de terror. — Limpem os cantos! O senhor do Etna não gosta de encontrar ovelhas fora do sítio, e vocês sabem que ele tem uma definição muito ampla de "petisco" quando está de mau humor!
Os sátiros dispersaram-se em pânico cómico, tropeçando nos próprios cascos. Sileno, por sua vez, agarrou numa vassoura de ramos secos e começou a varrer freneticamente o pó, criando uma nuvem que o fazia tossir. No meio daquela farsa, a sátira era evidente: a dignidade humana (ou semi-divina) era uma camada fina que desaparecia ao primeiro sinal de um predador de cinco metros de altura.
— O que eu não daria por um odre — sussurrou ele, os olhos lacrimejando pela poeira e pela autocomiseração. — Um odre de vinho tinto, denso como sangue de touro, que fizesse as pernas tremerem e a mente voar para longe desta ilha maldita. Mas não. Aqui estou eu. O pastor de sombras. O escravo do olho solitário.
Sileno olhou para o mar, o vasto azul que rodeava a Sicília. Era a sua prisão e a sua esperança. Ele esperava um sinal, um naufrágio, qualquer coisa que trouxesse um pouco de civilização — ou pelo menos um pouco de álcool — para aquela costa selvagem. Ele não sabia, mas no horizonte, as velas de um navio negro com proa de bronze cortavam as ondas. Odisseu, o homem de mil estratagemas, estava a chegar.
E com ele, a tragédia de Polifemo começaria a transformar-se na farsa sangrenta que Sileno tanto desejava secretamente, sem saber que o preço da liberdade envolveria ver o seu patrão ser grelhado vivo pelo intelecto de um mortal.
Por agora, Sileno apenas varria. Varria e amaldiçoava os deuses, enquanto o som dos passos do gigante ficava cada vez mais alto, como batidas de um tambor gigante anunciando o fim de uma era de tédio e o início de uma era de terror satírico.
— Que Zeus me ajude — disse ele, parando por um segundo para olhar o seu reflexo numa poça de água suja. — Eu costumava ser um símbolo de fertilidade. Agora, sou apenas um anúncio de cremes para as hemorroidas.
Com este último lamento existencial, Sileno mergulhou novamente na escuridão da caverna, preparando-se para a entrada do monstro, enquanto o sol da Sicília começava a descer, tingindo o mar da cor do vinho que ele tanto cobiçava.
O horizonte, outrora uma linha monótona de azul e desespero, foi subitamente cortado por uma lâmina de madeira escura. Sileno, que estava a meio de uma discussão filosófica com uma cabra particularmente teimosa sobre a inexistência de justiça no Olimpo, parou. Esfregou os olhos, cujas pálpebras estavam pesadas pela crosta do sono e do pó vulcânico. Não era uma alucinação causada pela desidratação. Era um navio.
A embarcação aproximava-se da costa com uma elegância que parecia insultuosa perante a crueza daquela ilha. Os remos batiam na água em uníssono, como o bater de coração de um organismo organizado e civilizado. Sileno sentiu um arrepio que não sentia há décadas: o cheiro da Grécia. Não o cheiro à Grécia de agora, de templos e sacrifícios, mas o cheiro de homens que tinham passado tempo demais a cercar cidades e a discutir saques.
— Filhos! — gritou Sileno, a voz saindo como um grasnido seco. — Abandonem as cabras! Ou escondam-nas! Ou façam qualquer coisa que não envolva parecerem idiotas! Temos visitas. E onde há navios, há provisões.
Os Sátiros, que estavam a tentar organizar uma corrida de tartarugas nas rochas, pararam instantaneamente. Olharam para o mar com a boca aberta, as orelhas pontiagudas vibrando. Para eles, qualquer novidade era um alívio da rotina de pastorear para o Ciclope; para Sileno, era uma oportunidade comercial de alto risco.
Quando a quilha do navio rangeu contra a areia da praia, um grupo de homens saltou para a água rasa. À frente deles caminhava um homem cuja postura gritava "problemas". Não era o mais alto, nem o mais forte, mas os seus olhos moviam-se com uma rapidez inquietante, mapeando o terreno, as entradas das cavernas e, inevitavelmente, a figura decadente de Sileno que os esperava no cimo da duna.
Odisseu, o Rei de Ítaca, o homem cujas mentiras eram tão afiadas quanto a sua espada, subiu a encosta. Estava coberto de sal e fadiga, mas a sua túnica, embora gasta, ainda mantinha um resto de dignidade aristocrática. Atrás dele, marinheiros carregavam odres vazios e cestos, com a esperança faminta estampada nos rostos.
— Saudações, ancião — disse Odisseu, a voz projetada com a autoridade de quem está habituado a ser ouvido em assembleias. — Procuramos água e sustento. Somos viajantes desviados das nossas rotas pelas tempestades e pela vontade dos deuses. Quem governa estas terras? E, mais importante, o que tens para vender?
Sileno endireitou as costas, tentando esconder a barriga proeminente atrás de um resto de pose majestosa.
— Estais na Sicília, estrangeiro. Nas sombras do Etna. Aqui, quem governa é a força e a fome. E eu... eu sou o mestre de cerimónias desta desolação, embora as minhas cerimónias atuais envolvam mais estrume do que vinho.
Odisseu estreitou os olhos. Ele reconheceu o tipo: um oportunista. Um espelho, de certa forma, de si próprio, mas sem a armadura.
— O meu nome é Odisseu, filho de Laertes. Viemos de Troia, onde o sangue correu mais que o vinho, e agora o meu povo morre de sede. Tens queijo? Tens cordeiros? Temos ouro, mas suspeito que aqui o metal não se coma.
Sileno soltou uma gargalhada ruidosa que terminou numa tosse seca.
— Ouro? O meu patrão, Polifemo, usa pepitas de ouro para atirar aos pássaros que o acordam cedo demais. Não queremos ouro. Mas diz-me, Odisseu de mil truques... vejo que os teus homens carregam um odre que parece pesado demais para conter apenas água.
Odisseu sorriu, um sorriso predatório. Fez um sinal e um dos seus marinheiros adiantou-se, abrindo a tampa de um odre de couro escuro. O aroma espalhou-se pelo ar pesado da Sicília como um feitiço. Era o vinho de Maron, um tinto tão potente que exigia vinte partes de água para ser domado, mas que Odisseu guardava puro para emergências.
Sileno quase caiu de joelhos. O cheiro era uma sinfonia. Notas de uva passa, mel silvestre, tomilho e uma promessa de esquecimento absoluto. Os seus narizes dilataram-se tanto que pareciam querer engolir o ar inteiro.
— Pelos deuses... — sussurrou Sileno. — Isso não é vinho. Isso é a essência de Dionísio destilada em sofrimento e prazer.
— É um presente de um sacerdote de Apolo — disse Odisseu, observando a reação do Sátiro. — Um gole disto e um homem sente-se um deus. Um odre disto e um homem esquece que é um escravo. Queres trocar?
A luta interna de Sileno durou exatamente meio segundo. A lealdade a Polifemo, o medo de ser devorado, a responsabilidade para com as ovelhas do patrão... tudo isso foi incinerado pelo desejo de sentir o álcool a queimar-lhe a garganta.
— Queijo! — exclamou Sileno. — Tenho cestos cheios de queijo de cabra, brancos como a lua! Carne! Tenho cordeiros tenros que ainda não conhecem o pecado! Levem tudo! Só peço que me deixem mergulhar nesse odre até que o mundo pare de girar!
Seguiu-se uma cena de caos satírico. Sileno e os seus filhos começaram a carregar freneticamente os bens do Ciclope para a praia. Queijos enormes eram rolados como rodas de carroça; cordeiros eram içados aos ombros. Era um saque disfarçado de comércio. Sileno, entretanto, já tinha o rosto enfiado no bocal do odre, bebendo com uma sofreguidão que faria um homem comum explodir.
— Devagar, velho — advertiu Odisseu, embora estivesse satisfeito. Ele precisava de provisões, e se o preço era embebedar um sátiro decrépito com a propriedade de um gigante ausente, que assim fosse. — Diz-me mais sobre este Polifemo. Ele é um rei? Um tirano?
Sileno afastou-se do vinho, com os lábios tingidos de um roxo profundo, os olhos agora brilhando com uma lucidez perigosa e ébria.
— Ele? Ele não é um homem, Odisseu. Ele é uma montanha de carne com um só olho que olha para o mundo e só vê comida. Ele não conhece as leis da vossa Grécia. Ele não conhece a Xenia. Para ele, um hóspede é apenas uma refeição que traz os seus próprios temperos.
Um silêncio caiu sobre os marinheiros gregos. Odisseu, porém, não vacilou. A sua arrogância, alimentada pela vitória em Troia, cegava-o para o perigo sobrenatural.
— Ele tem carne, e eu tenho astúcia — respondeu Odisseu. — Já lidei com deuses furiosos e heróis ensandecidos. Um pastor solitário não será o meu fim.
— Ele não é apenas um pastor — murmurou Sileno, voltando a abraçar o odre como se fosse um filho perdido. — Ele é o filho de Posídon. E ele está a chegar. Consigo sentir o cheiro do medo das cabras.
Odisseu olhou para a entrada da caverna, que parecia agora uma bocarra aberta à espera de ser alimentada. O sol começava a esconder-se atrás do Etna, e as sombras tornavam-se longas e distorcidas. O comércio tinha terminado, mas o verdadeiro custo daquelas provisões estava prestes a subir a montanha, carregando o peso de árvores inteiras nos ombros e uma fome que nenhum queijo poderia satisfazer.
— Preparem-se — ordenou Odisseu aos seus homens, a mão caindo instintivamente sobre o punho da espada.
Sileno, já num estado de euforia divagante, apenas ria baixinho, limpando o vinho da barba com a mão suja de queijo. O destino tinha chegado à Sicília, e cheirava a sangue, sal e uma colheita muito antiga de uvas gregas.
O sol tinha-se afundado completamente no mar Egeu, levando consigo a segurança ilusória que a luz do dia proporcionava. A paisagem siciliana, outrora apenas inóspita, tornou-se hostil, uma tela de negrume pontuada apenas pelo brilho distante e ameaçador do Etna em erupção.
O som precedeu a visão. Não era o bater rítmico dos remos ou o tilintar de armas de bronze. Era o som da terra a ser violada. Rochas que pesariam tanto quanto vinte homens eram afastadas com a casualidade de quem chuta pedrinhas no caminho. Depois, o cheiro. Não o sal do mar ou o cheiro limpo do vinho, mas uma combinação nauseabunda de suor de animal, leite rançoso e um odor metálico e subtil que Odisseu reconheceu dos campos de batalha: o cheiro a sangue velho.
— Ele chegou — murmurou Sileno, que, apesar de agora estar agradavelmente ébrio, tinha a palidez de uma estátua de mármore. Ele cambaleou para trás, desaparecendo na penumbra da caverna com a agilidade de um rato que foge de uma cobra.
Odisseu e os seus homens agruparam-se. As espadas de bronze foram desembainhadas, a sua ponta brilhando debilmente. Estavam preparados para guerreiros, para piratas, talvez para um rei tribal, mas não para a força da natureza que agora bloqueava a entrada da gruta.
Polifemo era uma aberração da natureza, uma afronta à simetria dos deuses. Com mais de cinco metros de altura, ele era uma massa de músculos e gordura vulcânica. A sua pele era uma tapeçaria de cicatrizes antigas e sujidade impregnada. Carregava às costas um fardo de lenha que pesaria uma tonelada, arrancada da raiz. Mas o mais aterrador era o rosto. A meio da testa, solitário e feroz, brilhava um único olho do tamanho de um prato de jantar, uma pérola de malícia e apetite.
Ele não os viu imediatamente. Estava ocupado a empurrar o seu rebanho de ovelhas e cabras para dentro da gruta, o seu método de pastorícia era um rugido gutural e pontapés casuais que enviavam animais a voar contra as paredes. Quando todos os animais estavam dentro, ele moveu-se para a entrada.
— Força — ordenou Odisseu num sussurro desesperado aos seus homens, que tentavam empurrar os pesados cestos de queijo e os odres que tinham saqueado para um canto escuro.
Com um esforço que fez o chão da caverna tremer, Polifemo arrastou uma pedra maciça — um pedaço da própria montanha que nem vinte carretas puxadas por cavalos teriam movido — e selou a entrada da gruta. A escuridão tornou-se absoluta, sufocante, quebrada apenas pelo brilho do olho do gigante, agora mais perto, examinando o seu domínio.
Polifemo acendeu uma fogueira no centro da caverna, atirando a lenha que trouxera. A luz bruxuleante revelou a escala do horror. Crânios de animais (e Odisseu notou com um arrepio, que alguns pareciam demasiado grandes para serem de simples cabras) estavam empilhados num canto. Peles secas pendiam do teto. E o cheiro a ranço intensificou-se.
O gigante sentou-se, esticando as pernas que eram como troncos de árvores. Foi então que ele os viu. Odisseu e os seus doze homens restantes, encolhidos contra a parede, as espadas inúteis nas mãos trémulas.
Um rugido de satisfação animal encheu a caverna. Não era um rugido de raiva, mas de contentamento, o som de um estômago que acabava de encontrar um menu inesperadamente sofisticado.
— O que é isto? — a voz de Polifemo era como pedras a serem moídas, profunda e lenta. — Ratos com armadura? Viajantes?
Odisseu, o diplomata de Troia, avançou. A sua garganta estava seca, mas a sua mente, sempre a calculadora do possível e do impossível, já trabalhava a mil por hora.
— Saudações, ó grande senhor destas terras — começou Odisseu, a sua voz tentando soar calma e reverente. — Somos Aqueus de Troia. Perdemos o nosso caminho e viemos aqui em busca da sagrada Xenia, a lei da hospitalidade que Zeus impõe a mortais e gigantes. Oferecemos presentes em troca de abrigo e alimento.
Polifemo inclinou a cabeça, o olho único a focar-se em Odisseu. Ele soltou outro rugido, desta vez de troça pura.
— Xenia? Zeus? — a ideia parecia diverti-lo imensamente. — Eu não dou a mínima para Zeus ou para qualquer um dos vossos deuses mimados do Olimpo. Eu sou mais poderoso do que eles. Eu vivo aqui sozinho, pastoreio ovelhas e como o que quero. A vossa lei é a lei da fraqueza, ó rato falador.
A sátira estava a tornar-se num tratado filosófico brutal. A civilização, com as suas regras, a sua retórica e a sua moralidade, encontrava-se com a natureza no seu estado mais puro e predatório. Não havia debate. Havia apenas apetite.
Sileno, espreitando por trás de um cesto de queijo, fez um gesto histriónico de desespero. "Eu avisei-vos!", diziam os seus olhos.
— Respeita os deuses, gigante! — insistiu Odisseu, o desespero começando a infiltrar-se na sua voz. — Posídon, teu pai, vai castigar-te se nos devorares!
Polifemo riu-se novamente, um som de escárnio que ecoou nas profundezas da terra. Ele levantou uma mão do tamanho de uma pá e agarrou dois dos marinheiros mais próximos, homens que tinham sobrevivido ao cerco de Troia. Eles gritaram, mas o som foi rapidamente abafado.
O que se seguiu foi puro horror, a sátira temporariamente suspensa para dar lugar à carnificina. Polifemo bateu as cabeças dos homens contra o chão da caverna, esmagando-as. Os ossos partiram-se com sons húmidos e horríveis. O gigante, sem a menor cerimónia, rasgou a carne dos seus membros, comendo-os como se fossem a coxa de um frango, os dentes a estraçalhar a carne, o sangue a escorrer-lhe pela barba desgrenhada. Ele bebeu o sangue dos mortos como se fosse a mais pura água de nascente.
Odisseu e os seus homens assistiram, paralisados, o terror a gelar-lhes o sangue. A civilização tinha acabado de ser devorada, crua, sem tempero e com um apetite insaciável.
Depois de terminar a sua refeição horripilante, Polifemo, com a boca a pingar, virou-se para a sua próxima presa. Os olhos de Odisseu encontraram o olho único do gigante.
— Vocês são o prato principal da noite — rosnou Polifemo, limpando a boca com as costas da mão. — Mas primeiro, preciso de dormir um pouco para digerir os aperitivos.
O gigante bocejou, um bocejo que cheirava a morte e leite azedo, e deitou-se ao lado da fogueira, a sua respiração logo se transformando num ronco rítmico que fazia a poeira no chão dançar.
Odisseu ficou de pé no silêncio que se seguiu. O medo deu lugar a uma raiva fria e calculista. A lei da Xenia tinha sido violada da forma mais brutal. Não haveria negociações, nem diplomacia, nem apelos aos deuses. Havia apenas uma saída daquela caverna: a astúcia, a violência e o vinho de Maron que ainda estava guardado, intocado, num canto escuro.
A caverna de Polifemo não era apenas uma habitação; era um estômago de pedra. O ar, saturado pelo cheiro de gordura queimada e pelo odor ferroso do sangue fresco, pesava sobre os pulmões dos sobreviventes como um manto de chumbo. No centro deste cenário dantesco, o Ciclope terminava o que chamava de "ceia", mas que para os homens de Ítaca era o fim de todo o sentido de humanidade.
Odisseu, o homem que enganara reis e deuses, estava imóvel nas sombras. Os seus olhos, sempre em movimento, observavam a mecânica da destruição. Ele via como Polifemo não usava facas ou talheres; a sua própria dentição era uma guilhotina irregular que moía ossos e tendões com a mesma facilidade com que um moinho esmaga o trigo. O som — aquele estalido seco de fémures a partir-se — ecoaria nos pesadelos de Odisseu pelo resto da sua vida errante.
— Delicioso — resmungou o gigante, limpando a gordura da barba com um pedaço de lã de ovelha. — Estes animais que falam têm um sabor mais complexo do que as cabras. Há um travo de sal... e de medo. O medo torna a carne mais macia.
Sileno, que se tinha encolhido atrás de uma enorme talha de leite, tremia tanto que os seus cascos batiam ritmicamente contra a pedra, um som de castanholas fúnebres. A embriaguez do vinho de Maron ainda o sustentava, mas a visão do canibalismo de Polifemo estava a começar a chamá-lo à sobriedade da pior maneira possível.
— Senhor... — gaguejou Sileno, tentando manter a sua utilidade para não se tornar a sobremesa. — Não quereria... talvez... um pouco de queijo para ajudar na digestão? Ou talvez um pouco de vinho grego? O tinto combina bem com... bem, com o que quer que o senhor tenha acabado de ingerir.
Polifemo olhou para o pequeno sátiro com um desdém monumental.
— O vinho pode esperar, pequeno verme. Primeiro, quero saborear o peso desta carne no meu bucho. Diz-me, líder dos ratos — disse ele, voltando o seu olho único para Odisseu —, porque é que os teus homens tremem tanto? Se a morte é o destino de todos os que respiram, porque fazem tanto barulho quando ela finalmente chega à porta?
Odisseu deu um passo em frente. A luz da fogueira esculpia sombras profundas no seu rosto, fazendo-o parecer uma máscara de tragédia grega. A sua mente estava a operar num nível de frieza que assustava os seus próprios homens. Ele não via apenas um monstro; via um problema de engenharia biológica. Como derrubar uma montanha que se move?
— Trememos não pela morte, Polifemo, mas pela injustiça — respondeu Odisseu, a voz firme apesar do cenário. — No mundo de onde viemos, até os inimigos se respeitam na hora da ceia. Tu comes os teus hóspedes como se fôssemos gado sem nome.
Polifemo soltou uma gargalhada que fez cair pó do teto da caverna.
— "Justiça". "Nomes". Vocês, gregos, adoram inventar palavras para esconder a vossa fraqueza. Aqui, a única justiça é o meu dente. A única lei é a minha fome. E o único nome que importa é o meu, porque eu sou o único que sobrará para contar esta história, se eu me desse ao trabalho de falar com alguém.
O gigante inclinou-se para trás, a sua massa corporal ocupando metade do espaço útil da gruta. Começou a preparar-se para o sono, mas antes, num gesto de crueldade casual, agarrou mais um marinheiro — um jovem chamado Elpenor — e manteve-o suspenso pelos pés sobre as brasas da fogueira, observando as chamas lamberem os cabelos do rapaz.
— Este será o meu pequeno-almoço — declarou o Ciclope. — Vou deixá-lo aqui a "marinar" no calor.
O horror da cena atingiu o seu auge. O grito do jovem, o riso do monstro e o silêncio impotente dos heróis de Troia criaram uma atmosfera de niilismo absoluto. Era aqui que a sátira tocava o seu ponto mais sombrio: o que acontece quando a inteligência não consegue apelar à razão, porque o adversário nem sequer reconhece a existência da razão?
Odisseu percebeu que a retórica tinha falhado. A diplomacia era uma ferramenta para homens; para bestas, era necessário algo mais elementar. Ele olhou para o odre de vinho que os seus homens tinham conseguido esconder no canto. O vinho de Maron não era apenas uma bebida; era um veneno civilizacional. Se Polifemo não respeitava os deuses, respeitaria certamente o poder do êxtase dionisíaco.
— Sileno — sussurrou Odisseu, enquanto o gigante começava a roncar, um som que parecia o rugido de um vulcão prestes a explodir.
— Sim, ó Rei das Astúcias? — respondeu o sátiro, rastejando até ele. — Se vais sugerir que o ataquemos agora, esquece. A pele dele é mais grossa que o casco de um navio. As nossas espadas seriam apenas palitos para ele limpar os dentes depois de nos comer.
— Não vamos atacá-lo com bronze — disse Odisseu, os olhos brilhando com uma luz perigosa. — Vamos atacá-lo com o que tu mais amas. Vamos dar-lhe o presente de Maron. Vamos dar-lhe o esquecimento.
O plano começou a formar-se. Odisseu instruiu os seus homens a prepararem a grande estaca de madeira de oliveira que tinham encontrado no fundo da caverna. Era um tronco maciço, verde e pesado. Enquanto o gigante dormia o sono dos injustos, o estômago cheio de carne humana e a consciência limpa de qualquer culpa, os marinheiros trabalhavam em silêncio absoluto.
A sátira regressava na forma como Sileno, mesmo no meio do terror, não conseguia evitar dar pequenos goles no vinho enquanto Odisseu não olhava. A tragédia e a comédia dançavam juntas naquela caverna siciliana. A morte pairava sobre todos, mas a vida, na sua forma mais desesperada e astuta, recusava-se a apagar-se.
Odisseu afiou a ponta da estaca com a sua faca de bronze, cada movimento sendo uma oração silenciosa a Atena. Ele olhava para o olho fechado de Polifemo, aquela pálpebra rugosa que escondia a única janela do monstro para o mundo.
— Amanhã — murmurou Odisseu para as brasas da fogueira —, amanhã, gigante, verás o mundo como nós o vemos agora: na mais completa e absoluta escuridão. Mas primeiro, beberás. Beberás até que a tua própria divindade se torne um fardo pesado demais para a tua cabeça.
O capítulo termina com o brilho das chamas refletido na lâmina de Odisseu e o som rítmico, quase hipnótico, da respiração de Polifemo — o batimento cardíaco de um pesadelo que estava prestes a ser confrontado pela mente de um homem que se recusava a ser apenas uma refeição. A ceia dos malditos tinha terminado; o banquete da vingança estava apenas a começar.
O gigante acordou com o rugido do seu próprio estômago. O sol da manhã, que se filtrava por uma fenda alta na abóbada da caverna, iluminava a poeira que dançava sobre os restos da carnificina da noite anterior. Polifemo esticou-se, bocejou com a força de um furacão e, sem uma palavra de saudação, agarrou Elpenor, o marinheiro que deixara a "marinar" perto do fogo. O estalo dos ossos foi o sino que anunciou o início do dia.
Odisseu deu um passo em frente, mas não trazia uma espada. Trazia uma taça de madeira esculpida e o odre de Maron, que parecia pulsar com uma luz purpúrea sob a penumbra.
— Grande Polifemo — disse Odisseu, a voz melíflua como o mel de Himetos. — Comeste carne de heróis, um banquete digno de um deus. Mas falta-te algo. Falta-te o sangue da terra para lavar o sangue dos homens. Na minha terra, nunca se termina uma refeição sem este presente divino.
Polifemo parou, um braço humano ainda a meio do caminho para a boca. O seu olho único focou-se no odre.
— O que é isso? Mais leite? O leite das minhas ovelhas é suficiente para mim.
— Isto? — Odisseu sorriu, um sorriso que Sileno, escondido atrás de uma pedra, reconheceu como a rede de um caçador. — Isto é o riso de Dionísio. É a alegria engarrafada. Um gole disto e as montanhas parecem nuvens. Dois goles, e tu próprio sentirás que o Olimpo é pequeno demais para o teu trono.
O Ciclope, movido por uma curiosidade primitiva e pela sede que a carne salgada lhe provocara, estendeu a mão. Odisseu serviu a primeira taça. O vinho de Maron, puro e sem a diluição que os gregos civilizados praticavam, caiu na taça como rubis derretidos. O aroma era tão potente que Sileno, a cinco metros de distância, quase desmaiou de êxtase.
Polifemo bebeu tudo de um só trago. O efeito foi instantâneo. As pupilas do seu olho único dilataram-se. Um calor desconhecido espalhou-se pelo seu peito colossal, suavizando as arestas da sua crueldade.
— Mais! — trovejou o gigante, batendo com a taça no chão. — Isto é... isto é fogo doce! De onde vem esta magia? As minhas vinhas dão uvas, mas o suco é amargo e faz-me dormir. Isto faz-me querer dançar sobre os picos das montanhas!
Odisseu serviu a segunda taça. E a terceira. O plano estava a funcionar com a precisão de um mecanismo de cerco. Sileno, incapaz de se conter, rastejou para perto, tentando "ajudar" na prova.
— Cuidado, patrão! — dizia Sileno, com uma voz de adulação cínica. — O vinho é traidor! Deixe-me provar primeiro para garantir que não está... eh... estragado!
Sileno agarrou o odre num momento de distração de Polifemo e deu um gole profundo. O seu rosto iluminou-se; por um breve segundo, ele não era um escravo na Sicília, mas o líder do cortejo divino, rodeado de ninfas e música. Polifemo, porém, arrancou-lhe o odre da mão com um riso troante.
— Afasta-te, pequeno bode! Este elixir é para os fortes! — O Ciclope bebeu diretamente do couro, o vinho escorrendo-lhe pelos cantos da boca, manchando a sua barba de um roxo imperial. A embriaguez estava a transformar o monstro. A sua agressividade tornava-se numa exuberância perigosa e desajeitada.
— Estrangeiro! — exclamou Polifemo, a voz agora arrastada, as pálpebras pesadas. — Tu és um pequeno rato astuto, mas dás bons presentes. Diz-me o teu nome. Quero dar-te um presente em troca. Um presente de "hospitalidade", como vocês dizem.
Odisseu inclinou a cabeça. Este era o momento crítico, o nó górdio da sua estratégia. Ele sabia que a gratidão de um monstro era tão volátil quanto o vapor do Etna.
— Queres saber o meu nome, senhor? — perguntou Odisseu, a sua voz baixando para um sussurro conspiratório. — O meu nome é famoso em muitas terras, embora não seja o nome que os meus pais me deram no berço. O meu nome é Ninguém.
Polifemo fixou-o com o olho turvo, processando a informação com a lentidão de uma mó de pedra.
— "Ninguém"? Que nome ridículo. Mas seja como for. Escuta bem, Ninguém: aqui está o meu presente. Vou comer todos os teus companheiros primeiro... e guardar-te para o fim. Serás o último prato. É a maior honra que posso dar a um mestre de escanções como tu!
O gigante soltou uma gargalhada que terminou num soluço alcoólico. A sátira aqui era cortante: a "generosidade" de Polifemo era a inversão perfeita da civilização. O presente era a vida prolongada pelo terror, apenas para terminar na mesma mastigação sangrenta.
— Agradeço a tua imensa generosidade — respondeu Odisseu, os olhos brilhando com uma ferocidade contida.
O vinho finalmente venceu a montanha de carne. Polifemo tentou levantar-se, mas as suas pernas vacilaram. Ele caiu para trás com um estrondo que fez as ovelhas balirem de terror nos currais. O seu pescoço pendeu para o lado, e ele caiu num sono profundo e estertoroso. Momentos depois, o gigante começou a vomitar pedaços de carne humana misturados com o vinho tinto de Maron — uma imagem grotesca que simbolizava a rejeição da própria natureza àquela mistura de pecado e sofisticação.
Sileno, vendo o patrão incapacitado, atirou-se aos restos de vinho com um fervor religioso.
— Ele está morto? — perguntou um dos marinheiros, aproximando-se com a espada na mão.
— Não — disse Odisseu, olhando para a estaca de oliveira que tinham preparado e que agora jazia nas brasas da fogueira, a ponta a ficar incandescente. — Ele está apenas no inferno de Dionísio. Agora, o batismo de Ninguém terá o seu rito final.
Odisseu chamou os seus homens. A atmosfera na caverna mudou. O humor bêbado de Sileno desapareceu, substituído pela tensão elétrica do que estava prestes a acontecer. O nome "Ninguém" não era apenas uma mentira; era um escudo metafísico. Odisseu estava a apagar a sua identidade para poder realizar um ato de violência que ecoaria pelos séculos.
— Peguem na estaca — ordenou Odisseu. — Giraremos a lança na ferida como um carpinteiro gira a broca no casco de um navio.
Enquanto o gigante roncava, expelindo vapores de álcool e morte, os gregos levantaram o tronco em brasa. O "batismo" estava prestes a começar. Polifemo tinha recebido o vinho da civilização; agora, receberia o fogo da tecnologia humana. O capítulo encerra com a ponta da estaca brilhando num vermelho infernal na escuridão da gruta, apontada diretamente para o centro daquele olho único que, em breve, nunca mais veria a luz do sol. Odisseu, o "Ninguém", estava prestes a tornar-se o pesadelo eterno de um filho de Posídon.
O silêncio na caverna de Polifemo era agora uma entidade física, pesada e vibrante, interrompida apenas pelo ronco rítmico do gigante, que soava como o motor de uma criação divina avariada. O ar estava espesso com o cheiro a vinho azedo, vómito e o fumo acre da madeira de oliveira que ardia nas brasas. A estaca, um tronco maciço que Odisseu e os seus homens tinham trabalhado com a precisão de carpinteiros navais, brilhava agora com uma incandescência branca na ponta, como se tivesse capturado um fragmento do próprio sol.
Odisseu olhou para os seus homens. Viu rostos pálidos, mãos a tremer e olhos que refletiam o fogo infernal. Viu também Sileno, que se tinha encolhido no canto mais escuro, abraçado a uma bilha vazia, murmurando preces desconexas a deuses que provavelmente não o ouviam. A coragem, naquele momento, não era um sentimento, mas um esforço mecânico de vontade.
— Agora — sussurrou Odisseu. A sua voz era um fio de seda, mas cortava o ar como uma navalha. — Cinco de vós, comigo. Os outros, mantenham-se junto às ovelhas. Se ele acordar antes do tempo, morremos todos, mas morremos a lutar.
Os marinheiros escolhidos aproximaram-se da fogueira. Juntos, levantaram o tronco de oliveira. O calor que emanava da ponta endurecida pelo fogo era tão intenso que as sobrancelhas de Odisseu começaram a curvar-se. Eles caminharam em direção à cabeça do monstro, cujas dimensões pareciam ter crescido na escuridão. Polifemo jazia de costas, a boca aberta revelando dentes amarelados e pedaços de carne entre as gengivas. A pálpebra do seu olho único estava fechada, uma cortina de pele rugosa e suada que escondia o alvo.
Odisseu posicionou-se na extremidade, guiando a ponta ardente. Ele sentia o batimento cardíaco da terra através dos pés, ou talvez fosse apenas o coração do gigante a pulsar. Naquele instante, Odisseu não era apenas um rei ou um guerreiro; ele era o executor de uma sentença que a própria Natureza parecia ter ditado contra aquela abominação.
— À conta de três — disse ele, os dentes cerrados. — Um... dois... TRÊS!
Com um impulso coletivo de desespero e fúria, enterraram a estaca incandescente diretamente no centro da pálpebra do Ciclope.
O som foi algo que nenhum deles esqueceria: o chiar sibilante da carne húmida a ser vaporizada pelo fogo, como o som de metal em brasa mergulhado num balde de água fria, mas multiplicado por mil. O sangue, fervente e escuro, jorrou à volta da madeira, queimando as mãos dos marinheiros, mas ninguém largou o tronco.
— Girem! — rugiu Odisseu, perdendo toda a cautela. — Girem como se estivessem a perfurar o destino!
Eles rodaram a estaca com todas as forças, os músculos a gritar sob o esforço. O olho de Polifemo explodiu sob a pressão, as raízes do nervo ótico sendo consumidas pelas brasas.
O grito que se seguiu não foi humano. Foi um som que pareceu rasgar o próprio tecido da realidade. Polifemo despertou não para a luz, mas para um universo de dor absoluta e escuridão eterna. O seu corpo colossal debateu-se, enviando os marinheiros a voar pela caverna como bonecos de pano.
— AJUDA! — gritava o gigante, tropeçando nas próprias pernas, batendo com a cabeça nas paredes da gruta. — IRMÃOS! CICLOPES! ESTÃO A MATAR-ME!
Cá fora, o som do seu sofrimento ecoou pelas encostas do Etna. Outros Ciclopes, vizinhos de cavernas distantes, acordaram e aproximaram-se da entrada bloqueada pela enorme pedra.
— O que se passa, Polifemo? — gritaram eles do lado de fora, as suas vozes como trovões distantes. — Porque gritas assim na noite, impedindo-nos de dormir? Alguém te está a roubar o rebanho? Alguém te está a matar pela força ou pela astúcia?
Dentro da caverna, Odisseu sinalizou aos seus homens para ficarem em silêncio absoluto. Ele sorriu, um sorriso cruel e vitorioso.
— NINGUÉM! — berrou Polifemo, a voz embargada pelo sofrimento e pela dor. — NINGUÉM ME ESTÁ A MATAR! NINGUÉM ME CEGOU COM FOGO! NINGUÉM ME TRAIU!
Houve um longo silêncio vindo do exterior. Os outros Ciclopes entreolharam-se na escuridão siciliana, coçando as cabeças maciças.
— Bem — respondeu um deles com um tom de irritação —, se "Ninguém" te está a fazer mal, Polifemo, então deves estar doente. E se a doença vem de Zeus, não há nada que possamos fazer. Reza ao teu pai Posídon e deixa-nos dormir!
Os passos pesados dos vizinhos afastaram-se, deixando Polifemo sozinho com o seu carrasco. A sátira de Odisseu tinha atingido o alvo perfeito: ele usara a própria linguagem e a falta de inteligência do gigante para isolá-lo. O nome "Ninguém" era agora a prisão de Polifemo.
O gigante, louco de dor, começou a tatear as paredes da caverna.
— Eu vou encontrar-vos! — rugia ele, as mãos enormes batendo no chão, tentando esmagar o que não podia ver. — Vou despedaçar-vos um a um! Ninguém vai sair daqui vivo!
Ele arrastou-se até à entrada e, com um esforço final de agonia, removeu a grande pedra que selava a gruta. Sentou-se no limiar, com os braços abertos, tateando o ar e as costas das ovelhas que começavam a sair para o pasto matinal. Ele planeava sentir os homens se estes tentassem fugir por entre o rebanho.
Odisseu, porém, já tinha antecipado este último movimento. Ele ordenou aos seus homens que se amarrassem por baixo das barrigas das ovelhas mais gordas e lanudas, unindo os animais de três em três para criar uma cobertura segura. O próprio Odisseu agarrou-se à lã de um enorme carneiro, o líder do rebanho, ficando suspenso abaixo do animal.
Um a um, os animais passaram por baixo das mãos de Polifemo. O gigante sentia o lombo de cada ovelha, murmurando palavras de carinho distorcido: "Ah, minha velha amiga, tu és a primeira a sair hoje... porque não me dizes onde está aquele maldito Ninguém?".
O carinho do monstro pela sua ovelha favorita, enquanto procurava o homem que o destruíra, era a imagem final da sátira dramática: a besta que ama o seu gado mas devora o seu semelhante.
Quando o último carneiro — o que carregava Odisseu — passou pelo limiar, Polifemo apertou a lã com força, mas não sentiu o homem escondido por baixo. Odisseu susteve o fôlego, o cheiro a suor de gigante e sangue a centímetros do seu rosto. Finalmente, o animal avançou para a luz cinzenta da manhã.
Estavam livres. A montanha tinha sido vencida pela ideia. O capítulo termina com Odisseu soltando-se do carneiro e olhando para trás, para a silhueta trágica e patética do gigante sentado à porta da sua gruta, gritando para um céu que não lhe responderia. Odisseu sentiu um misto de alívio e uma estranha compaixão pela figura derrotada. Tinham escapado por um fio, a sua astúcia prevalecera sobre a força bruta. Odisseu sabia que a sua jornada estava longe de terminar, mas, naquele momento, a sensação de liberdade sob o céu matinal siciliano era uma vitória por si só. Os outros marinheiros, um a um, emergiram de sob as ovelhas, os rostos sujos e cansados, mas com um brilho de esperança nos olhos. Reuniram-se em silêncio, ainda a processar a noite de terror e a fuga improvável. A caverna de Polifemo ficava para trás, uma marca escura na encosta, um lembrete do perigo que tinham enfrentado e superado. A lenda de Ninguém, o homem que cegou o Ciclope, tinha nascido.
O ar da manhã fora da caverna de Polifemo era fresco e limpo, um contraste violento com o odor pútrido do interior.
Estavam livres. A luz do sol, que outrora lhes parecera uma dádiva divina, agora era a sua aliada, iluminando o caminho para o mar. Correram, levando o rebanho consigo, uma pilhagem final daquela terra amaldiçoada. Os sátiros, que tinham escapado em massa junto com as ovelhas, corriam à frente, com os seus cascos a bater no chão, os seus rostos expressando uma alegria selvagem e descontrolada.
— Livres! Livres do monstro do olho torto! — gritava Sileno, que galopava no lombo de uma ovelha grande, agitando o odre vazio como um troféu de guerra. — Viva Baco! Viva o vinho que cegou o tirano! O senhor das pastagens é agora o senhor das trevas!
O riso dos sátiros era histérico, uma cacofonia de alívio e humor negro, o coro grego a assumir o seu papel satírico final, transformando o horror numa anedota. Eles sabiam que a sua liberdade era efémera; um dia, outro monstro ou deus zangado os encontraria. Mas naquele momento, a vida era uma corrida ladeira abaixo em direção ao mar azul.
Atingiram a praia onde o navio de Odisseu estava ancorado. Os marinheiros que tinham ficado a bordo, vendo o seu capitão e os seus camaradas a descerem a encosta com um rebanho inteiro, soltaram um grito de alívio e triunfo. A carga foi rapidamente transferida para o navio: ovelhas, cordeiros, os queijos de Polifemo.
Enquanto se preparavam para zarpar, os homens de Odisseu imploraram-lhe que se apressasse. A montanha rugia atrás deles; o gigante, embora cego, ainda era uma força da natureza aterradora.
— Capitão, por favor, vamos embora! — implorou um marinheiro, os olhos fixos na entrada da caverna. — Ele pode não nos ver, mas pode atirar rochas!
Mas Odisseu, o homem de mil astúcias, tinha um defeito fatal: a sua arrogância. A vitória, para ele, não estava completa sem a glória do reconhecimento. Ele tinha de ser mais do que "Ninguém".
Ignorando as súplicas dos seus homens, Odisseu caminhou até à proa do navio. O coração batia-lhe no peito, a adrenalina da fuga a transformar-se em pura vanglória. Levantou a voz, gritando em direção à caverna onde a figura colossal e cega de Polifemo tateava as rochas.
— Ouve bem, Polifemo! — trovejou Odisseu, com a voz a ecoar sobre as ondas. — Se algum mortal te perguntar quem te cegou, quem te trouxe a escuridão e a vergonha, não digas que foi Ninguém! O meu nome é Odisseu, filho de Laertes, o saqueador de cidades, o rei de Ítaca! Lembra-te do meu nome, monstro, e que a tua dor seja a minha glória!
Um silêncio aterrador caiu sobre a baía. A revelação tinha sido feita.
Lá em cima, na encosta, Polifemo parou de tatear. A dor física momentaneamente deu lugar a uma fúria fria e concentrada. Ele levantou os braços em direção ao céu, não para os seus irmãos, mas para o seu pai, o Senhor dos Mares, Posídon.
— Posídon! Pai! Ouve a minha maldição! — o seu rugido foi mais potente que qualquer trovão. — Aquele que se chama Odisseu, o filho de Laertes, cegou-me! Castiga-o, pai! Faz com que ele nunca mais veja a sua pátria! Que a sua viagem seja longa, cheia de sofrimento, perdas e desespero, e que quando ele finalmente chegar a casa, encontre o caos e a dor!
Uma nuvem escura apareceu no céu azul, um sinal da ira divina que tinha sido convocada. O mar, antes calmo, começou a agitar-se.
Odisseu, satisfeito com a sua proclamação, apressou-se a voltar para junto dos seus homens.
— Vamos! Rápido! — ordenou ele.
Os remos rasgaram a água com urgência desesperada. A maldição de Polifemo pairava sobre eles como uma sombra.
O gigante, ouvindo o som dos remos a afastar-se, agarrou numa rocha do tamanho de uma pequena casa e atirou-a, com uma força cega e brutal, na direção do som. A pedra caiu na água a centímetros da popa do navio, criando uma onda que quase os virou e os empurrou ainda mais para o mar. Uma segunda pedra foi atirada, aterrando um pouco mais longe, mas a intenção assassina era clara.
O navio escapou por pouco ao terceiro projétil. Navegavam para o mar aberto, para longe da costa da Sicília e daquele pesadelo vulcânico.
No convés, enquanto a ilha diminuía no horizonte, os marinheiros olhavam para Odisseu com uma mistura de respeito e ressentimento. Ele salvara-os, mas a sua arrogância tinha garantido que a ira de um deus poderoso agora os perseguisse.
Sileno, que observava tudo do seu poleiro no convés, limpou uma lágrima (de rir ou de chorar, ninguém sabia ao certo).
— Ah, a glória dos mortais — murmurou para si mesmo, enquanto a sua prole de sátiros dançava descontroladamente no convés com os queijos roubados. — Vencem um monstro com astúcia, mas invocam um deus com vaidade. Preferia o meu vinho ao orgulho de Ítaca.
Odisseu ficou na proa, olhando para o vasto e incerto mar. Tinha vencido a batalha, mas a guerra contra o destino estava apenas a começar. A narrativa termina aqui, com o navio a navegar para o desconhecido, carregado de ovelhas, de dor e de uma maldição divina, enquanto o riso dos sátiros, um som de escárnio e sobrevivência, se misturava com o som das ondas — um lembrete agridoce de que, no mundo dos deuses e dos homens, a tragédia e a sátira estão sempre de mãos dadas.