O Sujeito C20 apresenta perda de memória permanente e já não está mais tão desorientado. Após quatro meses de experimento, demonstra sinais de uma exemplar necessidade de sobrevivência, raciocínio rápido e uma mente extremamente calculista. No entanto, como Cartógrafo, o sujeito exibe paciência, habilidade e registros de sucesso. O crescimento e a capacidade de adaptação não devem ser negligenciados. Por precaução, C.R.U.E.L. recomenda vigilância.
↳ what you did in the dark? (Before WICKED)
O mundo já estava mais do que corrompido quando Ella nasceu, portanto tê-lo feito não foi, nem de longe, algo que tenha contribuído para sua danação eterna, mesmo que a loira tenha feito parte de um grupo que, desde pequena, jamais foi pacífico – ao menos em tese. Prematura, portadora de problemas cardiopulmonares que, passados os primeiros meses, foram amenizados e Ella necessitou de provisões de remédios que a família não poderia pagar e as oportunidades de saques violentos estavam ficando cada mais escassas. As opções que se apresentavam para a sobrevivência da garota não eram promissoras; a personalidade que despontava durante o processo de crescimento, difícil, no mínimo. Foi um milagre ter sobrevivido durante tanto tempo, um milagre que a loira sequer tem condições de descrever, mesmo com toda a sua calma rigidamente calculada. A menina, mais nova entre duas irmãs, cresceu tão bem quanto as circunstâncias permitiam, mas o desvio na personalidade da menina foi suficiente para que não se encaixasse em uma sociedade que, há muito, estava condenada. Aprendeu a roubar com a irmã mais velha; a caçar, com a mãe; a engolir tudo o que sentia, com o pai. Rockport, no Texas, era uma das menores cidades dos Estados Unidos, e a fama da família não era das melhores. Gregory e Samantha não eram conhecidos por serem pais afetuosos e as violentas brigas eram constantes. A loira se lembrava de, aos cinco anos, escutar por trás da porta os xingamentos que um dirigia ao outro, dividida entre a risada – talvez um dos fatores que poderiam demonstrar sua inclinação psicótica – e o leve medo pelo que o homem poderia fazer com a mãe.
Não demorou muito e o Fulgor chegou à cidade, destruindo laços e qualquer tipo de relação civilizada que um ser humano pudesse construir. Primeiro, seu pai foi assolado pela doença, matando a mãe em uma explosão de loucura que, Ella sabia, não tinha sido causada apenas pelo vírus que infectava seu cérebro, mas pela junção da oportunidade e do próprio estado mental do homem. Tinha sete anos quando presenciou a morte da mãe pelas mãos do pai e não se esqueceu da imagem quando Heidi a pegou pelo braço ou quando ela pôs-se a correr para longe do lugar, fugindo junto à irmã para algo que pudesse dá-las pelo menos um pingo de segurança. Ninguém sabia o que estava acontecendo na época, e Heidi – com treze anos, apenas – não seria aquela quem daria os detalhes exatos para a mais nova. Três anos fugindo foram suficientes para destruir qualquer tipo de humanidade que a filha de Gregory pudesse ter em uma família comum, em outra época. Aos dez anos, Ella já auxiliava a mais velha em saques rápidos e assaltos à mão armada, matando os assaltados se preciso fosse, até Heidi tomar conhecimento de um lugar livre do Fulgor, livre de toda aquela violência e desumanização. Ella não se importava em continuar vagueando pelo que restava dos Estados Unidos, matando aqueles que se interpunham no caminho das duas ou que irritassem a mais nova, mas a jovem de dezesseis anos precisava de uma pausa de tudo aquilo. Seguiram, então, para a cidadezinha, próxima a divisa entre o Texas e Louisiana, em um carro roubado que, muito provavelmente, estava caindo aos pedaços e oferecia mais risco de vida do que uma turba de cranks querendo mata-las. Heidi estava prestes a bater à porta quando foram atacadas por um grupo de cranks grande o suficiente para não abrirem as portas e se arriscarem por duas pirralhas que não valiam o esforço. Ella conseguiu despistá-los, mas não foram capazes de voltar à casa segura até a noite seguinte, temendo que algum infectado estivesse vagando pelas ruas desertas da cidade.
Era tarde quando finalmente conseguiram chegar às portas da casa – mais parecia um forte, do lado de fora – e ninguém fez o favor de atende-las, mesmo que estivessem levando consigo um grupo mais do que grande de cranks. Heidi estava realmente precisando de pelo menos uma bela noite de sono, sem temer que cranks ou sobreviventes tentassem matá-la, então Ella foi a arquiteta de toda a invasão, frustrada graças a um jovem de pouco mais de quinzeanos, que abriu a porta dos fundos tão logo quanto a loira chegou para burlar a pesada fechadura depois de pularem a cerca. Mais tarde ela iria saber que ele se chamava Peter e tinha duas irmãs, não que a loira se importasse muito com aquilo. Heidi, no entanto, pareceu se importar demais com o garoto, para desespero de Ella. Tinham que continuar se movimentando, ou ela acabaria enlouquecendo. Formar laços emocionais era mais perigoso do que a mais nova conseguia descrever, e ela se negou a fazê-lo com o garoto, pelo menos pelo tempo em que ficaram na Casa Segura. Um grupo de mais de quinze pessoas estava abrigado ali, e eles acolheram as garotas da melhor forma que puderam. Por dois anos, Heidi pôde respirar aliviada enquanto se enroscava nos braços de Peter e Ella teve que fingir estar de acordo com toda aquela palhaçada, tentar se encaixar na pequena sociedade que estava se formando foi mais difícil do que ela poderia ter esperado, mas conseguiu se sair bem, durante o curto espaço de tempo.
A aparente paz acabou na manhã em que Ella, Peter e alguns outros voluntários foram buscar provisões ao redor da cidade, no intento de alimentar o restante das bocas famintas que só aumentavam na instituição. Estava tudo calmo, até começarem a voltar para a sede e encontrarem o lugar em um completo caos. A gritaria que parecia rasgar o silêncio rotineiro alertou não só Ella, como o restante dos voluntários e eles correram para salvar quem estava dentro da casa. Heidi não tinha se voluntariado naquele dia já que estava dormindo e, por um momento, o sangue da mais nova queimou em suas veias com a possibilidade da irmã estar no meio de toda aquela confusão. Correu o mais rápido que pôde, atirou em quem estivesse em seu caminho, fosse crank ou sobrevivente e se viu presa dentro do pequeno quarto que dividia com a irmã. Quando não a encontrou lá, Ella sentiu a cólera de uma vida se abater sobre ela, enlouquecendo-a rapidamente por um breve período de tempo e tentou exterminar o restante de cranks presentes, mas era inútil e ela sabia daquilo, ao se dar conta da quantidade de corpos saudáveis que se estendiam pelo chão. Peter estava no hall, aparentemente trêmulo e ela não conseguiu deixar de ajuda-lo. Estava claro que a Casa Segura não era mais tão segura assim, e Ella não teria chances de sobreviver ao deserto ou a qualquer coisa parecida se não tivesse um parceiro, já que Heidi estava… Não se permitiu pensar sobre o assunto, apressando-se para perto do garoto e olhando, justamente, para onde ele estava mirando. Heidi. Ela já tinha se tornado em uma deles e o idiota não estava conseguindo se dar conta disso. Quando Peter hesitou, Ella levantou a pistola que levava consigo e descarregou todo o pente na garota que um dia foi a sua irmã, a namorada de Peter e a única pessoa com quem ela podia contar. Depois disso, ela só conseguiu escutar o silêncio sendo preenchido pela sua risada. Lembrava-se de ter sentido lágrimas nos olhos. Aparentemente, ela ainda tinha alguma humanidade, mas ela fora destroçada quando a vida partiu dos olhos da mais velha. Estava sozinha, enfim sozinha – ou nem tão sozinha assim, já que, segundos depois disso, sentiu o tapa na mão e, logo depois, sentiu seu corpo tremer sob as mãos do garoto, que a sacolejava. Peter.
Eles fugiram, depois disso. Ela se recusou a tocar no assunto e ele, também. Dois anos correndo como fugitivos, mal conseguindo dormir, famintos e um salvando a vida do outro consequentemente trouxeram algum conforto para os dois, mas nada seria o mesmo, não depois do que ela fizera – já tinha matado antes, era verdade, mas nunca a única pessoa que estivera com ela durante todo o tempo. Conviveram juntos, aprenderam a se suportar até o momento em que Ella se viu levemente conformada pela presença de Peter. Ele não era Heidi, mas também não tentava ser. Ela se aproximou o máximo que conseguiu de Peter, o que não era muito, mas os dois tornaram-se essenciais um para o outro. Ella precisava de, pelo menos, uma via de contato com seres humanos, ou acabaria sucumbindo ao que seu cérebro a mandava. Quando CRUEL os encontrou, Peter era o que eles queriam, e ela era um estorvo. Conseguiu sabotar o caminhão que o pegou, pelo menos até ser neutralizada e acordar na sede da organização, devidamente limpa e alimentada – aparentemente, suas façanhas tinham impressionado alguém dentro do lugar, ou ela estaria queimando no sol e exposta aos cranks. Um ataque de pânico se seguiu, quando se lembrou de que não sabia onde diabos Peter estava, mas calculou que, talvez ele estivesse bem. Ele precisava estar bem.
Encontrou o garoto alguns dias depois, logo após sair da quarentena e não conseguiu deixar de se sentir levemente emocionada. Estava vivo e bem, mas, se dependesse de CRUEL, aquilo logo mudaria. Depois de algum tempo, que ela não saberia dizer quanto, ele desapareceu e a loira ignorou o fato até tornar-se inevitável pensar no assunto. Não sabia porque a organização estava recolhendo jovens e, sinceramente, tudo o que a importava era que não estava passando fome, jogada aos cranks. Eles a treinaram por alguns meses – o que despertou seu interesse pela cartografia e por tudo relacionado a mapas, mesmo que, enquanto fugiam, fosse ela quem lesse os objetos —, antes de mandarem-na para uma sala gelada, onde, pela primeira vez em anos, Ella sentiu o genuíno medo assolar seus sentidos.
↳ So light them up! (The Maze)
A loira chegou pela Caixa há quatro meses e não lembrou sequer seu nome durante o primeiro mês na clareira; os clareanos, portanto, apelidaram-na de Jane Doe, um artifício usado por policiais que não conheciam as origens de vítimas de homicídio e que nenhum parente se manifestava para a procura. Os dias iniciais no lugar foram difíceis para a menina. Quando apareceu pela Caixa, Ella mal conseguia falar, esquecendo-se, por pouco, de como fazê-lo. Não chorou ou se comportou como uma pirralha chorona, no entanto, encarando a todos os clareanos que se apresentaram com curiosidade mais do que mórbida, como se estivesse os analisando e listando as suas falhas estruturais ou qualquer tipo de desabilidade. Desde fedelha, a garota não conseguiu se encaixar em sequer um dos trabalhos que lhe foram dados – a menos que se conte as horas que passou como açougueira, mas, pela baixa estatura e estrutura corpórea, foi desabilitada da ocupação.
Os dias adaptativos que se seguiram não obtiveram sucesso visível para o restante dos clareanos, já que a garota não se adaptava a, basicamente, nenhuma das funções. Estava prestes a ser cotada como aguadeira quando finalmente entrou na sala onde mantinham os mapas. Lembrava-se de ter sido desafiada por um dos corredores a desenhar um mapa que reproduzisse a Clareira em uma certa escala e de ter sorrido como a psicopata que ela, aceitando o desafio sem pensar duas vezes. Meia hora depois, entregou o papel para o corredor e saiu da sala, para então, no dia seguinte, ser, finalmente, chamada aos cartógrafos. Não era um trabalho onde ela precisava se submeter a outros clareanos – coisa que detestava – e tinha um certo poder. Ella nascera para desenhar mapas. A relação com o restante do grupo era a mais amena possível, já que a loira buscava evitar conflitos com uma frieza calculada. A manipulação se desenvolveu depois que se situou no lugar, usando-se dela para aprender todos os segredos que os clareanos já tinham certeza acerca do Labirinto e da própria Clareira com uma curiosidade quase patológica. Ella não é odiada, mas também não é amada pelo restante do grupo; mantendo certa distância de todos por puro instinto, dado o seu passado. Todos aqueles com os quais ela se importou ou morreram ou foram levados e ela não sabia para onde foram, então a loira não era a melhor companhia, na maior parte do tempo. Com o passar dos dias, ela se demonstrou sarcástica, manipulativa e, aparentemente, angelical – já que o restante do grupo não tinha como vê-la pelo que realmente era: um lobo dentre cordeiros. Tendenciosa à teatralidade na hora de obter o que deseja, a loira nunca se demonstrou muito séria conquanto ao seu papel como um todo na Clareira, sua paciência não é das mais desenvolvidas – apesar de ter prazer em detectar padrões –, nega-se constantemente a seguir ordens que não sejam dadas por ela mesma e seu senso de comunidade é distorcido ao extremo, mas ela sempre encarou as paredes gigantescas que separavam os clareanos dos verdugos como uma oportunidade. Todo o ambiente era uma oportunidade, e ela se aproveitaria da ocasião para descobrir o que diabos ela estava fazendo ali.
Idade aproximada: 14-16












